Tag: Lars Von Trier

Quem seria Lars Trier? Nascido em 1956, na cidade de Copenhagem, é carinhosamente chamado de Lars von Trier. O “von” foi adotada por ele durante o período em que esteve na Danish Film School, pois se tratava do apelido dado por seus amigos da época. Trier consegue ser um dos mais (ou o mais) polêmicos diretores do nosso tempo. Tendo até recebido pela direção do Festival de Cannes a declaração de persona non grata, como sinal de repulsa ao cineasta dinamarquês, por suas declarações , brincalhonas, segundo ele alegou mais tarde, de simpatia por Adolf Hitler e pelo nazismo. Dá pra ver que tanto atrás das câmeras quanto pelas obras realizadas, ele é polêmico. Mas brilhante e completamente fora do padrão, costuma ser o oposto do que chamamos previsível. Com filmes que abordam temas pesados ou assuntos mais delicados, ele é responsável por várias obras primas do cinema. Você nunca vai saber o que esperar, já que a surpresa é uma das maiores armas desse grande diretor.

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Mas não foram apenas seus filmes que o tornaram conhecido. Ele, junto a seu amigo Thomas Vinterberg, foi um dos idealizadores do “Dogma 95”. Trata-se de um manifesto para a criação de um cinema mais realista e menos comercial, contendo 10 regras para um filme, podemos dizer que, mais teatral. Nele não são permitidos o uso de algumas tecnologias, tendo que ser filmado em câmera de ombro e sem qualquer tipo de suportes. A trilha sonora seria apenas o que ressoar no local da cena, e nada de muitos cenários, efeitos especiais ou truques fotográficos. Os filtros são estritamente proibidos (Claro que o Dogma 95 é muito mas complexo que isso, e apenas dei um resumo básico do seu conceito). Porém em seus filmes, apenas um deles segue à risca essas 10 regras: Os Idiotas, de 1998. Então sem mas delongas, vamos para os filmes:


1-Dancer in the Dark (2000)

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Protagonizado pela cantora Björk, Selma é uma imigrante tcheca, mãe solteira, que se muda para os Estados Unidos com seu filho Gene. Para sobreviver, trabalha em uma metalúrgica. Porém Selma sofre de uma doença hereditária degenerativa, que a cada dia lhe ocasiona uma rápida cegueira progressiva. Por este motivo Selma guarda cada centavo que ganha, em uma lata na sua cozinha, com o objetivo de custear uma operação que evite que seu filho sofra do mesmo destino que o seu. E foi justamente por isso que se mudaram pra os E.U.A, onde existem mais opções de médicos e tratamentos. Mas o que já esta ruim tende a piorar, e várias coisas começam a acontecer com a personagem ao longo do filme. Sendo um dos filmes mais tristes de Trier, é realmente impressionante e muito bonito. Com vários prêmios importantes ganhados, como a palma de ouro e o de melhor atriz para Björk (Cannes), é um dos meus favoritos.


2-Dogville (2003)

Dogville (2003)

Um dos filmes de Lars Trier que mais cumprem com as regras do Dogma 95, apresentando muita simplicidade em seus cenários ou até com ausência deles. Literalmente são riscos no chão e cortes de cenas pouco convencionais. Todo o filme foi gravado dentro de um galpão na Suécia, com câmera no ombro e ausência de trilha sonora ou deslocamentos temporais. Entretanto foi usada iluminação artificial e cenografia, itens proibidos no Manifesto Dogma 95. Com várias referencias ao teatro incluídas no longa, como o absurdismo, em que os atores improvisam e criam situações em que interagem com objetos que não estão ali como portas invisíveis e assim por diante, o filme é parte de uma trilogia com dois que eram para serem lançados, mas apenas um saiu, a terceira parte ainda esta sem previsão.

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Começa quando Grace se esconde de criminosos que a perseguem. A pequena cidade de Dogville se dispõe a refugiar-la, desde que ela faça valer o esforço. Ela trabalha duro para várias pessoas da cidade para obter seus favores. Mas aos poucos eles começam a perceber que ela lhes deve muito mais. O filme começa aparentemente normal, e com o passar do tempo vai mostrando um lado sombrio e pesado, chegando a um final de deixar qualquer um boquiaberto. (Para um maior aprofundamento veja na nossa de Dogville aqui no cinerama, não vai se arrepender)

3-Anticristo (2009)

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Considerado um dos mais violentos,macabros e explícito filme de Trier, esse filme de terror é protagonizado por Willian Dafoe e Charlotte Gainsbourg. Trata-se de um casal que acaba de perder, de uma forma trágica, seu único filho. A mãe entra numa depressão gravíssima, e seu esposo, que é psiquiatra, os isola totalmente da sociedade, indo viver com ela rusticamente em uma cabana na floresta.

