A primeira esposa do escritor inglês Anthony Burgess, em 1944, foi estuprada e violentada por quatro soldados americanos. Isso, trauma internalizado, o inspirou a escrever Laranja Mecânica – distopia suja, com palavras estranhas – linguagem nadsat -, e um protagonista tão imundo quanto a sociedade que o cerca e seu destino. Mas, apesar de ser sujo e maldito o romance inteiro, na versão inglesa, Alex DeLarge redime-se de seus erros e pecados, mesmo depois de matar, e violentar, e estuprar, e… Já na versão americana, os editores acharam que o público não iria engolir a redenção de um mal elemento como Alex… Então seu final foi sucumbir ao seu próprio mal. Não existe regeneração. Existe?

1971, nove anos depois do lançamento do livro de Burgess, Stanley Kubrick joga nas telinhas inglesas Malcolm McDowell violentando, e estuprando, e transando e ouvindo a Nona Sinfonia de Beethoven – a adaptação fílmica do já polêmico romance de Burgess estremece a Inglaterra. O filme de Kubrick ficou proibido na terra da Rainha até o começo dos anos 00’s. Mas por qual motivo as travessuras de Alex e seus drugs incomodaram tanto o público inglês? Claro que não somente eles correram das salas do cinema – outros países e seus povos também repudiaram o longa – mas o veto de quase trinta anos a ele é de chamar atenção, certo? Vamos aos fatos…

1) Singing in the Rain…

O óbvio antes de mais nada: Laranja Mecânica teria influenciado alguns jovens desajustados a cometer crimes hediondos, violências, estupros – tal qual Alex. Os jovens, segundo testemunhas à época, vestiam roupas iguais aos do bando de Alex, assim como usavam suas maquiagens, dentre outros signos. O próprio Anthony Burgess desencantou-se do filme e de seu livro, posteriormente, após ficar sabendo que um bando de arruaceiros, travestidos tal qual Alex e cia., teriam tocado o horror em Nova York. Motivo suficiente para odiar um filme? Não somente…

2) O cidadão de bem… ou quase isso.

Resuminho do longa de Kubrick: Alex estupra e mata a esposa de um ativista dos direitos humanos, um pouco mais tarde na narrativa, adentra a casa de uma senhora e a mata de forma trágica e cruel. É neste instante que seu bando o trai, resultando em sua prisão. Preso, o nosso “herói” é convidado a participar de um tratamento pioneiro, que irá diminuir seu tempo de prisão: Tratamento Ludovico. Olhos abertíssimos, cenas de sexo e violência, um remédio que causa ânsia de vômito e a Nona Sinfonia – behaviorismo total. Depois do super tratamento de choque, Alex está “curado” de seus impulsos violentos – na verdade, o tratamento não elidiu sua violência intrínseca, apenas o fez reagir negativamente aos impulsos agressivos.

Vamos diretamente ao ponto do texto: depois de sair da prisão, estando comprovadamente vulnerável a qualquer um, Alex sofre a vingança de todos que, outrora, sofreram em suas mãos – desde seus drugs, até o ativista dos direitos humanos. E é sobre este último que vou me debruçar…

3) Vingança do bem?

O ativista, quando descobre em um dado momento quem é Alex, e relembra com dor e ódio suas maldades – matar a sangue frio e risos sua mulher -, se vingando de Alex trancando-o num quarto e tocando no último volume a Nona Sinfonia. Alex, não suportando a música e o que ela lhe causa, tenta cometer suicídio. E é bem aqui, nesta troca de papéis, que quero divagar mais ainda: o tal do cidadão de bem, que paga seus impostos, é religioso, trabalha pela ordem social, pode vir a despertar em si um monstro. Monstro este adormecido por contrato social, simplesmente para manter uma certa “ordem” dentro da convivência social.

Porém, e quando o cidadão de bem se vê no direito de vingar-se de seus algozes? De fazer justiça com as próprias mãos? De tirar do Estado seu dever de julgar, ou dar ao Estado o direito de punir/vingar – o primeiro, o ativista; o segundo, Alex sofrendo nas mãos de seus drugs. Talvez, olhando sob esta perspectiva crua, o filme tenha causado mal estar nos ingleses de “bem”, desnudando-os e revelando-os em seus desejos mais íntimos, mas proibidos.

Uma análise quase psicológica, quase freudiana desta repulsa ao filme – caso possa ser feita -, é quando identificamos em outros, em outras pessoas, nossos erros e defeitos e nos sentimos desnudados. Tudo subconsciente, o processo. O cidadão de bem, sendo assim, não suporta ver sua maldade, seu ódio escancarado publicamente – os únicos que têm ódio e cometem crimes e erros são os delinquentes, e são estes que vemos e suportamos nos noticiários e telas de cinema, não o ódio do bem do cidadão de bem.

4) Ultraviolência

Na realidade, para findarmos, é que nós – seja quem você for, leitorX -, somos humanos e cometemos erros e acertos. Por causa de contratualismo social, porém, não cometemos tais delitos (definições ocidentais de crime construídas ao longo do tempo, como matar, roubar, corromper sistemas, etc…). Aos que quebram tais regras, desejamos punição – e pq ñ vingança e sofrimento? Coisas que esquecemos, caros amigos, é que somos falíveis e que podemos quebrar regras e cometer crimes. Não que eu não deseje castigo aos crimes – o certo é desejar que a justiça justa, dos juízes e das leis, seja feita, não o nosso desejo de ódio e vingança das nossas mãos e ódio. Caso o façamos, estaremos nos igualando a Alex e sua Ultraviolencia…

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