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Nise da Silveira foi uma psiquiatra que através de metódos humanitários conseguiu resgatar um pouco da dignidade de alguns pacientes (clientes como ela preferia chamar) em um hospital do Rio de Janeiro na década de 50.
Este é o ponto de partida do longa metragem interpretado por Glória Pires e com a direção de Roberto Berliner, Nise – O coração da loucura.


O grande acerto no roteiro é não fazer uma biografia da Dra. Nise. Ele foca num momento da vida no qual ela voltava de alguns anos de afastamento para enfrentar todos os doutores do hospital e seus métodos violentos. Acerta em focar na força que ela teve de encarar e peitar o machismo da época (e que infelizmente ainda existe) e jamais abaixar a cabeça enquanto estava dentro do hospital. Se tivesse que desabar, o fazia em casa. A interpretação da Glória Pires é excelente! O elenco de apoio também está muito bem, afinal interpretar pessoas com problemas mentais não é tarefa fácil, ou você acerta ou vira piada.
Um ponto de evolução no cinema nacional é quanto a cinematografia. Este filme tem pouquíssimos cenários (hospital, casa da Dra Nise, um parque arborizado) e ainda assim não fica monótono, ponto para a direção de fotografia que explora todos os cantos desses poucos cenários em múltiplos ângulos.


Talvez um erro ou recurso preguiçoso na narrativa fica por conta do personagem Lima, enfermeiro que demonstra resistência com a chegada de Nise e seus comandos, que no início parecia um vilão incorrigível e no meio do filme se transforma sem muita explicação. Nada que estrague o desenvolvimento.
Este pode ser considerado um filme atemporal por dois motivos: não evoluímos em nada quando falamos de tratamentos psiquiátricos, principalmente no trato humano, o preconceito é declarado. E o machismo continua imperando.


Portanto peguem o exemplo de Nise da Silveira, e você mulher, independente da profissão que exerça ou do cargo que ocupe, jamais abaixe a cabeça ou submeta-se a humilhações. Lute e acredite em você.
Mais uma vez o cinema entrega mais do que um filme, entrega um ótimo material de conscientização.

Sabe aqueles filmes nacionais que vivem à margem do circuito comercial e são excelentes? Então, tenho mais um que preciso acrescentar na lista: O Último Cine Drive-in.
A direção é do Iberê Carvalho, sendo este seu primeiro filme. O longa é uma grande homenagem aos drive-ins, (estabelecimentos que exibiam filmes e tinham como teto as estrelas e que infelizmente não conheci nenhum), além das homenagens aos grandes clássicos do cinema. Homenagens estas sempre discretas, seja num pôster na parede ou uma cena projetada na tela. Também existe a crítica ao cinema blockbuster/artifical de shopping que engoliu os cinemas de rua.
Acrescente a isso uma tentativa quase remota de reconstruir uma família machucada por traumas do passado e um grave problema no presente.
O longa tem como cenário a capital do país. A fotografia do filme é belíssima e usa muito bem o céu de Brasília ensolarado para conseguir imagens que parecem pinturas (Terrence Malick ficaria com inveja), além dos enquadramentos que ora te dão a sensação de ser tão pequeno perante a cidade e ora fecha nos close-ups bem íntimos. Este filme pode ser considerado uma fábula moderna pois tem uma positividade intrínseca que te prende. Mas antes de chegar nisso passamos por cenas muito engraçadas indo em encontro a outras que cortam o coração.
Othon Bastos interpreta Almeida, o dono do drive in. Breno Nina vive Marlonbrando (isso mesmo!) e Rita Assemany dá vida a Fátima, mãe do “Brandinho“. O elenco de apoio também manda muito bem.
Portanto, assista esta magnífica e emocionante “aventura” o mais rápido possível. O filme abre com uma cena muito forte e triste, e encerra com outra que é humanamente impossível não chorar.
É o cinema brasileiro provando aos brasileiros que consegue ser muito mais do que comédias globais.

Um clássico futurístico na era moderna, nosso aclamado Steven Spielberg retorna em uma produção incrivelmente arriscada porém inovadora, muitos acreditavam que daria errado porém precisávamos de uma trama nerd e sensacional como essa. Oque realmente chama atenção como ato primordial é a quantidade de Easter Egg adicionado na trama e isso trouxe um impacto claramente novo para nós amantes de cinema, trazendo referências a diversos filmes e jogos o filme realça muito o uso do VR(Gear VR) porém mais aprimorado.

‘Jogador Nº 1′ é um filme tecnológico com efeitos especiais totalmente realistas comparáveis ao 3D de consoles como de ‘Playstation 4‘ e ‘Xbox One‘, traz toda a magia cinematográfica que já vivenciamos quando eramos mais novos de uma forma diferente, o publico sente como é estar dentro de uma nova era e os efeitos trouxeram isso assim como o enredo adicionando jogos como OverwatchStreetFighterTekken e outros como jogos de Super Nitendo. Tudo parece um mar de rosas em diversão com os jogos, porém o segundo ato é diferente do que vimos em teaser trailer se tornando algo muito maior e os jogadores arriscando sua propiá vida pela conquista principal do Oasis (O mundo de realidade virtual introduzida no filme em uma época em que a terra está devastada).

Tye Sheridan conseguiu nos entregar um personagem neutro para a sociedade e necessário na luta para salvar o mundo, finalmente se redimiu após o papel mediano e não muito convincente de Ciclope (Scott Summers) no reboot da nova franquia Xmen e isso é um ponto positivo ao ator que trouxe um personagem além do que o público esperava e deixando muitas pessoas realmente satisfeitas com seu novo papel. Em geral todo o elenco está bem trabalhado assim como a belíssima atriz Olivie Cooke (A Marca do Medo) e o astro Ben Mendelsohn (Rogue One: Uma Historia Star Wars).

As cenas de ação são inimagináveis, uma guerra fria e sem redenção e sem dúvida alguma parece que você está dentro de um grandioso jogo, as introduções de itens e citações aos anos 80 foi o melhor do filme com músicas nostálgicas que com toda certeza já ouvimos antigamente e aquela sensação de está assistindo aquele filme que marcou infância de muitas pessoas na época de 80/90 ‘De Volta para o Futuro’, é um Filme feito para fãs de cultura pop que realmente pega referências de conteúdos que já vivenciamos até mesmo no inicio de 2000, um show de entretenimento para os amantes de jogos, filmes, seriados e animes.

Assim como outros filmes relativos a conteúdo pop afirmo que não é aquele filme feito para todos pois nem todo mundo irá se identificar com o gênero proposto pelo Spielberg mas para aqueles que teve uma infância de muita diversão em fliperamas, desenhos antigos, filmes de terror que foram marcantes e em todas as palavras nostalgia nítida clássicas a nós esse é um programa de entretenimento cheio para o final de semana, merece ser visto mais de uma vez para ampliar a quantidade de Easter Egg adicionado na trama.

CONFIRAM O TRAILER:

Com a breve chegada do novo filme de Wes Anderson, Isle of Dogs (provavelmente no Brasil no meio deste ano), que tal revisitar outra obra do diretor também executada através da técnica de stop motion? Estou falando do EXCELENTE O Fantástico Sr. Raposo, 2009, que é baseada no livro do escritor britânico Roald Dahl. 

O instinto selvagem sempre falará mais alto, seja você humano ou animal. Esta é a maior lição do fabuloso filme O Fantástico Sr. Raposo, do diretor Wes Anderson.
Mr. Fox vive tranquilamente com sua família quando decide mudar de casa, isto porque ele quer muito roubar as fábricas de alimentos que ficam em frente a sua casa/árvore. Que fique claro, ele não precisa roubar para sobreviver, simplesmente o faz porque é seu instinto.


Com as reviravoltas do filme, os humanos decidem numa caçada insana buscar a raposa responsável pelo “estrago”. Aí entra a selvageria que homem é capaz de causar quando algo que ele faz com frequência se volta contra: invadir o espaço alheio, principalmente quando falamos de habitat animal.
Wes Anderson é caprichoso por excelência, e este seu filme em stop motion é absolutamente lindo. Falar dos aspectos técnicos dos filmes de Anderson é chover no molhado.


Portanto se quiser saber o que acontece com Mr. Fox, sua “gangue” e os humanos malucos, assista.
Se possível veja legendado, afinal George Clooney dubla Mr. Fox e Meryl Streep a Mrs. Fox.