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É um filme que começa lento, mas a partir do momento que eles se mudam para a cabana, começa a esquentar. Com uma beleza visual fantástica e fotografia que te joga dentro da história, o clima passa a ficar cada vez mais sombrio. Com atuações impactantes e roteiro um pouco forte e pesado, é um filme inteligente e assustador. Lars não poupa o seu público e entrega um produto doloroso de se ver e que muito se assemelha a uma espécie de tortura para a sua mente. Para poucos, mas, uma obra prima.

4-Melancolia (2011)

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Mas uma vez contendo Charlotte Gainsbourg, como também Kirsten Dunst e Kiefer Sutherland. Todos eles sensacionais em seus papéis. Como o próprio nome diz, umas das produções mais tristes de Trier. Com uma mistura de drama e suspense, esse longa traz uma fotografia bem sombria/escura, com os clássicos takes em câmera lenta que dão aquele toque mais macabro ao filme. Justine (Kirsten Dunst) está prestes a se casar com Michael (Alexander Skarsgard), e recebe a ajuda de sua irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg). Mas ao mesmo tempo que tudo isso acontece, nossa protagonista passa por problemas pessoais, chegando a surtar muitas vezes. E como se não bastasse, eles estão perto do fim do mundo, pois existe o risco de um outro planeta colidir com a terra. O filme é uma clara alusão a depressão em si e em todo o seu contexto. Com fotografia, trilha e atuações belíssimas e que ajudam bastante, um claro estudo da vida por Lars von Trier. (Também temos uma ótima crítica aqui no cinerama sobre o Melancolia, confere lá porque vale a pena!)

5-Ondas do Destino (1996)

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O filme que trouxe a tona o grande potencial de Trier, pois foi quando ele passou a ser mais reconhecido. Nunca espere um filme tranquilo, quando a direção esta nas mãos de Lars von Trier. A trama é passada no norte da Escócia, onde uma jovem mulher com uma leve deficiência mental, Bess (Emily Watson), se apaixona e se casa com um dinamarquês (Stellan Skarsgard, 1 de 5 filmes que ele viria a participar com Lars). Ele trabalha em uma plataforma de petróleo e sofre um acidente onde quebra o pescoço e fica provavelmente incapacitado para o resto da vida. Nesta situação e vendo sua mulher sofrendo, ele a pressiona para procurar amantes e depois a contar os prazeres e detalhes de suas experiências. Bess não deseja isso e sofre tremendamente em seu suplício. Mas assume que seu propósito em vida é servir aos outros e abdicar de si mesma em nome do amor. Isso é só um breve resumo da grandiosidade que o filme tem, numa atmosfera totalmente única e com interpretações e abordagens bem delicadas. Como sempre uma fotografia lindíssima, paisagens de grande beleza e com a brilhante e hipnotizante atuação de Emily Watson. Muito, mas muito comovente. Uma obra essencial sobre o amor, a bondade e principalmente a humanidade.

 

Aqui no Cinerama nós temos uma liberdade bem legal para analisar diversos filmes, como por exemplo estas duas análises que a galera colocou no ar, uma sobre o Clube da Luta e a outra sobre O Senhor dos Anéis.

O que eu resolvi fazer? Eu resolvi encarar a missão de te indicar mais um ótimo e difícil filme

O que eu espero com esse texto é fazer você dar um passinho a mais em direção aos filmes complicados de assistir. Essa é a graça da arte, eu não estou aqui para te traduzir nada, só vou te apontar um caminho que eu segui e que me serviu; dali pra frente a tarefa é toda sua, caberá a você encarar o filme e descobrir suas próprias interpretações.

A sua experiência refletida no filme

Quando um estranho torna-se um problema?

