Autor: William Diniz

Um jovem estudante do cinema e de toda a sua complexidade, que se debruça diariamente diante daquilo que mais ama, e se entrega com eloquência a 7ª Arte. Aprendiz de cineasta, amante de uma profusão de diretores e pseudo cinéfilo.

Do dia 07 até o dia 20 de Junho acontece o Festival de Cinema Varilux, em cerca de noventa cidades ao longo do Brasil. O festival é uma parceria Brasil – França que celebra as relações entre ambos os países, e que tem patrocínio de diferentes grupos, tanto do capital público, com a Secretaria de Estado de Cultura, por exemplo, quanto privado, como no caso da Airfrance, e do grupo Essilor-Varilux, que batizam o próprio evento.

Inicialmente o festival era promovido em cerca de 56 cidades, contudo, decorrente de uma parceria estratégica com o SESC nacional, passou a expor os filmes em regiões ainda menores, que até então não possuíam contato direto com o cinema francês. É importante compreender que este relacionamento serve como mecanismo de celebração da relação entre os países, e age como importante ferramenta de propagação das noções e valores culturais de ambos os povos.

A equipe do Cinerama em parceria com a produtora 4ªParede foi convidada para cobrir o evento de estreia no dia 04 de Junho, que contou com alguns atores e diretores de filmes que estrearam no festival. Além disso, também foi realizada uma série de entrevistas com os mesmos no Fera Palace Hotel, no centro histórico da cidade de Salvador. 

Fera Palace Hotel – Salvador – Bahia
Fera Palace Hotel – Salvador – Bahia

Durante muitos anos o cinema serviu ao interesse de diferentes nações para disseminar suas respectivas realidades internas e concepções sociais, sobretudo ao longo de períodos conflituosos, servindo como um meio brando de introdução dos valores de um povo sobre o outro. Através do mesmo que atualmente é comum na mentalidade de pessoas que nunca foram aos EUA, por exemplo, a realidade que é almejada e vivida dentro de seus territórios. Dito isso, a celebração de um evento de tamanho porte não se delimita no intercâmbio cultural promovido, mas se expande no intuito de consolidar também a força de uma nação sobre a outra.

Entre os convidados que vieram para cidade de Salvador, foram entrevistados pela nossa equipe, Fabien Gorgeart, diretor de O Poder de DianeFinnegan Oldfiel, protagonista do filme Marvin; a atriz Zita Hanrot e o diretor Yannick Renier, ambos do filme Carnívoras. Todos os três filmes estrearam no Brasil pelo Festival de Cinema Varilux, e podem ser acompanhados na programação do evento, que está disponibilizada no site oficial.

Zita Hanrot e Yannick Renier, ambos do filme Carnívoras.
Fabien Gorgeat, diretor de O Poder de Diane.
Finnegan Oldfield, de Marvin.

As entrevistas se deram ao longo da tarde do dia 04/06 e se desenrolaram de modo muito positivo, sendo que serão disponibilizadas em breve por escrito e também em vídeo no canal do Cinerama. Com exceção do diretor Fabien Gorgeart, todos os outros falavam inglês e não foi necessário a intérprete. 

A noite aconteceu a estreia do Festival, voltada para convidados, no Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha, na Avenida Castro Alves, em Salvador. Além de alguns membros da equipes dos filmes, também foram organizadores do festival, dentre eles um dos diretores, Christian Boudier.

Esquerda para direita: Yannick Renier, Christian Boudier, Finnegan Oldfield e Zeta Hanrot.
Membros da 4ªParede Produções, e do Cinerama: Alice Cortes, William Diniz, e Laura Sampaio.

Após as exibições das sessões dos filmes com a apresentação prévia de seus respectivos atores/diretores, foi dado um coquetel de estreia aos convidados, com patrocínio da Airfrance e de outras empresas envolvidas no projeto. 

Com estreia prevista para o dia 07 de Junho, o novo longa metragem de direção de Gary Ross, mesmo diretor Jogos Vorazes, é um dos grandes destaques de estreias de 2018. Dando uma espécie de seguimento ao filme Onze homens e um Segredo, o trabalho se propõe a contar a história de Debbie Ocean (Sandra Bullock), que é irmã do personagem Danny Ocean, interpretado por George Clooney  no primeiro filme. 