Título: O Fantástico Sr. Raposo
Ano: 2009
Direção: Wes Anderson
Roteiro: Wes Anderson e Noah Baumbach
Duração: 87 minutos
Classificação: 10 anos
Gênero: Animação, Aventura, Comédia

 

Crítica | Eu, Tonya

Se você já assistiu ao documentário Amy, provavelmente fará muitas assimilações com Eu, Tonya. Afinal, em nenhuma destas histórias as pessoas ao redor de Amy e Tonya as ajudaram a superar suas dificuldades, seus medos. Ambas foram abusadas pela família, por maridos e por nós, público. 
Eu, Tonya é o longa metragem dirigido por Craig Gillespie (Hora do Espanto 2011, mas não se assuste com isso) e estrelado pela bela Margot Robbie, que já estava associada apenas a personagem Arlequina (também esqueça isso), que interpreta Tonya Harding, garota que desde a infância tinha a paixão pela patinação no gelo. Paixão que levou sua mãe a submetê-la a treinos exaustivos, abusivos e sem nenhuma piedade, com a esperança de torná-la famosa.
O roteiro escrito por Steven Rogers segue a linha do docudrama, que mostra de maneira mesclada entrevistas dos personagens contando como os fatos ocorreram. Narra de maneira linear a infância, uma breve adolescência e a conturbada fase adulta que foi da fama ao fundo do poço em pouquíssimo tempo.
Eu, Tonya é um filme marcado por interpretações poderosissímas, a começar por Margot Robbie, que tem aqui a melhor atuação da carreira. Ela faz uma Tonya carregada por traumas e abusos mas mostra-se forte e determinada quando entra em competições. É desafiadora mas também frágil quando depara-se com um homem violento com o qual teve um relacionamento totalmente instável. Outra que dá um show é Allison Janney que interpreta LaVona Harding, mãe de Tonya. É uma mulher fria, dura, sem compaixão alguma e que tem as melhores tiradas cômicas do filme (dêem o Oscar para essa mulher!). Fechando o trio protagonista está Sebastian Stan, que faz o marido Jeff Gillooly, homem que seduziu Tonya na adolescência, casou-se e abusou fisica e psicologicamente da esposa, além de ser um dos responsáveis por causar a desgraça na carreira profissional dela.


Muito mais do que contar a história de uma atleta olímpica que teve a carreira ceifada por todos a sua volta, Eu, Tonya vai muito mais a fundo do que isso. É um filme sobre abuso infantil, machismo, violência doméstica, espetacularização na mídia, omissão da polícia (reparem em uma cena específica com Tonya e Jeff dentro do carro, que fala muito por si). E é um filme que, tirando as pitadas cômicas bem encaixadas, é cru e doloroso.
Por tratar-se de uma produção de baixo orçamento (US$ 11 milhões) ele peca em alguns quesitos técnicos. Algumas apresentações de Tonya Harding no gelo fica evidente o uso (e um uso) ruim de tela verde ao fundo. Percebe-se que não houve um tratamento melhor nos efeitos visuais. Outro ponto é a maquiagem que não convence quando coloca os atores na adolescência. Aquilo não te convence que são jovens. Apesar disto, o filme conta com uma boa retratação de época nas décadas de 80 e 90. Vale ressaltar que Margot Robbie também é produtora do filme! A trilha sonora é deliciosamente bem encaixada com canções do Dire Straits, Bad Company, Eminem, Supertramp, ZZ Top (e muitos outros), que além de serem músicas famosas falam muito sobre a personalidade de Tonya.


Muito mais do que estes pequenos probleminhas, Eu, Tonya é um filme importante que possui interpretações excelentes, um roteiro forte e um alerta gigante sobre muitos problemas que talvez eu e você enfrentemos calados em casa, tenha sido na infância ou agora na fase adulta.

Sabe o principal motivo de Rush (no brasil: Rush – No limite da emoção), filme de Ron Howard ganhar muito mais credibilidade? 
Porque o roteiro teve participação da estrela do filme, o ex-piloto Niki Lauda. Além, é óbvio, de ter como base o livro Corrida para a glória, do escritor Tom Rubython.
A trama narra as disputas acirradas entre James Hunt e Niki Lauda nas pistas de Fórmula 1 (e fora delas também), na década de 70. E é um deleite aos olhos ver os anos de glória e charme dessa modalidade tão chata atualmente.
O esporte praticado por Hunt e Lauda era espetacular pois a paixão e a vontade de deixar sua marca na história era muito maior do que o patrocínio, a sujeira, os “jogos” de equipe de hoje, apesar deles sempre existirem em escala muito menor. A vontade de vencer ia além de chegar vivo ou morto ao final da disputa, chegando ao ponto da loucura.


Niki Lauda (Daniel Brühl) é o lado sério e centrado, e James Hunt (Chris Hemsworth) é o sujeito estourado e irresponsável. Na pista, os dois eram iguais.
A fotografia granulada para dar o tom de época (década de 1970) é muito bonita, as cenas em super slow são lindas, adicionamos uma edição extremamente vibrante e a trilha sonora do mestre Hans Zimmer.

Rush é um dos poucos filmes sobre esporte que realmente empolgam do início ao fim. É nostálgico para os amantes de F1, é um deleite para os amantes de cinema, e é mais um drama dirigido com maestria por Ron Howard (Uma mente brilhante, Apollo 13, A luta pela esperança).

Título: Rush
Ano: 2013
Direção: Ron Howard
Roteiro: Peter Morgan (participação de Niki Lauda)
Duração: 123 minutos
Classificação: 14 anos
Gênero: Drama/Biografia

 

Crítica | Bright

Um mundo habitado por humanos, orcs, elfos, dragões e todas as criaturas fantásticas possíveis. Esta é a ideia que dá vida ao filme de David Ayer (Esquadrão Suicida, Corações de Ferro), e primeiro grande blockbuster da Netflix
Scott Ward (Will Smith) é um policial que patrulha as ruas barra pesada de Los Angeles. E Nick Jakoby (Joel Edgerton) é o primeiro orc a tornar-se policial. Os dois são parceiros. Uma varinha com muitos poderes cai nas mãos deles por determinada circunstância e pronto, temos nosso filme.

A ideia de misturar criaturas fantásticas com humanos me apetece muito. O problema em Bright é como os fatos se desenrolam. O filme é praticamente todo igual no roteiro, cena de ação > fuga, cena de ação > diálogo > fuga, cena de ação > fuga. E o grande problema não é esse, afinal o filme é de AÇÃO. Porém todas as cenas são repetidas (tiroteios e tiroteios) não há coesão e didática em diferenciar os cenários.
Outro lance confuso e que não teve explicação é que alguém muito poderoso (e isso não fica claro em nenhum momento) é o perigo eminente caso obtenha a varinha, não é mostrado em nenhum momento (apenas uma vilã genérica). Não há origem de história, nós simplesmente fomos jogados naquele mundo sem mais nem menos.

Um ponto interessante na premissa de Bright é que apesar de todos viverem num mesmo ambiente, não existe paz. A rivalidade é constante e existe preconceito declarado entre as classes. Pena que é explorando de maneira bem modesta.

O trabalho da equipe de maquiagem é excelente (e quem sabe, até concorram muitos prémios). O design de produção e a cinematografia são muito bons. Tecnicamente é um filme competente. Joel Edgerton apesar de ter virado orc, está muito bem. E a grande jogada da Netflix foi contratar Will Smith. Ele é um ator com baixíssima rejeição entre o público, e claro que chamaria atenção. Ainda que o filme não seja ótimo, as pessoas vão assistir.

Bright apesar de repetitivo e sem muita coesão narrativa, é um grande passo para a Netflix, que deixou seu recado para os grandes e tradicionais estúdios: nós podemos bater de frente com vocês.
Já foi confirmada uma sequência, que talvez nos mostre um pouco mais do passado daquele mundo, e deixa a chance de fazer algo diferente no futuro. E por favor, coloquem mais fadinhas “porra louca” no próximo filme, eu adoraria ter visto mais delas.

O ano ainda não acabou! No dia primeiro de dezembro a Netflix lançou sua mais nova série original: Dark. Criada por Baran bo Odar e Jantje Friese, a produção alemã conta a história de quatro famílias que vivem em uma pequena cidade onde o desaparecimento de um garoto desencadeia uma série de acontecimentos que afetará a todos.

Estrutura Narrativa

Já nos primeiros minutos do piloto somos surpreendidos pela morte de um personagem (plot ótimo para um início de enredo), ficamos curiosos por saber quem ele é e qual o motivo de sua morte. Logo depois são apresentados os integrantes dessas famílias e como eles estão relacionados, ao mesmo tempo em que pistas dos mistérios que acontecem na cidade são introduzidas.

Os três primeiros episódios – apesar de cada vez mais intrigantes – podem parecer longos e um pouco arrastados, porém são extremamente importantes para a construção da narrativa. A quantidade de personagens também pode ser um problema no início, mas com o passar dos episódios vamos conhecendo melhor a história pessoal de cada um e isso deixa de ser uma confusão.

A partir do episódio 4 as coisas começam a fluir em um ritmo mais acelerado e dai em diante a vontade é ver todos os eps um seguido do outro sem parar. Algumas questões vão ficando claras enquanto outras ainda mais enigmáticas surgem até chegarmos no último episódio que não revela quase nada dos maiores mistérios da trama deixando as perguntas para uma segunda temporada.

