Pode ser entendido como ironia que um trio composto apenas por mulheres seja o foco de uma narrativa centrada em uma época totalmente dominada por homens. Cada uma das personagens vive, ou viveu, algum tipo de dor durante a vida e, enquanto o roteiro expõe isso explorando suas camadas, inicia-se um jogo de poder e interesse, quase como um xadrez onde o desfecho é carregado de simbologias que proporcionam um final aberto à interpretação do público.

A direção de Yorgos Lathimos dessa vez é mais impessoal do que suas obras anteriores, trazendo à vida com cautela e maestria o roteiro de Tony McNamara e Deborah Davis, com uma linguagem visual riquíssima em detalhes. Não só a estética do longa é impecável como a atuação do elenco faz valer suas 10 indicações ao Oscar.

 

Apesar do foco narrativo estar no jogo entre o trio feminino composto por Sarah (Rachel Weisz), Abigail (Emma Stone) e Rainha Ana (Olivia Colman), temos ainda uma subtrama política acerca da guerra entre a Inglaterra e a França onde surge a única figura masculina de maior destaque: Robert Harley (Nicolas Hoult), o qual surge para ligar as narrativas e ainda para apimentar o clima tenso entre a disputa. Fora isso, apesar de ser levemente baseada em figuras reais, o roteiro não abriu mão de sua liberdade criativa e recheou o enredo com tramas que fogem da realidade a fim de não se prender à fatos históricos.

O filme não só entrega personagens complexos e cativantes como também traz um maravilhoso trabalho com a direção de arte, com ambientações e figurinos que trazem o século XVIII à vida, e de fotografia, que explora os cantos do castelo usando e abusando do fisheye, cuja filmagem proporciona ângulos de 180 graus, como também do contra plongée, trazendo a sensação de superioridade à realeza. Além disso, temos uma concentração de cores escuras e pouca iluminação que colaboram com uma fotografia triste e seca, junto com uma pontual trilha sonora simples e repetitiva que ajuda a acentuar os momentos de dor ou agonia.

A Favorita é um drama sobre perdas e cicatrizes incuráveis que automaticamente nos aproxima de suas protagonistas, mesmo que ainda alivie a pressão por meio de ácidos momentos cômicos, funcionando quase como uma sátira alfinetando o machismo da época e os membros excêntricos da realeza.

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