Com um movimento de câmera extremamente dinâmico, o filme dificilmente se torna cansativo para o telespectador, introduzindo continuamente as personagens, e promovendo progressivamente o desenrolar da trama, sem se delongar em uma única temática ou se prender a algum arco narrativo. Ainda que o desenvolvimento do roteiro não traga uma inventividade inovadora, é bem construída a narrativa cinematográfica, e tirando alguns meros deslizes no mesmo, tudo termina bem amarrado no final.

O grande ponto de destaque, que por sinal foi trabalhado em exaustão pela equipe publicitária do filme, foi o elenco. Contando com nomes renomados do cinema americano, como Sandra Bullock, Cate Blanchett, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter, dentre outros, o filme conseguiu atrair uma grande número de pessoas para as telas de cinema, colocando-o em uma boa posição de bilheteria nas estreias americanas. 

Ainda que inevitavelmente o trabalho tenha abusado dos clichês para a estruturação de uma identidade feminina em alguns momentos, o filme não foi pretensioso, não se propondo a condensar e reproduzir de forma padrão uma concepção única de feminilidade, e justamente por levar a temática com uma leveza bem característica da obra, acabou passando de forma sutil por esse ponto.

Divertido, leve, e carregado de uma estética que se referiu continuamente a indumentária feminina, e a indústria de luxo existente por trás de grandes eventos, como o tradicional baile do Metropolitan Museum of Art, o filme consegue agregar uma idealização do senso comum, e ainda assim abarcar uma certa individualidade nas personagens, fazendo dessa uma obra super acessível ao público de modo geral. 

Baseado no romance de Delphine de Vigan este filme foi a aposta do Festival de Cannes para ser o filme de encerramento da seleção oficial, extracompetição. A história de uma escritora de sucesso (Emmanuelle Seigner) que inicia uma relação amorosa com uma admiradora (Eva Green) e que pouco e pouco, vai literalmente controlar a sua vida com uma crescente violência física e psicológica.

Com direção do célebre Roman Polanski, já conhecido pela criação de inúmeros outros thrillers psicológicos como O Inquilino (1976), Repulsa ao sexo (1965), e o recente, O Escritor Fantasma (2010), seu mais novo filme, Baseado Em Fatos Reais, consegue construir inicialmente uma atmosfera que parece fluir de forma ritmada, mas que acaba se perdendo diante do desenrolar, ora pelas escolhas galgadas em obviedade que são rotineiras diante de inúmeras cenas, ora pela incapacidade do diretor em estruturar de forma eficaz a organização linear e crescente exigida pelo gênero do suspense.

A proposta de evidenciar a natureza repentina e doentia da relação entre uma notável escritora, interpretada por Emmanuelle Seigner, e sua aparente amiga, vivida pela inconfundível Eva Green, que transita entre o resultado de um processo criativo doloroso e árduo, e a existência concreta de um relacionamento conturbado e abusivo, teria funcionado melhor se a natureza de tal momento fosse explorado com maior profundidade, o que não acontece na obra uma vez que o diretor se abstém de gerar um maior amálgama entre elas, e com isso termina transitando entre o clichê e o quase criativo.

Ainda assim, a atuação de Emmanuelle Seigner e de Eva Green são inquestionáveis, e o jogo de olhares e de toques que se estabelecem entre ambas em inúmeros momentos são a principal força geradora dessa tensão tão aguardada pelo telespectador. Tais performances servem para apontar a força que habita dentro de uma boa interpretação, mesmo quando o roteiro se mostra quebradiço e a direção não consegue aderir os problemas de modo eficaz.

O conceito originário do roteiro foi bem pensado, e teria tomado rumos ainda melhores, haja visto que mesmo com as falhas evidenciadas, a introdução dessa temática que correlaciona o processo criativo de um escritor com a presença ambígua de Elle (Eva green), tem um ar de mistério e de atratividade bem contundente. As escolhas das atrizes foram excelentes, a fotografia do filme foi esteticamente bem pensada, ainda que tenha tomado nota de recursos simplórios, como o uso do vermelho para contrastar os picos de agressividade/invasão vividos pelas personas em questão.

O abuso em um relacionamento tão recente, disposto de forma tão repentina na tela, e a incapacidade de desenvolver a dinamicidade evidente nessa relação, ainda que por alguns instantes aparente o surgimento de uma nova balança de poder entre ambas as psiquês, foi o motivo principal do trabalho não ter saído de suas limitações já esperadas e ter partido para um ápice criativo. Que Polanski é um excelente diretor não nos resta dúvidas, sobretudo porque seu histórico já é conhecido por qualquer um que se atreva mergulhar no universo fílmico, contudo, isso não é o suficiente para garanti-lo uma eficácia constante, e em Baseado Em Fatos Reais, o diretor deixa a desejar, ainda mais para aqueles que acompanham o seu trabalho faz tempo, e que têm plena consciência da sua potência cinematográfica.