Isso seria um problema em muitas produções. Normalmente quando uma temporada de série termina com mais questões que respostas existe uma falha de roteiro, diferente do cinema em que o telespectador pode ver um filme com um final totalmente aberto para interpretações, em um seriado esse aspecto não é bom (ex: final de Lost) e pode, em alguns casos, até comprometer a obra – principalmente se ela não for renovada para uma próxima temporada. No entanto Dark não parece errar nesse ponto, a sensação é de que a primeira temporada é justamente a elaboração dessas perguntas para que na próxima elas sejam respondidas.

Personagens

Comentados o enredo e a estrutura da série, seguimos para o quão interessante são as personalidades dos personagens. Ponto fortíssimo da série! Cada um tem um jeito próprio e características, repito, extremamente interessantes, e importantes de serem representados. Obsessão, violência, bullying, surdez…

Ainda falando sobre os personagens, é de se notar a incrível semelhança de cada atriz/ator em cada tempo (seleção minuciosa feita pelo casting). Não só as características físicas que já são muito bem representadas, desde uma cicatriz, a um sinal ou uma verruga, trabalho sensacional da equipe de arte (que também traz ótimos figurinos e cenários próprios dos anos 50 e 80 e aquela capa de chuva amarela maravilhosa), mas nos gestos e características também (ótimas atuações do elenco). Charlotte, Hannah, Katharina, Ines, Helge… tudo muito verdadeiro.

Fotografia

A parte técnica não fica atrás, a direção de fotografia combina muito com atmosfera da série e é tão dark quanto o título. Cores frias, pouca luz e enquadramentos que compõe a narrativa: plano e contra plano rápido em uma discussão, close-ups sufocantes em uma revelação, tela dividida, muitos planos em zenital (de cima pra baixo em ângulo de 90º), planos gerais de tirar o fôlego mostrando o ambiente… Tudo é harmônico, tudo casa.

Som

Assim também acontece na sonografia, cada música, cada som e cada trilha instrumental encaixa de forma perfeita com o que acontece em cena. Além das músicas atuais super envolventes, o plot de viagem no tempo é aproveitado e temos hits dos anos 80 e clássicos dos anos 50, fora algumas canções na língua alemã que são muito boas também.

Avaliação

Dark têm 88% de avaliação positiva da crítica especializada e 94% do público no Rotten Tomatoes e 8.8 no IMDb. Esta não é uma série apenas de mistério, mas um enredo inteligente com doses equilibradas de suspense e drama e uma análise instigante do tempo e o que ele representa em nossas vidas. Além de tudo o que foi dito acima!

★★★★★ – EXCELENTE

“A distinção entre o passado, o presente e o futuro é só uma ilusão”.

Albert einstein

Adaptações para o cinema de livros bem sucedidos é uma moda recorrente em Hollywood desde os primórdios da indústria cinematográfica. Todos os anos vemos dezenas de novas produções aparecendo, se popularizando e caindo no esquecimento. Separamos as cinco adaptações mais esperadas para 2018 :

Aniquilação

Um grupo de quatro mulheres é enviado para a Área X, um lugar incompreensível e isolado do restante do mundo há décadas, onde a natureza tomou para si os últimos vestígios da presença humana. Elas fazem parte da décima segunda expedição ao local, cujos objetivos são explorar o terreno desconhecido, tomar nota de todas as mudanças ambientais, monitorar as relações entre elas próprias e, acima de tudo, não se contaminarem. Uma missão mortal, visto que todas as expedições anteriores tiveram resultados assustadores, como suicídios em massa, tiroteios descontrolados e casos de mudança de personalidade súbita seguidos de morte por câncer. O filme estreia dia 22 de fevereiro.

Maze Runner : A Cura Mortal

Última parte da trilogia iniciada nos cinemas em 2014, acompanhará o protagonista Thomaz (Dylan O’brien) a procura da cura para uma doença chamada “Fulgor”, ao mesmo tempo que precisasse decidir se confia ou não nas promessas da organização C.R.U.E.L. O filme estreia dia 25 de Janeiro.

Cinquenta Tons de Liberdade

Ana e Christian têm tudo: amor, paixão, intimidade, riqueza e um mundo de possibilidades a sua frente. Mas Ana sabe que o relacionamento não será fácil, e a vida a dois reserva desafios que nenhum deles seria capaz de imaginar. Ana precisa se ajustar ao mundo de opulência de Grey sem sacrificar sua identidade. E ele precisa aprender a dominar seu impulso controlador e se livrar do que o atormentava no passado. Estreia dia 8 de fevereiro.

Simon VS A agenda Homo Sapiens

Simon tem dezesseis anos e é gay, mas ninguém sabe. Sair ou não do armário é um drama que ele prefere deixar para depois. Tudo muda quando Martin, o bobão da escola, descobre uma troca de e-mails entre Simon e um garoto misterioso que se identifica como Blue e que a cada dia faz o coração de Simon bater mais forte. O filme estreia em Março de 2018.

Jogador Número 1

Num futuro distópico, em 2044, Wade Watts, como o resto da humanidade, prefere a realidade virtual do jogo OASIS ao mundo real. No jogo, seus usuários devem descobrir a chave de um quebra-cabeça diabólico, baseado na cultura do final do século XX, para conquistar um prêmio de valor inestimável. Para vencê-lo, porém, Watts terá de abandonar a existência virtual e ceder a uma vida de amor e realidade da qual sempre tentou fugir. Dirigido pelo lendário Steven Spielberg, o filme estreia dia 29 de Março.

O novo Trailer/Teaser de Avenger Infinity Wars é simplesmente a perfeita junção entre todos os filmes da marvel! [ah vá]

Nele aparece cenas lindas como a do Iron man apanhando [sim amo isso], Loki fazendo merda [como sempre], Doctor Strange Assustado [CARAAAAAAAALHO], o Sentido Aranha a flor da pele [LITERALMENTE] e por ai vai…

VEJAM ESSA LINDEZA E SE APAIXONEM COMO ME APAIXONEI!

Sinopse: Léon Doré (Antoine L’Écuyer) tem dez anos de idade, muitos problemas e uma imaginação extremamente fértil. Seus pais vivem brigando e seus irritantes vizinhos sempre passam o verão na praia. Há ainda Léa (Catherine Faucher), a dona da razão. No verão de 1968 a mãe de Léon pede o divórcio e decide começar uma nova vida na Grécia. Desolado, o menino faz de tudo para esquecer a dor: bagunça a casa dos vizinhos, mente a todo momento, ignora as aulas e se apaixona.

Talvez essa seja uma das obras que melhor transitou no universo infantil, trazendo compreensões evidentemente fidedignas a personalidade de uma criança, nesse caso em especial, o jovem Léon, um garoto extremamente inteligente crescendo no seio de uma família desestabilizada, e sofrendo, naturalmente, uma forte influência do desequilíbrio evidente do espaço.

O roteiro se destaca de forma brutal, e a dinâmica bem controlada que é desenvolvida por uma boa direção, associada com um ritmo cinematográfico que respeita as convenções do tempo tal qual ele se apresentaria no mundo real, fazem com que o filme seja deliciosamente bem desenvolvido, com direito a crescimento de personagem, mudanças na perspectiva da narrativa, e até mesmo o florear de novas percepções entre as personagens. Talvez seja esse o grande segredo que acaba congelando o telespectador de frente ao filme: o respeito as percepções temporais de um jeito que é praticamente natural.

Leon, interpretado pelo talentoso Antoine L’Écuyer, é também um dos grandes fatores que envolvem tão bem ao público. É a sua perspicácia, pessimismo, e compreensão de mundo emancipada, que intensificam esse envolvimento, haja visto que toda a obra acaba se valendo do olhar do garoto sobre o mundo para o desenvolver da sua perspectiva.

Comumente, a abordagem que costuma emancipar o universo infantil, acaba muitas vezes por cair em um ponto muito confuso do espaço, porque adultifica o indivíduo enquanto desassocia dele o imaginário da criança, contudo, em Não sou eu, Eu juro!, o que se observa é o êxito na temática sobretudo pelo uso da abordagem, que não se absteve na evidenciação da perspectiva adulta, sendo permissiva com o transitar desse universo.

A fotografia é simples, sem grandes feitos, mas o enredo e a montagem se destacam tanto, que o público é rodeado por essa atmosfera envolvente, vidrando os olhos nos personagens, nos seus dramas pessoais e traumáticos, diga-se de passagem, evidenciados com eficácia com o simbolismo usado por exemplo no esconderijo de Leon, onde ele tem encontros casuais com Lea.

