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2. O Triunfo da Verdade

Entre os dias 30 de Agosto e 03 de Setembro de 1933, o Partido Nacional Socialista
dos Trabalhadores Alemães decidiu comemorar o 5º congresso, em Nuremberg na
Alemanha, que foi filmado pela famosa cineasta alemã Leni Riefenstahl. “ A vitória da
Fé” foi o primeiro documentário, totalmente produzido pelo Ministério de Propaganda,
e serviu como um teste para Leni, sendo que, logo depois, surgiram novos convites
para outros documentários, sendo o “ O Triunfo da Verdade “ o mais importante deles,
se tornando um dos mais famosos filmes de propaganda política da história.

O então ministro da cultura e propaganda, Paul Joseph Goebels, evidencia a
importância da propaganda política e ideológica: “ Pode ser que o poder baseado nas
armas dê certo, entretanto é melhor e mais gratificante vencer o coração da nação e
mantê-lo”.

Nesse documentário, Hitler é apresentado como um deus. É ovacionado por toda
a multidão que o aguardava durante um congresso do Partido Nacional Socialista. Tendo
claramente uma natureza manipuladora, ideológica, a propaganda nazista preparava o
povo alemão na amenização de qualquer culpa ao matar e eliminar qualquer elemento
que não pertencesse a raça ariana.
Durante o documentário, é interessante perceber os close-up (planos fechados)
que mostram pequenos detalhes, como as feições de alegria do povo ao ver Hitler,
os pés das crianças que se esforçam para ver o seu Führer . É clara a intenção de
legitimar o nazismo, mostrando que aqueles que estão ali, estão por vontade própria.
Em várias partes do filme, percebe-se uma tentativa de valorizar o trabalho no
campo, no entanto não passa apenas de uma valorização simbólica, afinal a massa
não participa das decisões políticas. Os discursos parecem sempre refletir e reafirmar
a ideologia nazista, sempre citando a história do partido a fim de demonstrar orgulho.
Expressões como “ camarada” são constantemente usadas, pois tem a função de
agrupar os pertencentes ao regime, fazendo com que cada um se sinta parte de um
grupo.
Esta obra fica para a história como uma demonstração do poder da utilização
de simbologias e expressões que remetiam a autoridade, poder, força e adoração a um
líder, e como tudo isso mudou a história do povo alemão.

3. De Caligari a Hitler.


Talvez a melhor forma de entender o estado de espirito da Alemanha no período
entre guerras, seja por uma análise do livro “ De Caligari a Hitler” de Siegfried Kracauer.
O escritor alemão via nos filmes do período pré-hitlerista o comportamento e as relações
intrínsecas entre os indivíduos de uma população doente, beirando a insanidade. O
cinema da época, segundo Kracauer, refletia o inconsciente de um povo culturalmente
elevado, mas que já sofria dos temores de uma nova guerra e por isso produziria uma
arte em que o tenebroso, o macabro e as taras psíquicas do homem, seus medos, seus
vícios e o seu interior doentio são explorados através da iluminação, cor, som, imagem,
ângulos de filmagens etc. Em seu interior, a nação escondia algo muito embaraçoso: o
nazismo.
Nesta obra, Kracauer sugere que os personagens loucos e tiranos que eram
tão famosos nos cinemas Alemão após a primeira guerra mundial, eram protótipos da
insanidade e tirania que viria a tomar conta da Alemanha nos anos 30. O Historiador
nota que temas como a divisão da alma e a rebelião eram recorrentes em produções
cinematográficas da época, o que poderia significar um prenuncio do que viria com
a ascensão de Hitler. Tais características poderiam revelar sintomas sociais de uma
sociedade que acabara de sair de uma guerra que provocara milhões de mortes. Sobre
a temática o autor afirma:

“Os filmes de uma nação refletem a mentalidade desta de uma maneira
mais direta do que qualquer outro meio artístico (. . . ). Primeiro, os filmes
nunca são produto de um indivíduo (. . . ) segundo porque os filmes são destinados
às multidões anônimas. (. . . ) Ao gravar o mundo visível – não importa se a
realidade vigente com um universo imaginário – os filmes proporcionam
a chave de processos mentais ocultos. (. . . ) O que conta não é tanto a
popularidade dos filmes estatisticamente mensurável, mas a popularidade
de seus temas pictóricos e narrativos. (. . . ) Assim, por trás da história
explícita da Alemanha (. . . ) existe uma história secreta envolvendo dispositivos
internos do povo alemão. A revelação desses dispositivos através do
cinema alemão pode ajudar a compreender a ascensão e a ascendência de
Hitler.”
(Kracauer 1988, pp. 17-20).

"O cinema é um modo divino de contar a vida"
Federico Fellini

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