Sinopse: Em Beirute, um insulto explosivo leva Toni, um cristão libanês, e Yasser, um refugiado palestino, para o tribunal. De feridas secretas a revelações traumáticas, o circo midiático que envolve divide o Líbano em uma crise social, forçando Toni e Yasser a reconsiderarem suas vidas e preconceitos.

Do diretor libanês Ziad Doueiri, O Insulto é um dos atuais filmes concorrendo na lista de filmes estrangeiros do Oscar, e prova com pontualidade que é preciso voltar a atenção para as produções orientais, remodelando a centralização de um cinema ocidentalizado e especificamente, americanizado.

Com um roteiro bem elaborado, a obra consegue promover de forma perfeitamente linear as etapas de desenvolvimento da narrativa, através da elucidação progressiva da trama, contando com um momento inicial de calmaria, gerando pouco a pouco os conflitos de um jeito pontual, sóbrio, e bem aplicado.

Não fosse a capacidade de instituir de modo concreto o roteiro linear, existe também o grande feito evidenciado pelo trabalho: O potencial de expansão de um evento até então individual, e que cresce proporcionalmente até um ponto em que não só ele se destaca, como também é carregado de noções morais nacionais, e de um olhar evidentemente coletivo. Em O Insulto é possível compreender a dinâmica de um identidade nacional e coletiva bem realística, e que é incrivelmente bem delimitada, na medida em que não se deixa contaminar pelas predileções ou pelos valores do povo responsável pela produção, como acontece com frequência no ufanismo desvairado que é jogado abruptamente na cara de telespectadores nos filmes americanos.

Personagens bem delimitados, bem desenvolvidos em suas situações pessoais e em suas psiquês, com uma elaboração humana que não os reduzia a uma condição maniqueísta comum, compõem parte do desenvolvimento bem elaborado do filme. Ainda que o estopim inicial tenha sido apresentado de modo um tanto quanto simplista, a imersão nas individualidades das personas existentes foi considerando efetivamente a percepção de mundo dos mesmos, o que promove solidez a narrativa.

A trama é bem vasta na medida em que transita em temas como intolerância religiosa, a tensão estabelecida nitidamente entre povos diferentes, e a condição da existência de uma atmosfera inquietante, fragilizada, e facilmente tendenciosa a existência de conflitos. A grosso modo, a contenda se apresenta como um momento de divergência entre um cristão libanês, Toni (Adel Karam), e um refugiado palestino, Yasser (Kamel El Basha), gerada por causa de um equívoco onde um deles foi molhado acidentalmente pelo outro. A partir da atitude simplória, o filme escala vertiginosamente até que seja inflado de um jeito muito eficaz, promovido através da utilização da figura midiática, na narrativa.

Com uma fotografia clara que simplifica toda a construção imagética, e que se apresenta quase que crua diante das diferentes cenas, O Insulto é uma grande evidência de que é preciso ser mais permissivo com a abertura para o cinema oriental, e que grandes produções podem ser, e são criadas ao longo de todo o mundo. Sutil, na medida em que se apresenta com tamanha simplicidade, e contraditoriamente forte, ao decidir promover tal atmosfera instável, tal obra é digna de muitas premiações, e merece ser reconhecida dentro de sua construção.

Sinopse: Kat Graham (Meryl Streep) é a dona do The Washington Post, um jornal local que está prestes a lançar suas ações na Bolsa de Valores de forma a se capitalizar e, consequentemente, ganhar fôlego financeiro. Ben Bradlee (Tom Hanks) é o editor-chefe do jornal, ávido por alguma grande notícia que possa fazer com que o jornal suba de patamar no sempre acirrado mercado jornalístico. Quando o New York Times inicia uma série de matérias denunciando que vários governos norte-americanos mentiram acerca da atuação do país na Guerra do Vietnã, com base em documentos sigilosos do Pentágono, o presidente Richard Nixon decide processar o jornal com base na Lei de Espionagem, de forma que nada mais seja divulgado. A proibição é concedida por um juiz, o que faz com que os documentos cheguem às mãos de Bradlee e sua equipe, que precisa agora convencer Kat e os demais responsáveis pelo The Post sobre a importância da publicação de forma a defender a liberdade de imprensa.