O que foi o erro do filme, foi não utilizar do universo por completo, em alguns momentos renegando uma musicalidade que poderia embrenhar no telespectador, e incrementar esse sentimento desenvolvido pelas personagens. Além disso, as temáticas abordadas se mostravam consideravelmente pesadas, e em alguns casos, como o de Lea e da sua família, ela poderia ter sido melhor explanada, ainda que a ausência disso não tenha comprometido a compreensão do público.

Dito isso, é preciso pontuar que esse é um dos mais eficazes roteiros que já vi, e que por isso, e pelas atuações plausíveis, Não sou eu, Eu juro! é um filme excelente, que merece ser visto por todos!

 

Dirigido por Tomas Alfredson, Boneco de Neve, com data de estréia no dia 23 de novembro no Brasil, é uma adaptação do livro, com o mesmo título, de Jo Nesbo, mas diferentemente do mesmo, parece que o filme se encaminha constantemente para o ponto de acerto mas que nunca efetiva de fato o que buscou fazer.

Com uma fotografia completamente congelante (literalmente), proporcionada pelos takes quase repetitivos de uma Noruega gélida e distante, o filme parece se enviesar pouco a pouco para um portfólio de fotos do que é aparentemente um dos invernos mais fortes do mundo, tanto no aspecto físico, quanto pela sensação de frieza que é proporcionada ao telespectador diante das telas.

O roteiro de Boneco de Neve teve uma base muito forte para o seu desenvolvimento, afinal de contas o livro do Jo Nesbo do qual se desenvolveu foi muitíssimo bem recebido pelos críticos literários, contudo, o filme cometeu o erro de introduzir diversas possibilidades que acabaram não sendo trabalhadas, abrindo-as constantemente na cabeça do telespectador mas sendo completamente ineficaz em culminar em algum ponto.

As atuações de modo geral foram positivas, mas mesmo a entrega do carismático Michael Fassbander não foi suficientemente envolvente para que o público de fato se compelisse. Os personagens tiveram detalhes de sua psiquê trabalhados, mas como visto anteriormente em várias outras partes do enredo, eles simplesmente não desenvolveram isso, promovendo uma angústia constante pela possibilidade eminente e nunca pela concretização do que poderia de fato vir a acontecer.

Além disso, é preciso pontuar que a atuação de Val Kilmer foi praticamente deprimente, haja visto que no contexto geral do trabalho, ele quase promoveu a quebra de uma linearidade de performances relativamente pontuais.
Erro sobretudo na direção, que foi displicente com a forma de costurar a montagem, entregando um trabalho com potencial mas que pareceu em sua totalidade, incompleto.

Estreando hoje nos cinemas brasileiros, A vilã é o mais novo filme de Byeong-gil Jeong,  Sul coreano, diretor do filme Confissões de Assassinato de 2012. O cinema Coreano tem pouco a pouco se tornado mais eminente no Ocidente, de modo que na atualidade já podemos destacar algumas obras como Oldboy (2003), Expresso do Amanhã (2013), e Mother – A busca pela verdade (2009).

A vilã é um filme completamente energético, do tipo em que a movimentação ao longo das cenas é absurdamente extasiante, e o telespectador se sente quase tonto diante do desenrolar do trabalho. Ainda assim, mesmo que carregado dessa inquietação frenética, o filme não se perdeu, não caiu deliberadamente em takes repetitivos e entediantes, e conseguiu manter, ao longo de todo o desenvolvimento, uma ótima linearidade, isso sem contar o roteiro, que termina por surpreender até o mais atento público.

A violência é sem sombra de dúvidas uma das ferramentas mais exploradas pela estética do trabalho, e ainda que a mesma seja recorrente ao longo de toda a trama, a perspectiva visual que foi introduzida por trás do que seria normalmente brutalidade e apenas um apanhado de corpos destroçados, corroborou para que a percepção externa ao filme culminasse em um ponto de satisfação, não pelos atos em si, mas pela dinâmica harmoniosa e ritmada que foi desenvolvida.

Um ponto que é preciso destacar, é a escolha da utilização de um plano subjetivo nos primeiros minutos do filme, isto é, o posicionamento da câmera no mesmo nível do olhar da protagonista, não apenas revelando ao público o que era visto pelo mesmo, mas também transferindo a essa público a sensação de vivência e de experimentação do mesmo contexto em que ela se encontrava.

Forte, bem desenvolvido, e carregado de uma narrativa cinematográfica eficaz, A Vilã se prova como muito mais do que um filme de violência, haja visto que o estado de conflito ganha destaque ao mesmo tempo em que se demonstra secundário quando diante do enredo real. Uma obra que vale a pena prestigiar.

 

 

Gabriel e A Montanha é um dos filmes brasileiros mais comentados do ano, ganhador de inúmeros prêmios incluindo dois deles no Festival de Cannes, um dos mais conhecidos do mundo do cinema. A história, em grosso resumo, se propõe a contar sobre as últimas experiências vivenciadas por Gabriel Buchmann, até então formado em Economia pela PUC, que decidiu dar uma volta ao mundo antes de dar continuidade a sua carreira acadêmica, a qual ele iria desenvolver na UCLA, renomada universidade americana. A obra aborda com uma sensibilidade evidente as experimentações do rapaz, e o que ela carrega em maior evidência na correlação com o diretor Fellipe Barbosa, é o fato de que Gabriel foi na verdade um antigo colega de escola do mesmo, tendo ambos estudados juntos durante um tempo. O Cinerama, tal qual plataforma de divulgação de conteúdos relacionados ao cinema, procurou o diretor Fellipe Barbosa, e o resultado desse encontro vocês podem ler logo abaixo.

 

 

“…mas acho que talvez esse ponto em comum seja talvez uma sensação de não pertencimento , ou de não adequação. E nesse sentido tentar criar uma realidade, criar um mundo, uma realidade mais agradável, onde cada personagem possa ser mais feliz, talvez seja esse o ponto de encontro.”

William Diniz: Você enxerga algum tipo de relação entre as temáticas abordadas nos seus diferentes filmes? Quero dizer, Casa Grande voltado a perspectiva de uma elite decadente, Laura de algum modo correlacionada a esse ideário de uma realidade elitizada, em Kiss Salt é observável a quase recusa da aceitação de um estilo de vida mais voltado para o ambiente doméstico, uma constante negação a realidade e um apego saudosista a um estilo de vida libertino. No âmago, essas três obras acabam se relacionando na temática da aparência, daquilo que é quase ilusório ou quase intangível. Você acha que Gabriel e a Montanha também resgata isso? Essa relação intensa com a possibilidade mas nunca com a efetivação realística dela.

Fellipe Barbosa:
É bem interessante essa pergunta, me fez refletir, não tinha pensando sobre isso, mas acho que talvez esse ponto em comum seja talvez uma sensação de não pertencimento , ou de não adequação. E nesse sentido tentar criar uma realidade, criar um mundo, uma realidade mais agradável, onde cada personagem possa ser mais feliz, talvez seja esse o ponto de encontro. Mas é o que você falou também né? da ilusão no caso, da projeção de uma ilusão. Todos os personagens tem uma certa dificuldade de aceitar a realidade deles, então precisam construir uma nova. E no Gabriel é se reinventar…a viagem é uma oportunidade de se reinventar, e é muito interessante que a Cris (namorada do Gabriel), traz justamente o passado dele, do qual ele está fugindo…Acho que o que tem em comum entre todos eles, é que são inspirados em pessoas que eu conheço, ou no caso eu mesmo, minha família, em Casa Grande. Laura, alguém que eu conheci e me fascinou, Rogério, do Beijo de Sal, alguém que eu conheci e me fascinou; escrevi o Beijo de Sal pra ele, inclusive. E eu achava que era um filme sobre territorialidade, sobre esse homem que acha que tem direito sobre tudo e sobre todos. Queria mostrar todo charme e toda confusão desse cara, que era alguém que me fascinava muito. Laura, alguém que está sempre tentando construir uma realidade, vivendo outra realidade, e ela me remetia muito a grande personagem de cinema, do próprio Otto Preminger (se referindo ao diretor do clássico filme Laura de 1944), onde o detetive tenta revelar os mistérios dela para se estabanar no fim, assim como eu em relação a Laura, e Casa Grande muito daquele menino que não aceita que aquele muro seja o limite, da sua realidade, daquele condomínio, e quer se reinventar.

“…Foi a fase mais importante, mais feliz da minha vida, foi quando eu realmente estava realizando um sonho muito antigo de estudar cinema, e tava aproveitando cada segundo daquilo, e produzindo muito…”

William Diniz: Você é mestre pela Universidade de Columbia. Você diria que ingressar no âmbito acadêmico foi importante para o desenvolvimento das suas habilidades enquanto profissional do cinema, ou o tipo de conhecimento adquirido acaba se delimitando ao espaço da academia, haja visto que é muito teórico?