Você obedece a uma rotina especifica na sua vida e os seus dias estão amparados por essa rotina. Imagine que o seu cotidiano funciona como uma roupa nova, assim que ela é comprada algumas coisas não se acertam bem, talvez a cor da roupa seja excessivamente chamativa, talvez a etiqueta fique incomodando ou você apenas se sinta inseguro de ter de usar aquela roupa nova sem saber se será bem recebido ou não. Com o passar do tempo, e após muitas lavagens, a roupa ganha contornos e se adapta perfeitamente ao seu jeito, a sua personalidade ganha uma extensão através da roupa.  A cidade de Dogville funciona como uma roupa, apesar de problemática, suas falhas e seus defeitos se encaixam perfeitamente do mesmo modo que a sola do seu sapato se adapta ao seu modo de caminhar.

O que acontece quando um elemento estranho é apresentado a sua rotina?

Se você imaginar que o começo de uma pessoa nova no seu trabalho, um novo aluno na sua sala. Um novo professor para uma matéria antiga, enfim, todos os elementos de mudança causam uma readaptação da rotina, a readaptação gera um vácuo momentâneo, o espaço entre a antiga rotina, local seguro em que o cotidiano já estava adaptado, e os novos dias, local devassado pela presença estranha, este espaço entre um modelo antigo e o novo pode ser ocupado por toda a sorte de sentimentos.

Explico; você pode sentir aversão pelo colega novo, ou apaixonar-se por ele, ou sentir medo, raiva, raramente a sua resposta será o desinteresse. É com isso que Dogville brinca. Dogville analisa, de forma cruel e sem pudor, como um elemento estranho pode ser objeto dos mais variados sentimentos.

Dogville olha para o preconceito

Sem estabelecer nenhuma espécie de censura o filme demonstra que a relação entre nós e o elemento estranho depende unicamente da nossa sensação de poder com relação a ele; Como assim? Bem assim.

Imagine três situações… A casa ou o apartamento ao lado está vago, sempre esteve vago, você vive ao lado deste espaço vazio por mais tempo do que consegue se lembrar, pois bem… Amanhã ele estará ocupado.

No primeiro cenário ele será ocupado por um mendigo que não tem sequer o que comer, o sujeito vai certamente passar frio e fome se ninguém fizer nada e como você é a pessoa mais próxima a ele, a responsabilidade acaba sendo sua.

Uma outra possibilidade é o espaço vago ser ocupado por um ex detento, este cumpriu pena por roubo seguido de morte e agora será o seu novo vizinho.

A terceira alternativa é o apartamento ao lado ser ocupado pelo seu chefe, pela diretora do seu colégio, o seu professor mais rígido ou a figura de autoridade mais importante da sua vida.

E agora cabe a você entender e determinar qual será a sua reação para cada situação, Dogville analisa isso através da violência e o diretor, sempre despudorado, não tem receios em apontar o dedo na cara e dizer o que ele pensa que você faria em cada uma das situações.

Nós sabemos que o filme é muito mais do que isso, eu poderia ficar aqui falando sobre a fotografia, sobre como o filme funciona através de um cenário Teatral, poderia escrever sobre cada uma das personagens ou avisar, assim meio que sem querer, que o filme conta com a participação da Nicole Kidman, mas nós estamos em 2017 e eu sei que a maioria de vocês já sabe de tudo isso.

A questão é, como assistir a esse filme?

Assim mesmo, com a mente aberta, esteja pronto para cenas chocantes, esteja pronto para o terror do preconceito e esteja pronto para reconhecer-se humano em cada um deles.

Lars Von Trier vai te chocar e ele, normalmente, não pede desculpas.

Não é fácil assistir a um filme do Lars Von Trier e nós não vamos fingir que seja; normalmente os filmes são construídos sobre diversas referências artísticas que estão fora do cotidiano da maiora das pessoas, como o uso da música clássica, pinturas e o uso absurdo de referências cinematográficas de filmes antigos. Poucos cinéfilos podem bater no peito e dizer “eu entendi todas as referências desse filme” e cá para nós, de verdade, eu acho que quem fizer isso estará mentindo um pouquinho.

Qual é a boa notícia? Não é preciso saber todas as referências nem ser um catedrático para poder apreciar e entender Lars Von Trier

O filme Melancolia, lançado em 2011, é um ótimo exemplo de como dividir o público entre; esnobes pretenciosos que acreditam ser a nova maravilha do mundo, portadores das verdades absolutas da Arte com A maiúsculo e completos desencanados que não entendem, não querem entender e honestamente acham muito chato do outro lado. Pois é, para que você não seja nenhum deles nós vamos tentar te dar uma dica chave de como poder apreciar este filme denso, que trata de um assunto muito complexo sem cair na pretensão nem no tédio. Vamos lá.