Em um período de questionamento quanto ao papel da mídia e da existência de sua imparcialidade na hora de lidar com a informação, The Post – A Guerra Secreta, chega para coroar e promover a retomada de posicionamentos que em outrora já haviam passado pelo imaginário público, e para iluminar um período onde mais uma vez é possível observar esse jogo de poder que se estabelece com frequência entre a mídia e a política.

Retratando o governo Nixon, e o vazamento de informação de documentos do Pentágono que se deu na época, a obra tenta estabelecer a dinâmica existente por trás das relações de pessoalidade entre as figuras políticas e os detentores da informação midiática, e se efetiva enquanto bem sucedida, até um certo ponto. Com o risco de uma romantização demasiada, o filme tentou se colocar em um ponto de maior distanciamento, mas tendo como base a existência de certos diálogos demasiadamente didáticos, a obra falha ao não se galgar enquanto símbolo pilar da liberdade midiática, nem como obra crítica pontual, que poderia se propor a priori a expor com vigor os caminhos tortuosos que se constroem entre a dicotômica relação de poder.

Contando com nomes como Meryl Streep, e Tom Hanks no elenco, o mais novo trabalho de Spielberg parece ser bom, mas não chega a ser nem de perto o melhor. A estrutura cinematográfica é perfeita, a montagem é muito bem elaborada, e a fotografia consegue comunicar com maestria inúmeros pontos, promovendo uma sensação quase arrebatadora diante da ideia do que pode vir a ser a informação, mas com uma temática tão delicada e tão contundente diante de um mundo atual em colapso, com o estabelecimento de um governo danoso e irresponsável, optar por trazer a luz um momento tão significativo deveria ser muito mais do que bem pensado, ou perfeitamente bem aplicado tecnicamente, mas sim tocante.

A obra é oportuna na medida em que se concretiza, mas falta-lhe as vísceras, e o sustento básico que poderia transformá-la em algo muito maior e mais arrebatador. A grosso modo, parece que Spielberg optou por revelar a grandiosidade por debaixo do fato, mas que não foi eficaz em inundar os olhos do telespectador com a real questão por trás dele, e com isso acaba pecando por não ser suficientemente agressivo com a percepção do público. Quase um pecado político.

Dito de tal forma, é evidente que a obra é digna de atenção. É um trabalho bem pensado, com aspectos técnicos e apelos emocionais interessantes, mas que não consegue se coroar enquanto símbolo dessa liberdade da qual se fala. Faltou a obra o potencial de se expor tal qual questão realística e evidente. Ademais, fica aqui a recomendação desse mais novo filme, indicado em duas categorias do Oscar, melhor filme e melhor atriz para Meryl Streep (como de costume).

Foi divulgada hoje (23/01) pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas os indicados aos Oscar 2018. A cerimônia oficial acontece no dia 4 de março, e pode ser acompanhada diretamente aqui no cinerama. Confira a lista dos indicados abaixo:

Melhor Filme

  • Me Chame pelo Seu Nome
  • Destino de Uma Nação
  • Dunkirk
  • Corra!
  • Lady Bird
  • Trama Fantasma
  • The Post
  • A Forma da Água
  • Três Anúncios para um Crime

Melhor Diretor

  • Dunkirk
  • Corra!
  • Lady Bird
  • Trama Fantasma
  • A Forma da Água

Melhor Atriz

  • Sally Hawkins
  • Frances McDormand
  • Margot Robbie
  • Saoirse Ronan
  • Meryl Streep

Melhor Ator

  • Timotheé Chalamet
  • Daniel Day Lewis
  • Daniel Kaluuya
  • Gary Oldman
  • Denzel Washington

Melhor Ator Coadjuvante

  • Willem Dafoe – Projeto Flórida
  • Christopher Plummer – Todo o Dinheiro do Mundo
  • Sam Rockwell – Três Anúncios Para um Crime
  • Woody Harrelson – Três anúncios para um crime
  • Richard Jenkins – A forma da água

Melhor Atriz Coadjuvante

  • Mary J. Blige – Mudbound
  • Allison Janney – I, Tonya
  • Laurie Metcalf – Lady Bird
  • Octavia Spencer – A Forma da Água
  • Lesley Manville – Trama Fantasma

Melhor Roteiro Original

  • The Big Sick
  • Corra!
  • Lady Bird
  • A Forma da Água
  • Três Anúncios Para um Crime