Fellipe Barbosa: Foi fundamental, foi a fase mais importante, mais feliz da minha vida, foi quando eu realmente estava realizando um sonho muito antigo de estudar cinema, e tava aproveitando cada segundo daquilo, e produzindo muito…só que, ao contrário do que você disse, não foi nada teórico. É um mestrado que foi muito prático mesmo, a gente colocava muito a mão na massa com muito pouco recurso, e produzimos muitos curtas, e escrevíamos muitos roteiros, dirigíamos muitos atores em aula. É um MFA como eles chamam, Master Fine Arts, que é muito mais voltado pra prática da arte, no caso o cinema, mas engloba várias disciplinas das artes. A gente tinha teoria na Columbia, no MFA, mas o grosso mesmo era a prática, era fazer cinema, e fazer cinema num ambiente totalmente protegido, onde a gente tinha a liberdade de criticar um ao outro, e onde eu tive mestres inesquecíveis que foram fundamentais pra minha formação, enfim, alguns dos mestres mais importantes que eu tive né, porque  gente continua tendo mestres. Eu continuo tendo referências no trabalho, na vida, mas sem dúvida alguma a Columbia foi muito importante pra mim…E sobretudo foi o playground onde eu pude compreender o que eu fazia melhor e me apaixonar por isso, ao invés de tentar emular um tipo de cinema que eu sempre amei. E acho que finalmente, o que eu faço, não reflete o cinema que eu mais amo, mas reflete o que eu descobri que eu poderia fazer melhor, e esse momento se deu na Colúmbia, quando alguns professores me indicaram, e foi esse incentivo que foi importante, esse tipo de movimento. Buscar me apaixonar por aquilo que eu sabia fazer bem, pra um tipo de cinema que vinha naturalmente pra mim, ao invés de tentar emular um cinema que eu gostava.

“Foi uma forma de tentar corrigir isso, o filme. Entender os últimos passos dele exaustivamente, refazendo os passos através de anos e anos de pesquisa, e chegando ao filme, que talvez fosse uma expressão de um desejo maior dele, de compartilhar a experiência com os amigos, com os outros, com o mundo até, como foi.”

 

William Diniz: Em uma entrevista a Glamurama, em 2014, você disse que escrever Casa Grande foi, em suas palavras, “uma forma de corrigir essa ausência”, enquanto se referia a crise financeira vivenciada pelo seu pai. Gabriel e a Montanha carrega também elementos tão íntimos e pessoais? Sendo sim a resposta, você acha que relatar a nossa história de um jeito tão expositivo não é sempre um exercício de corrigi ausências?

Fellipe Barbosa: É, mais uma vez você chegou na essência. Também foi uma forma de correção de ausência, com o Gabriel, porque eu perdi o contato com ele em 2000 quando saí da PUC e fui estudar em Hofstra. A gente não tava no mesmo ano da PUC, porque no penúltimo ano no São Bento, Gabriel foi fazer um intercâmbio na Dinamarca, e aí quando ele voltou, ele preferiu repetir. O Reitor do colégio na época, o Dom Lourenço, deu a oportunidade dele ficar na mesma série que a gente, mas ele preferiu refazer porque pra ele não fazia sentido deixar de aprender aquele ano letivo, e o Gabriel era brilhante, tanto é que ele foi o 1º geral na PUC em Economia, no ano seguinte ao que eu entrei, então a gente pegou seis meses juntos na PUC, do total de um ano e meio que eu fiz. Ele foi meu calouro na PUC, depois de seis meses eu fui pros Estados Unidos pra Hofstra, com essa bolsa do Institute of International Education. Acabei indo pra lá entre 19 e 20 anos, e perdi o contato com o Gabriel, que continuou a pesquisa acadêmica dele em Economia, embarcou em um mestrado e tinha acabado de conseguir uma bolsa para ir pra UCLA, depois de fazer pesquisa na FGV, trabalhando alguns temas bem interessantes, como Economia da Felicidade. Eu voltei pro Brasil em 2008, quase 9 anos depois, quando o Gabriel tinha acabado de partir pra viagem dele ao redor do mundo, e a gente perdeu o contato, e logo em seguida se desencontrou…e aí ele desapareceu em Julho de 2009, quase um ano depois. Quando ele desapareceu eu fui pesquisar os emails das nossas últimas correspondências, e a última delas havia sido um que ele enviou para a lista do São Bento, mas que era na verdade endereçada a mim. No e-mail ele dizia que estava indo para Nova Iorque e que queria muito me ver. Nesse momento eu muito provavelmente não estava conferindo todos os emails porque a depender do trabalho que eu tinha, não acompanhava muito, e eu acabei não vendo, já que ele não me escreveu diretamente. Evidentemente que eu me senti muito mal, muito culpado, porque eu adoraria tê-lo visto em Ny, enfim, nesse sentido faz todo o sentido o que você falou, no sentido da ausência, de ter o reencontrado e pedido desculpas por esse tempo, talvez. Foi uma forma de tentar corrigir isso, o filme. Entender os últimos passos dele exaustivamente, refazendo os passos dele através de anos e anos de pesquisa, e chegando ao filme, que talvez fosse uma expressão de um desejo maior dele, de compartilhar a experiência deles com os amigos, com os outros, com o mundo até, como foi.

“…mas a gente esperava mais, todos esperávamos mais em termos de bilheteria, em termos de alcance, e por mais que o filme esteja sendo visto, acho bastante estranho que provavelmente ele vá fazer menos do que ele fez na França.”

William Diniz: Me fala um pouco sobre Cannes. Como foi pra você estar vivenciando esse que é uma das maiores referências de festival de cinema? Existia em você algum sentimento de nacionalismo ao se ver enquanto brasileiro a representar todo o povo, haja visto que você foi o único brasileiro indicado?

Fellipe Barbosa: Cannes foi muito bom, foi um momento de celebração, e de reunião com pessoas queridas e importantes que realizaram esse filme comigo. Não foi especialmente bom ser o único brasileiro, preferia que houvesse mais, uma representação maior do cinema brasileiro. O único não me interessa tanto, mas posso dizer que a experiência foi muito única porque estávamos ali, equipe, parte do elenco, vivendo aquilo, tendo a estréia na maior vitrine de festivais de cinema do mundo. Um lugar lindo, que é a semana da crítica, super pequeno, super especial, onde só se mostra primeiro e segundo longas, e depois ter o reconhecimento de dois júris distintos que nos deram prêmios, e daí partir pra uma distribuição na França, onde eu estive muito presente, fiz um tour em diversas cidades francesas, o filme foi visto por mais de 85 mil espectadores lá até hoje, lançado no dia 30 de Agosto, foi incrível. É muito bom representar o Brasil nesses eventos, a gente se sente muito orgulhoso, evidentemente, mas não sei o quanto os brasileiros se sentem orgulhosos de nós, porque a gente ganhou dois prêmios em Cannes, mas e aí? O que está acontecendo com o filme hoje? Ele ta sendo super bem falado, super bem recebido, apesar de sempre ter alguns detratores…mas a gente esperava mais, todos esperávamos mais em termos de bilheteria, em termos de alcance, e por mais que o filme esteja sendo visto, acho bastante estranho que provavelmente ele vá fazer menos do que ele fez na França. Não sei se existe muito esse nacionalismo entre os nossos pares (as pessoas que trabalham com cinema brasileiro), porque os exibidores não botam fé, os grandes distribuidores não botam fé…A gente tem um distribuidor fantástico, que está fazendo um trabalho excelente, que é a Pagu, que é uma nova distribuidora, que tem feito uma campanha muito forte, que está dando resultado, mas que mesmo assim o mercado ainda está muito difícil pra gente, pros filmes brasileiros, e eu acho que é também porque falta nacionalismo, acho que falta protecionismo, e falta também algo, que eu não sei o que é.

“…até porque é uma competição bem injusta, uma vez que a gente tá competindo com filmes que tem orçamentos duzentas vezes maior do que o nosso pra fazer marketing, divulgação, etc…A gente não consegue nem chegar a população, porque tem uma massa de dinheiro trazendo as produções de hollywood pro povo.”

 

William Diniz: Na sua percepção, existe alguma dificuldade maior quanto a promoção e valoração das produções brasileiras? Em um ano com filmes como Bingo, O filme da minha vida, Não Devore meu coração, e Como Nossos Pais, o cinema brasileiro, ao seu ver, recebe a devida atenção internacional ou ainda existe uma concentração desse foco nos países mais proeminentes na indústria?