O filme Melancolia trata especialmente de depressão. E aí você vai me dizer, não sofro de depressão, nunca sofri, não conheço ninguém que sofre e não gosto do tema, acho pesado e acho chato, não quero saber, não conheço o sentimento!!

Ah, conhece sim… você conhece

Imagina que você participou de um relacionamento, você teve uma namorada, amigo, familiar e conviveu com essa pessoa por um bom tempo. Vocês foram a diversos lugares juntos e fizeram muitas coisas, já trocaram presentes, emprestaram, construíram, brigaram, vocês trocaram marcas juntos, quando você entra em casa essa pessoa está espalhada por todo o ambiente.

Um livro que você ganhou dela, um cartão, a falta de um dvd que você emprestou e ela nunca mais devolveu (e você nem quer o dvd mesmo, já baixou o torrent em Blueray, por que será que o espaço na prateleira continua vago?)

Agora imagina dois desfechos para este cenário.

A pessoa continua bem, continua tranquila e vocês mantém contato; o relacionamento, embora tenha recebido o efeito natural da passagem do tempo, progride normalmente, todas as vezes que você encontra as marcas desta pessoa na sua casa, e na sua personalidade, você lembra dela com carinho e compreende que o tempo passou, dá saudade mas faz parte da vida estar triste, as coisas são assim.

O segundo cenário é, essa pessoa morreu, um dia ela bateu o carro quando estava vindo para a sua casa e o óbito foi instantâneo. Um voz desconhecida te avisou da morte pelo telefone e daquele momento em diante a vida havia feito uma transformação repentina demais para você digerir, como… Como estar no meio de um banho quente e de repente cair água gelada e você não ser capaz de sair de baixo do chuveiro.

A primeira reação para o segundo cenário é o sentimento de desconexão com o tempo corrido, as horas passam, o relógio funciona, o metrô chega, as pessoas trabalham e saem para almoçar, mas nada se move dentro de você, e não se trata de prostração, não estamos falando dos casos mais complexos da doença quando a pessoa não é funcional, neste nosso exemplo você continua atuando, come, dorme, dá risada e faz o seu horário de almoço contudo de algum modo o tempo não corre mais dentro de você.

Os vestígios da pessoa se tornam um museu de tudo o que você perdeu, inexiste a saudade complacente, o espaço vazio de tudo o que está faltando começa a ter mais valor do que o espaço ocupado por tudo o que está presente. Você começa a ser um aficionado por copos meio vazios.

Melancolia do Lars Von Trier é, além de muitas coisas, uma referência visual para este sentimento, suas cenas são desconexas, o senso de passagem do tempo não existe, permeia a falta. É da falta que sobrevive a depressão, mesmo a falta de tristeza.

Um filme complexo para expressar um estado complexo, contudo, e eu sinto muito por bater nessa tecla, Melancolia é um filme importante, pois ele fala de uma doença que ninguém dá para ela o devido valor (EU SEI, isso você já leu MUITO em muitos sites e está lendo aqui novamente, pois é, leve a sério).

O que nós não estamos dizendo…

Nós não estamos dizendo que você deve parar agora mesmo de assistir pela décima vez How I met Your Mother e fundar uma ONG para pessoas que sofrem de depressão, não, você pode rir e é preferível que você seja uma pessoa muito feliz, tomara mesmo, só estou dizendo que filmes como Melancolia são necessários e fundamentais para que você possa evoluir como pessoa e conhecer um pouco mais sobre si mesmo. Nada como encarar um filmezinho difícil de vez em quando.

Nossa mas você ia falar do filme Melancolia, não falou e falou sobre depressão, mas que po…?

 É que não tem como, eu não posso simplesmente te empurrar a minha interpretação para o filme porque eu honestamente acredito que isso seria pretensão demais, eu não sei como você vai reagir a este filme, tudo o que eu sei é que seria bem legal se você se desarmasse um pouco e encarasse essa obra, mesmo que ela seja difícil, pois eu realmente acho que se você fizer isso vai encontrar em Melancolia uma ótima fonte de inspiração para os momentos ruins, não como um livro de auto-ajuda-coach faria mas como uma fonte de arte que te entende e não tem preconceitos.

 

E você, o que acha? O que achou do filme e o que você encontrou nele? Comenta aí

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Federico Fellini

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