Melhor Roteiro Adaptado

  • Artista do Desastre
  • Me Chame Pelo Seu Nome
  • Logan
  • Molly’s Game
  • Mudbound

Melhor Animação

  • Poderoso Chefinho
  • Viva – a Vida é uma Festa
  • Touro Ferdinando
  • Com amor,Van Gogh
  • The Breadwinner

Melhor Documentário em Curta-Metragem

  • Edith+Eddie
  • Heaven is a Traffic Jam on the 405
  • Heroin(e)
  • Kayayo: The Living Shopping Baskets
  • Knife Skills
  • Traffic Stop

Melhor Documentário em Longa-Metragem

  • Abacus: Small Enough to Jail
  • Faces Places
  • Icarus
  • Last Men in Aleppo
  • Strong Island

Melhor Filme Estrangeiro

  • Uma Mulher Fantástica (Chile)
  • Loveless (Rússia)
  • The Square
  • Corpo e Alma (Hungria)
  • The Insult (Líbano)

Melhor Curta-Metragem

  • DeKalb Elementary
  • The Eleven O’Clock
  • My Nephew Emmett
  • The Silent Child
  • Watu Wote/All of Us

Melhor Curta em Animação

  • Dear Basketball
  • Garden Party
  • Lou
  • Negative Space
  • Revolting Rhymes

Melhor Canção Original

  • “Remember Me” – Viva: a Vida é uma Festa
  • “This is Me” – O Rei do Show
  • “Mighty River” – Mudbound
  • “Mystery of Love” – Me Chame Pelo Seu Nome
  • “Stand Up for Something” – Marshall

Melhor Fotografia

  • Blade Runner 2049 – Roger Deakins
  • O Destino de Uma Nação – Bruno Delbonnel
  • Mudbound – Rachel Morrison
  • Dunkirk – Hoyte van Hoytema
  • A Forma da Água – Dan Laustsen

Melhor Figurino

  • A Bela e a Fera
  • Destino de uma Nação
  • Trama Fantasma
  • A Forma da Água
  • Victoria e Abdul – o Confidente da Rainha

Melhor Maquiagem e Cabelo

  • O Destino de Uma Nação
  • Extraordinário
  • Victoria e Abdul – o Confidente da Rainha

Melhor Mixagem de Som

  • Em Ritmo de Fuga
  • Blade Runner 2049
  • Dunkirk
  • A Forma da Água
  • Star Wars – Os Últimos Jedi

Melhor Edição de Som

  • Em Ritmo de Fuga
  • Blade Runner 2049
  • Dunkirk
  • A Forma da Água
  • Star Wars – Os Últimos Jedi

Melhores Efeitos Visuais

  • Blade Runner 2049
  • Guardiões da Galáxia Vol.2
  • Kong – A Ilha da Caveira
  • Star Wars – Os Últimos Jedi
  • Planeta dos Macacos – A Guerra

Melhor Design de Produção

  • A Bela e a Fera
  • Blade Runner 2049
  • O Destino de Uma Nação
  • Dunkirk
  • A Forma da Água

Melhor Montagem

  • Em Ritmo de Fuga
  • Dunkirk
  • I, Tonya
  • A Forma da Água
  • Três Anúncios Para um Crime

Melhor Trilha Sonora

  • Dunkirk
  • Trama Fantasma
  • A Forma da Água
  • Star Wars – Os Últimos Jedi
  • Três Anúncios Para um Crime

Sinopse: A série segue James, um jovem de 17 anos que acredita ser um psicopata e mata animais regularmente, e Alyssa, uma colega de classe rebelde que vê em James uma chance de escapar de sua vida doméstica tumultuada.

Baseada nos quadrinhos The End Of The Fucking World, de Charles S.Forsman, a série de mesmo nome lançada recentemente na plataforma de streaming Netflix, é carregada de uma abordagem um tanto quanto satírica, e conta com um formato característico do humor negro inglês, dotado de acidez, ironia, e, nesse caso em particular, uma perspectiva aprofundada em elementos do imaginário juvenil.

O grande triunfo da série nasce no fato de que a mesma é construída rodeada de despretensão, e não se propõe em momento algum em  se consolidar enquanto uma narrativa realística tão bem estruturada quanto termina sendo. O drama, que em alguns momentos é reduzido a uma percepção satírica, se desenvolve progressivamente pra culminar, graças ao roteiro, ao que seria na realidade algo muito próximo de uma trama digna de atenção das grandes corporações cinematográficas. Em alguns momentos remete a uma junção entre Bonnie e Clyde (1967), Assassinos por Natureza (1994), e Não sou eu, eu Juro (2008).