Fellipe Barbosa: Acho que falta valoração pelos exibidores, pelos brasileiros. Eu to aqui em Pelotas agora filmando o Domingo (novo projeto), se eu não tivesse em Pelotas, no Rio Grande do Sul, há um tempo já, pré-produzindo esse filme, tendo conhecido pessoas daqui, o Gabriel e a Montanha certamente não teria entrado no cinema daqui, mas ele entrou porque a gente tá presente há um tempo, e conhece gente daqui, e fizemos ligações para o filme entrar, aproveitar a nossa presença, haja visto que tem muita gente da equipe de Gabriel e a Montanha no Set, então a gente organizou uma sessão pra conseguir estrear…e aí o filme ficou duas semanas em cartaz aqui, e essa semana tem cinco salas, duas são ocupadas pelo Liga da Justiça e três pelo Thor, e a gente não tem um horário se quer nas salas… então isso deve estar acontecendo no resto do Brasil inteiro, e isso é muito triste, e é muito absurdo que esteja acontecendo desse modo. Que estejamos produzindo tantos filmes, que estejamos vivendo um momento de ouro, de glória na produção, que é o sonho de várias gerações anteriores a nossa, que a gente tá conseguindo usufruir disso, produzindo, produzindo, produzindo, mas que não tenha nenhum mecanismo de controle pra proteger os filmes brasileiros no mercado de exibição. Tem as cotas né, que são observadas com as comédias principalmente, mas não tem nenhum equivalente do que se coloca na produção na exibição, no sentido de subsídios pro ingresso, até porque é uma competição bem injusta, uma vez que a gente tá competindo com filmes que tem orçamentos duzentas vezes maior do que o nosso pra fazer marketing, divulgação, etc…A gente não consegue nem chegar a população, porque tem uma massa de dinheiro trazendo as produções de hollywood pro povo. Deveríamos estar principalmente capacitando gente para ocupar esses espaços, ocupar cinema, ocupar salas, e fazer um trabalho verdadeiro de comunicação, de formação de público, através de parcerias com escolas locais, levando gente pro cinema. É um processo que precisa de gente, precisa de gente interessada em fazer isso, precisa de cinéfilos, pessoas que amam o cinema, que tem muitas por aí no país, ocupando lugares, e sendo capacitadas para ocupar esse espaço, porque é um espaço oco, que não existe. Tem alguns amantes de cinema espalhados por aí fazendo pequenos milagres, mas não tem um incentivo a isso. Isso é uma coisa muito séria, e precisa ser feito isso. A gente precisa de Embaixadores, de pequenos embaixadores em diversos lugares nesse país gigantesco, fazendo chegar no público, criando o público, formando o público, e essas pessoas precisam ser capacitadas. Essa é uma conversa muito longa, porque realmente a gente é massacrado, e é uma pena porque muitos filmes podiam chegar a muito mais gente no país, se as pessoas soubessem da existência deles. Eu converso com gente em vários lugares do Brasil que nunca ouviram falar do Gabriel E a Montanha, o único filme brasileiro que esteve em Cannes…Mas a gente tem recebido muita atenção internacional, a nossa presença em festivais internacionais tá cada vez maior.

William Diniz: Por fim, o que esperar dos novos projetos de Fellipe Barbosa pro ano que vem?

Fellipe Barbosa: Pro ano que vem eu espero lançar o Domingo, filme cujo o roteiro é de um amigo meu, o Lucas Paraizo, e é o filme que eu estou fazendo agora, e está se mostrando ser uma comédia, mas uma comédia social, com alguns picos de alta tensão, e to bem ansioso quanto a ele. Estou com outros dois projetos, e são ambos mais internacionais, e me tirariam do Brasil por mais um tempinho, e eu prefiro não falar sobre eles agora, mas enfim, não é que eu tenha um desejo consciente mas a vida tá me levando agora pra fazer coisas fora do Brasil, e talvez, quem sabe, trabalhar com algumas estrelas dos meus sonhos.

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Billy Wilder é essencial

Billy Wilder foi um diretor ácido que não poupava o público das críticas. Nesse longa, escrito em parceria com o roteirista, nominado ao Oscar, Lesser Samuels, e com o escritor Walter Newman; Wilder envolve o espectador em uma angustiada metáfora das notícias falsas.

Em A Montanha dos Sete Abutres

Charles Tatum (Kirk Douglas) é um jornalista habituado aos grandes centros urbanos. Demitido dos jornais da capital acaba indo parar na esquecida Albuquerque, invisível cidade da região do Novo México, onde arranca a fórceps o papel de jornalista para uma edição local.

A vida na cidade estava tediosa quando Tatum, indo cobrir em evento agrícola, encontra um acidente envolvendo um mineiro chamado Leo Minosa. O homem ficou preso no fundo de uma montanha conhecida como “A Montanha dos Sete Abutres”. Some-se isso a algumas lendas indígenas e um povo humilde, afogado nas mais diversas crendices, e Tamtum tem o seu homem mordendo um cachorro.

Lição número 1 do jornalismo: o jornalista jamais será capaz de contar A Verdade

A simples decisão de escolher entre duas palavras já é, em si, uma interpretação da Verdade. No filme, Tantum, que decorou a cartilha do jornalismo de cabeça para baixo, resolve, na impossibilidade de manter o homem mordendo o cachorro por muito tempo, fabricar sua própria verdade. A frente do resgate ele passa a manipular a situação e faz dela um show.

O que começou como um acidente qualquer em um fim-de-mundo qualquer, ganha nas mãos do jornalista uma narrativa épica de sobrevivência. Tornando o assunto interessante para os grandes jornais.

A Montanha dos Sete Abutres ainda explora como é fácil manipular as autoridades quando a grande mídia está envolvida.

Dono de exclusividade na matéria, com o controle das autoridades e com o poder do suborno. Tantum pode controlar quem, diz o que, sobre quem, quando, como, onde e o porquê. Fake News na essência, explicada de cabo a rabo.

Este filme é uma das exceções em que o nome em português de fato acrescenta à obra. A montanha dos sete abutres não faz somente uma alusão ao local onde o mineiro ficou preso, mas também aos personagens em volta do acidente, que agem como abutres em volta da carniça.

Um dos abutres somos nós, refletidos na tela, vemos quais são os limites do entretenimento e suas consequências na vida real

Também são abutres os engenheiros responsáveis pelo salvamento do mineiro, o médico que acompanha o estado de Minosa no fundo da caverna; a esposa do mineiro. Enfim, em um filme recheado de carniceiros, é possível acusar inclusive o público dos jornais, que transveste o seu desejo por entretenimento e o prazer mórbido da desgraça catártica através de falsos sentimentos solidários.

Em uma interpretação paralela. É possível distinguir como um abutre o próprio Leo Minosa (Richard Benedict), preso no fundo da caverna; sucumbe ao autoengano, talvez por medo de encarar o mundo lá fora, mesmo que soe contraditório, ele não demonstra tanta ânsia para sair da caverna.

Papa e Mama Minosas (John Berkes, Frances Dominguez) são os pais do mineiro, e possíveis antagonistas da trama, já que em meio ao caos, eles são os únicos que se opõem ao que está acontecendo.

Papa Minosa assiste a tudo com um misto de dor e angústia. Mama Minosa reza, não sabemos se para retirar seu filho da montanha ou para pôr fim ao sofrimento da família de modo rápido.

A angústia da história aumenta gradativamente como se fosse um balão recebendo gás. Do momento em que o jornalista Tatum encontra a sua história, até o seu desfecho, o filme não larga a tensão um minuto sequer. A situação se desenrola no limiar do absurdo, transformando a tragédia em uma comédia ácida.

Todos os personagens são caricatos e ainda assim absurdamente reais. É possível ver-se refletido em um deles ou em todos eles. Wilder, que já dirigiu grades estrelas como Marilyn Monroe, soube tirar destes atores cenas potentes e especialmente próximas.

Um filme dos anos 50, que tem especial eco em nossos dias onde os stories do Instagram dominam a dieta básica de entretenimento.

A obra faz uma alusão à caverna de Platão através da mídia, em que o desejo por ganhos, seja em dinheiro ou status, leva ao autoengano e a atitudes desesperadas. Wilder coloca toda uma cidade dentro da caverna, alguns por acidente, outros por escolha própria.

O filme toca na ferida ao expor a covardia de todos para fazer a coisa certa quando isso significaria a perda de benefícios.

Com 111 minutos, fez a sua estreia oficial em 4 de Julho de 1951, nos grandes centros dos Estados Unidos. Antes disso, em 14 de Junho, ele já havia feito uma sessão première em Albuquerque, local onde se passa a trama.

Os críticos consideram o filme um drama, contudo, graças a habilidade de Wilder, o filme flerta com o humor. Particularmente, vejo como um humor ácido, extremamente necessário para tirar o espectador do seu lugar de conforto.

Este será um filme que ficará grudado na sua memória. Você retomará a lembrança sempre que se deparar com a cobertura jornalística de um acidente, ou matérias sobre pessoas em situação de miséria. Além de te ensinar importantes lições sobre o que é e como deve ser feito jornalismo. Jornalismo não é apenas sobre contar a verdade, é sobre procura-la.