Com personagens muito bem desenvolvidos, o roteiro navega por temáticas como abuso, relações familiares conturbadas, impulsos juvenis, problematização por trás da sociedade de modo geral e da adultização da infância, promovendo uma trama bem consolidada, que mergulha e que perpassa tranquilamente de um jeito fluído e bem elaborado em todo um universo, sem trazer de fato o peso por trás de cada contexto. Um ponto alto do trabalho, é o poder da narrativa que é conferido a ambos os personagens, permitindo que eles interajam e exponham abertamente seus pensamentos ao público, em uma espécie de promoção contínua da quarta parede.

Despojada, com uma atmosfera cenográfica bem marcada com tons fortes, que é um tanto quanto característica das séries que mergulham nessa temática ~adolescente europeu~, como Skins, e com uma das trilhas sonoras mais incríveis que já puderam ser observadas em séries, The End of the F***in World é o tipo de série que é consumida quase instantaneamente: Basta se predispor a começar o primeiro episódio, que todo o resto flui com absoluta rapidez, você nem sente que acabou. A equipe do Cinerama já está ansioda pela próxima temporada!

 

 

IDEALIZAR
verbo
  1. 1.
    transitivo direto e pronominal
    imaginar(-se) de maneira ideal.
    “um pintor que idealiza os modelos”
  2. 2.
    transitivo direto e bitransitivo
    criar na imaginação; fantasiar, imaginar, idear.
    “idealizava um futuro diferente (para os filhos)”
  3. 3.
    transitivo direto
    fazer o plano ou a planta de; planejar, projetar, idear.
    “i. um conjunto habitacional modelo”

Para começar esse texto, é preciso compreender que a idealização é uma ação que considera a projeção de uma perspectiva individual, numa figura que não é existente, ou que é real mas que não corresponde realisticamente ao que se imagina. Idealizar é munir, no campo das ideias e das possibilidades, um determinado indivíduo/objeto com uma série de expectativas, esperanças, objetivos pessoais, e percepções a nível psicológico ou não.

O cinema sempre apresentou o potencial de elevar os ânimos da humanidade, e isso se dá desde os primórdios da construção da 7ª Arte. Quando em 1895 os irmãos Lumière expuseram pela primeira vez aquilo que viria a ser o que hoje conhecemos como cinema, a platéia ficou maravilhada, horrorizada, absorta diante daquela realidade que se sobrepunha a ela, sem compreender a dimensão do que aquele momento capturado representava. A simples consideração primária do universo cinematográfico soava inacreditável, porque se tratava não somente da exposição de uma vertente da realidade, mas também da criação, e em alguns casos até mesmo da consolidação da mesma. Reproduzir um conjunto de cenas, construir uma percepção do entendimento humano por trás das figuras que se desdobravam na tela, destrinchar os códigos do imaginário da nossa sociedade, aprender a não só comunicar com palavras, mas a decifrar a compreensão por trás de cada uma delas, era como recriar a vida. E é aqui que nasce o grande ponto da atual discussão:

O cinema não é somente uma estrutura que fomenta a compreensão das massas e as nutre com um universo de possibilidade. O cinema é por si só, por definição essencial e de consideração básica, uma grandiosíssima idealização. Uma idealização ao introduzir o que é fruto de uma análise humana, e não somente por isso, mas também por ser permissivo à essa parcela também humana, a simples consideração individual. As artes de modo geral sempre obtiveram o poder de gerar significados por trás das coisas, porque é a mente que fomenta e desenvolve a logística que nomina e categoriza o objeto artístico. Porque no momento em que é destrinchado pelo homem a ideia de que pedaços de madeira organizados, ou não organizados, dispostos a esmo ou com minúcia, podem significar a totalidade do universo, ou a pequenez de um grão, assim será considerado. Porque não se trata da introdução do trabalho perfeccionista de Kubrick, ou da consideração visceral dilaceradora de Almodôvar, mas sim da percepção humana daquilo que está sendo feito e ou produzido.