Infelizmente, para muitos, o jornalismo virou algo como uma história de ninar. Fale-me a parte em que o caçador mata o lobo mau. Mesmo que não exista lobo mau e que o caçador seja um maldito de um desgraçado.

Fale-me da parte em que o super-herói salva a mocinha do prédio em chamas. Mesmo que tenhamos quase certeza de que lá nunca teve um prédio, ninguém viu as chamas e honestamente, nem sei se esse cara é mesmo um super-herói.

A Montanha dos Sete Abutres: aquela pilulazinha de política que serve para todos. Não tem contra indicação e caí bem no paladar.

Crítica | One of Us

One of Us é um documentário original Netflix dirigido pela dupla Heidi Ewing e Rachel Grady. O filme acompanha Etty, Luzer e Ari, pessoas que tentam fugir do ambiente de violência, opressão, segregação e abuso da comunidade ultraortodoxa judaica hassídica de Nova Iorque. É muito importante ressaltar que esta comunidade específica preserva hábitos muito conservadores, intransponíveis e engessados. Seguem suas próprias condutas, regras e leis, e não existe a mínima possibilidade de interação. Ela não representa o judaísmo de maneira geral. E as diretoras acompanharam os processos dolorosos de separação dos protagonistas dentre deste cenário.

Etty, que tem 30 anos, viveu por muito tempo submissa ao marido e as regras, e teve 7 filhos. Nenhum por sua vontade. Óbvio que por seu instinto materno ela não quer separar-se deles, e em uma luta injusta no tribunal o resultado pode ser pior do que ela espera. Além de tudo, ainda sofre abuso moral e ameaças dos familiares do ex-marido.

Ari é um jovem contestador. Ele foi privado de tudo, inclusive do conhecimento básico do ser humano, como a matemática, por exemplo. Depois que resolveu sair da comunidade todos os seus amigos deram as costas, ele precisou aprender tudo do zero para conseguir de alguma maneira sobreviver. O vício em cocaína foi um reflexo da sua restrição à vida. Triste.

Luzer é aspirante a ator. Tentou inúmeras vezes conseguir papeis após se negar a continuar no judaísmo hassídico. Para sobreviver ele trabalha na Uber e vive dentro de um trailer. Também teve o direito de ver os dois filhos arrancado de si, e começa a lhe faltar a memória visual das crianças.

A comunidade judaica hassídica possui escolas próprias, leis próprias, inclusive este mesmo grupo de pessoas que vive em Nova Iorque até adquiriram uma ambulância exclusivamente para atendê-los. A motivação desta exclusão da sociedade contemporânea é tátil, visto que esta é a maneira deles se auto blindarem da atrocidade que foi o holocausto. O que eles fazem é reflexo de uma história dolorida. Agora, a maneira que isto é feito, com certeza é inaceitável.

Lembram que citei que o judaísmo hassídico, não representa a religião no total? Nossos protagonistas deixam isso muito claro, e este é um ponto muito positivo do filme. São retratadas inúmeras vezes em que eles foram em reuniões, em sinagogas, em festas judaicas após o afastamento, visto que eles continuam com a fé. A discordância é evidente e clara quanto aos métodos.

É fácil dizer que 90% do documentário mostra apenas o que acontece/aconteceu com as três pessoas que saíram daquele meio. Os outros 10% são “depoimentos/respostas” de quem está lá e acredita em tudo aquilo. Poderia facilmente dizer que não ouvir o outro lado, é uma falha do filme. Porém deixo a pergunta: como uma comunidade machista, conservadora, segregadora, deixaria duas diretoras mulheres, entrar no seu ciclo para registrar alguma coisa?

One of Us é um relato importante e doloroso que deixa muito claro que o extremismo, seja em qualquer segmento, é destruidor. As vidas/pessoas que nele foram retratadas estão condenadas a tristeza, e mesmo que elas saiam e continuem lutando por sua liberdade, o trauma e a dor permanecerão para sempre.

 

Quem seria Lars Trier? Nascido em 1956, na cidade de Copenhagem, é carinhosamente chamado de Lars von Trier. O “von” foi adotada por ele durante o período em que esteve na Danish Film School, pois se tratava do apelido dado por seus amigos da época. Trier consegue ser um dos mais (ou o mais) polêmicos diretores do nosso tempo. Tendo até recebido pela direção do Festival de Cannes a declaração de persona non grata, como sinal de repulsa ao cineasta dinamarquês, por suas declarações , brincalhonas, segundo ele alegou mais tarde, de simpatia por Adolf Hitler e pelo nazismo. Dá pra ver que tanto atrás das câmeras quanto pelas obras realizadas, ele é polêmico. Mas brilhante e completamente fora do padrão, costuma ser o oposto do que chamamos previsível. Com filmes que abordam temas pesados ou assuntos mais delicados, ele é responsável por várias obras primas do cinema. Você nunca vai saber o que esperar, já que a surpresa é uma das maiores armas desse grande diretor.

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Mas não foram apenas seus filmes que o tornaram conhecido. Ele, junto a seu amigo Thomas Vinterberg, foi um dos idealizadores do “Dogma 95”. Trata-se de um manifesto para a criação de um cinema mais realista e menos comercial, contendo 10 regras para um filme, podemos dizer que, mais teatral. Nele não são permitidos o uso de algumas tecnologias, tendo que ser filmado em câmera de ombro e sem qualquer tipo de suportes. A trilha sonora seria apenas o que ressoar no local da cena, e nada de muitos cenários, efeitos especiais ou truques fotográficos. Os filtros são estritamente proibidos (Claro que o Dogma 95 é muito mas complexo que isso, e apenas dei um resumo básico do seu conceito). Porém em seus filmes, apenas um deles segue à risca essas 10 regras: Os Idiotas, de 1998. Então sem mas delongas, vamos para os filmes:


1-Dancer in the Dark (2000)

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Protagonizado pela cantora Björk, Selma é uma imigrante tcheca, mãe solteira, que se muda para os Estados Unidos com seu filho Gene. Para sobreviver, trabalha em uma metalúrgica. Porém Selma sofre de uma doença hereditária degenerativa, que a cada dia lhe ocasiona uma rápida cegueira progressiva. Por este motivo Selma guarda cada centavo que ganha, em uma lata na sua cozinha, com o objetivo de custear uma operação que evite que seu filho sofra do mesmo destino que o seu. E foi justamente por isso que se mudaram pra os E.U.A, onde existem mais opções de médicos e tratamentos. Mas o que já esta ruim tende a piorar, e várias coisas começam a acontecer com a personagem ao longo do filme. Sendo um dos filmes mais tristes de Trier, é realmente impressionante e muito bonito. Com vários prêmios importantes ganhados, como a palma de ouro e o de melhor atriz para Björk (Cannes), é um dos meus favoritos.


2-Dogville (2003)

Dogville (2003)

Um dos filmes de Lars Trier que mais cumprem com as regras do Dogma 95, apresentando muita simplicidade em seus cenários ou até com ausência deles. Literalmente são riscos no chão e cortes de cenas pouco convencionais. Todo o filme foi gravado dentro de um galpão na Suécia, com câmera no ombro e ausência de trilha sonora ou deslocamentos temporais. Entretanto foi usada iluminação artificial e cenografia, itens proibidos no Manifesto Dogma 95. Com várias referencias ao teatro incluídas no longa, como o absurdismo, em que os atores improvisam e criam situações em que interagem com objetos que não estão ali como portas invisíveis e assim por diante, o filme é parte de uma trilogia com dois que eram para serem lançados, mas apenas um saiu, a terceira parte ainda esta sem previsão.

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Começa quando Grace se esconde de criminosos que a perseguem. A pequena cidade de Dogville se dispõe a refugiar-la, desde que ela faça valer o esforço. Ela trabalha duro para várias pessoas da cidade para obter seus favores. Mas aos poucos eles começam a perceber que ela lhes deve muito mais. O filme começa aparentemente normal, e com o passar do tempo vai mostrando um lado sombrio e pesado, chegando a um final de deixar qualquer um boquiaberto. (Para um maior aprofundamento veja na nossa de Dogville aqui no cinerama, não vai se arrepender)

3-Anticristo (2009)

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Considerado um dos mais violentos,macabros e explícito filme de Trier, esse filme de terror é protagonizado por Willian Dafoe e Charlotte Gainsbourg. Trata-se de um casal que acaba de perder, de uma forma trágica, seu único filho. A mãe entra numa depressão gravíssima, e seu esposo, que é psiquiatra, os isola totalmente da sociedade, indo viver com ela rusticamente em uma cabana na floresta.

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É um filme que começa lento, mas a partir do momento que eles se mudam para a cabana, começa a esquentar. Com uma beleza visual fantástica e fotografia que te joga dentro da história, o clima passa a ficar cada vez mais sombrio. Com atuações impactantes e roteiro um pouco forte e pesado, é um filme inteligente e assustador. Lars não poupa o seu público e entrega um produto doloroso de se ver e que muito se assemelha a uma espécie de tortura para a sua mente. Para poucos, mas, uma obra prima.