Sendo assim, não é de se espantar que tudo que tenha sido produzido artisticamente, tenha sido fruto de uma idealização e objeto idealizado de tantas outras mentes. O problema que cresce com o cinema, é que nunca na história do mundo uma arte conseguiu chegar em lugares tão distantes como o mesmo. O problema com o cinema, é que hoje existem só no Brasil, cerca de 3000 salas de cinema, o que representa uma média de 115 salas por Estado. O problema com o cinema, é que no ano de 2016, por exemplo, cerca de 21 mil produções audiovisuais diferentes foram lançadas no mundo, e ninguém nunca esperou que chegássemos a isso. O problema com o cinema, é que no ano de 2015, o faturamento de Hollywood foi de cerca de 11 bilhões de dólares, e isso é apenas uma pequena fatia da indústria.

“Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades”, disse um personagem de um filme que você provavelmente viu, e que mesmo que não se lembre sabe que com certeza já ouviu antes. O que você não sabe, é que assim como essa frase de grande impacto entrou na sua cabeça e estabeleceu espaço, inúmeras outras ideias, concepções, medos, sonhos, desejos, hábitos, tristezas, alegrias, paixões e valores nasceram, cresceram, se reproduziram e se estabeleceram na sua mente, só que pra ficar. O cinema agregou ao imaginário social uma infinidade de coisas, e isso está tão bem elaborado na nossa consciência coletiva, que muitas vezes não passa pela cabeça das pessoas que aquela ideia simplesmente não é dela, e que talvez nem a represente, e perceber até que ponto você é  a pessoa que analisa, e até qual ponto você é fruto do objeto de análise, é extremamente crucial para abrir mão da idealização a certo nível, e dessa projeção que é criada sobre o universo fílmico. Vivemos em uma sociedade que não distingue mais a realidade da ficção, e que erroneamente mistura seus heróis com os atores que os representam, porque o cinema não se conteve na tela e tomou rumos demasiadamente reais.

A partir da total consolidação do cinema falado, em meados da década de 20, junto com todas as premissas do efeito na psiquê e na compreensão individual que o cinema trazia, começou a crescer um novo objeto, ou melhor, um novo sujeito objeto: As estrelas de cinema.
A exposição em telas gigantescas, a construção da figura de uma espécie de sobre-humano que encarnava personalidades variadas, rostos variados, psiquês variadas, a possibilidade da completa entrega a um novo universo fílmico, a uma outra realidade que nos gera mais conforto, a um outro espaço tempo que nos efetive e nos evidencie de um jeito melhor, mais justo, mais digno, mais…idealizado. A existência dessa expectativa absoluta na figura humana que se apresentava diante do público, e que tinha o poder de ser em si só um indivíduo e todos ao mesmo tempo, gerou quase que imediatamente um efeito arrebatador nas pessoas, construindo um imaginário que não só convalidava a realidade do universo fílmico, mas que também passou a emancipar de um jeito divinatório as grandes faces por trás do cinema, e com isso criou não a idealização sobre o outro, mas a construção altamente perigosa de uma imagem que antecede ao indivíduo humano, e que atribui ao mesmo uma série de funções e obrigações que uma figura real dificilmente poderia lidar. Nasce aí uma nova espécie de figura pública, que diferente dos monarcas ou políticos, não representavam o que o povo queria ouvir, mas sim o que o povo queria ser.

Quando a sociedade em uma espécie de movimento unificado compreendeu e significou o nascimento dessa figura cinematográfica, ela não contava com a globalização, com a internet, com o nascimento de uma mídia absolutamente gigantesca, e a partir disso, com a potencialização inacreditável daquilo que parecia ate então apenas uma relação de idealização. O que acontece, é que do idealizar nasceu o adorar, e da adoração se criou uma cultura obsessiva, que não mais se delimita ao campo consciente e lógico dessa realidade, mas que se propõe a uma espécie de imersão perigosa e nociva para ambos os lados envolvidos, tanto as figuras em consideração, quanto ao público de um modo geral. Desse ponto, em um desenvolvimento capitalista voraz e desumanizador, as grandes corporações por trás do cinema começaram a ganhar mais e mais poder, e entenderam que para lidar com um mundo que criava deuses, eles precisavam de figuras que fossem tão perfeitas quanto as expectativas por trás delas…e assim nasceu a força mantenedora de Hollywood: a ilusão.