4-Melancolia (2011)

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Mas uma vez contendo Charlotte Gainsbourg, como também Kirsten Dunst e Kiefer Sutherland. Todos eles sensacionais em seus papéis. Como o próprio nome diz, umas das produções mais tristes de Trier. Com uma mistura de drama e suspense, esse longa traz uma fotografia bem sombria/escura, com os clássicos takes em câmera lenta que dão aquele toque mais macabro ao filme. Justine (Kirsten Dunst) está prestes a se casar com Michael (Alexander Skarsgard), e recebe a ajuda de sua irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg). Mas ao mesmo tempo que tudo isso acontece, nossa protagonista passa por problemas pessoais, chegando a surtar muitas vezes. E como se não bastasse, eles estão perto do fim do mundo, pois existe o risco de um outro planeta colidir com a terra. O filme é uma clara alusão a depressão em si e em todo o seu contexto. Com fotografia, trilha e atuações belíssimas e que ajudam bastante, um claro estudo da vida por Lars von Trier. (Também temos uma ótima crítica aqui no cinerama sobre o Melancolia, confere lá porque vale a pena!)

5-Ondas do Destino (1996)

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O filme que trouxe a tona o grande potencial de Trier, pois foi quando ele passou a ser mais reconhecido. Nunca espere um filme tranquilo, quando a direção esta nas mãos de Lars von Trier. A trama é passada no norte da Escócia, onde uma jovem mulher com uma leve deficiência mental, Bess (Emily Watson), se apaixona e se casa com um dinamarquês (Stellan Skarsgard, 1 de 5 filmes que ele viria a participar com Lars). Ele trabalha em uma plataforma de petróleo e sofre um acidente onde quebra o pescoço e fica provavelmente incapacitado para o resto da vida. Nesta situação e vendo sua mulher sofrendo, ele a pressiona para procurar amantes e depois a contar os prazeres e detalhes de suas experiências. Bess não deseja isso e sofre tremendamente em seu suplício. Mas assume que seu propósito em vida é servir aos outros e abdicar de si mesma em nome do amor. Isso é só um breve resumo da grandiosidade que o filme tem, numa atmosfera totalmente única e com interpretações e abordagens bem delicadas. Como sempre uma fotografia lindíssima, paisagens de grande beleza e com a brilhante e hipnotizante atuação de Emily Watson. Muito, mas muito comovente. Uma obra essencial sobre o amor, a bondade e principalmente a humanidade.

 

Há alguns minutos as redes sociais oficiais dos estúdios Disney divulgaram o que seria o primeiro trailer da sequência de Os Incríveis, aclamada animação de 2004.

O filme deve estrear em 14 de junho do ano que vem e conta com a direção de Brad Bird, e o elenco que já conhecemos na versão original: Samuel L. Jackson como gelado, Holly Hunter como mulher elástica e Sarah Vowell como Violeta.

A ‘Marvetização’ da DC Comics

Vamos direto ao ponto : A DC está tentando virar a nova Marvel nos cinemas. Isso se tornou muito claro nos últimos filmes da editora com os estúdios da Warner Bros. Mas vamos do começo.

2013, após o fim da excepcional trilogia do Batman dirigido por Christopher Nolan e uma tentativa mau sucedida de levar o Lanterna Verde às telas, o amado e odiado Zack Snyder toma as rédeas de um novo projeto e apresenta ao mundo sua versão mais melancólica e cabisbaixa do Superman, com Homem de Aço; um filme que assim como o diretor, divide opiniões. Mas mesmo entre as acusações de que o personagem não é daquele jeito, que deveria existir mais cor para simbolizar a esperança tanto falada e etc, não se pode negar que este é um filme diferente, e acima de tudo, original.

Os anos se passaram e a Warner viu a principal concorrente no mercado de heróis arrecadar bilhões com seus filmes e praticamente criar um padrão estrutural nos roteiros de todos seus longas, que até hoje os deixam super atrativos para o grande público. E com muito ‘atraso’, o estúdio mais uma vez chama Zack Snyder para acabar com o tempo perdido e colocar a DC Comics de volta no jogo. Mas não se podia simplesmente fazer um universo compartilhado igual ao da Marvel, precisava-se de algo novo, que separasse uma da outra. Então, de maneira corajosa e louvável, Snyder une os três maiores heróis da empresa e os colca em meio a um ambiente caótico, sombrio, com consequências reais. O que aconteceria se um alien super poderoso vivesse entre nós ? As pessoas iriam aprovar ? O governo o usaria como arma ? E assim surge o (mais uma vez) polêmico Batman V Superman.

A proposta era boa e interessante, e parecia que os rumos do universo DC no cinema já estavam traçados nos seus próprios padrões existencialistas e sombrios. Mas, por diversos motivos, o longa não foi bem aceito nem pela crítica, muto menos pelo grande público. Talvez o tom pesado, sem alívios cômicos e uma trama que vai e vem com pequenas e grandes revelações tenha afastado a massa consumidora que vai ao cinema para ver explosões e histórias simples. Talvez. Mas a verdade é que foi sim algo marcante e surpreendente, positiva e negativamente, tanto que um ano depois ainda estamos discutindo-o, e ninguém nem sequer lembra-se de Guerra Civil, daquele mesmo 2016, e que também colocava heróis para brigar. E não seria surpresa se daqui há dez anos ainda discutissemos a existência de seres super poderosos na terra, além do, é claro, ”Salve Martha”.

Após ter Batman v Superman detonado, a Warner correu para tentar agradar todo mundo com Esquadrão Suicida, que passou por diversas refilmagens, teve cenas excluídas, e mudou drasticamente de tom para agradar à todos. E acabou não agradando ninguém.

Ok, e agora, o que fazer ? Se arriscar não deu certo, e mudar de última hora também não, que tal começarmos com um plano seguro já em mente? Então, em 2017, chega aos cinemas Mulher-Maravilha, que poderia muito bem ser um filme da Marvel. Trama simples, paleta de cores vivas, protagonista de fácil aceitação do público (pelo menos uma), e ação desenfreada. Só se percebe que é um filme da DC Comics pela trilha sonora marcante e as já tradicionais cenas em slow motion. Mas era necessário. Se um time vem de três derrotas seguidas, é preciso trocar alguns jogadores e mudar o estilo de jogo. A Warner fez isso para recuperar a confiança que havia perdido, e deu certo para seus propósitos, afinal, seu principal filme com seus principais personagens estava chegando, e pra isso precisava de toda aceitação possível, vinda de todos os lados.

Cá estamos no mês de lançamento de Liga da Justiça, que já é um sucesso comercial absoluto. Filme este que passou por diversos problema em sua produção, com a saída do diretor Zack Snyder na finalização, devido à problemas pessoais. Foi aí que entrou um velho conhecido dos fãs de filmes de heróis : Joss Whedon, diretor de Vingadores e Vingadores 2, assumiu a pós produção do longa, e foi o responsável pelo jeito do filme que você assistiu nos cinemas. A participação de Joss é notável de diversas formas, mas quando é possível distinguir quais partes do filme se responsabilizam a qual diretor, algo está errado. Como de costume na Warner, diversas cenas do trailer simplesmente sumiram do resultado final, e a película foi ‘enxugada’ para se tornar mais aceitável, essa palavrinha que andou perturbando os executivos da Warner.

Liga da Justiça não é um filme ruim, mas dá a impressão de que poderia ser algo a mais, e é mais triste ainda saber que talvez esse algo a mais exista, e tenha sido tirado do filme após a saída de Snyder. É grandioso, mas infelizmente faz parte do cinema fast-food, você consome rápido, é saboroso, mas não é o essencial. Ainda é um filme da DC Comics, mas aos poucos essa classificação vai perdendo o sentido. Agora, como diferenciar Marvel e DC, se as duas possuem filmes simples, sem grandes coisas à acrescentar ao espectador e que em breve serão esquecidos e trocados por outras produções ?

Mas, ainda há esperança. Assim como Mulher-Maravilha foi um divisor de águas, este talvez também seja. Não se pode arriscar em um filme tão importante assim, pelo menos é o que pensa o pessoal que cuida da grana da Warner. Talvez, com a confiança agora totalmente recuperada, vejamos os filmes voltarem a serem autorais, originais e únicos. Essa é a esperança do Aquaman dirigido por James Wan e que estreia em 2018, pois o próprio diretor é conhecido por esses mesmos adjetivos.

Talvez, o universo totalmente compartilhado não seja a melhor opção para a DC, e os filmes sem saiam melhor individualmente, não como parte de algo melhor. Talvez.

"O cinema é um modo divino de contar a vida"
Federico Fellini

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