Diferentemente do que é dito, o cinema não é a arte da ilusão. É a arte da fuga. É fugaz porque é gentil com a realidade que se constrói, e abraça-a reconhecendo que sua existência não é paralela a nossa, mas que existe. Ilusão não é o que os efeitos especiais criam, nem os figurinos, ou os cenários variados, ou a linguagem aplicada cuidadosamente; o que eles criam, é um novo universo, com seu próprio espaço, tempo, e estrutura, sem tentar confundir a ninguém de que aquilo pode ser vivenciado, ainda que escolhamos interpretá-lo assim algumas vezes. A ilusão que rodeia o cinema nasce nas concepções que desumanizam as pessoas por trás do seu processo, e que depositam sobre elas o peso de exemplo do mundo, mas o problema é que pouco a pouco, a gravidade insiste a nos puxar para o centro de nossa realidade, evidenciando as fraquezas, os erros, medos, pecados, crimes, absurdos, e tragédias cometidas por esses homens, e precisamos lidar com isso, precisamos voltar para a nossa construção de universo, e perceber que os heróis só são em sua totalidade bons quando estão mortos, ou quando nunca chegaram a existir.

É preciso ressignificar a idealização, porque chegamos em um tempo onde não é mais possível perdurar com tanta eficácia essa admiração voraz que foi ao longo de tantos anos depositada nesses indivíduos, não só decorrente do desgaste gerado por ela, mas também porque com as ferramentas de compartilhamento e de exposição já não é mais plausível a manutenção de figuras heroicas. Elas vão pouco a pouco sucumbir ao mundo real, e se a solução para lidarmos com elas for a consideração de uma espécie de rodízio, em um movimento constante de substituição de deuses por novos deuses, passaremos a perceber que a instabilidade nasce na nossa compreensão que desumaniza e endeusa esses homens e mulheres. Isso só pode evoluir em meio a um cenário de desconstrução absoluta de ídolos, porque a consideração de valores que podem parecer mais harmoniosos e corretos só vai durar o tempo em que for necessário para o surgimento de novas problemáticas que vão crescer aos montes porque eis a grande verdade do mundo: os deuses sempre terão que ser perfeitos, porque diferentemente dos mitos Gregos, somos nós aqui que os colocamos em seus panteões e os preceitos morais não vão permitir que ninguém idolatre bêbados, pedófilos, homens violentos, mulheres adúlteras e cruéis, pessoas vingativas e mesquinhas, ou qualquer tipo de figura que vá de oposição a logística básica da compreensão moral humana. Não é sobre ignorar os feitos, pois é necessário promover a resolução e exposição deles, mas sim sobre depositar a ideia concreta de que não importa o quão incrível aquela figura seja, ainda são humanos, e não há efeito especial em Hollywood que vá conseguir nos convencer do contrário.

Numa crescente corrente de exposição de casos de assédio e/ou tentativas do mesmo, mais um caso veio à tona: Stan Lee foi acusado pelas enfermeiras que trabalhavam na sua casa de andar pelado pelos cômodos, e por pedir a elas para que fizessem sexo oral nele, além de adotar posturas invasivas ao tentar fazer movimentos indevidos.

Segundo a denúncia, a empresa que prestava serviços a ele deixou de lhe atender depois de inúmeras reclamações contra o mesmo. As acusações foram feitas em anonimato, e nenhuma queixa formalizada foi prestada contra o criador dos quadrinhos.

A empresa em questão deixou de apresentar serviços ao escritor em 2016, e desde então outra companhia tem atuado em sua residência. A atual gestora dos serviços prestados a ele se posicionou dizendo que Stan Lee é um homem “educado, gentil e respeitoso”.

Sinopse: Winston Churchill (Gary Oldman) está prestes a encarar um de seus maiores desafios: tomar posse do cargo de Primeiro Mnistro da Grã-Bretanha. Paralelamente, ele começa a costurar um tratado de paz com a Alemanha nazista que pode significar o fim de anos de conflito.

Dirigido por Joe Wright, já aclamado por seu trabalho em filmes como Orgulho e Preconceito, e Anna Karenina, com estreia marcada para o dia 11 de Janeiro no Brasil, O Destino de Uma Nação foi bem recebido pelas críticas estrangeiras, sendo inclusive nomeado a diversos prêmios, dentre eles o Globo de Ouro, na categoria de melhor ator de filme de drama para Gary Oldman, que nesse dia 08 de Janeiro foi revelado o ganhador da categoria.

O filme se passa durante o período da II Guerra Mundial, em um momento onde o poderio alemão avançava, e a Inglaterra se via pressionada diante do ataque feito a Polônia, que era um significativo da imersão direta do país no conflito. Em tal momento de instabilidade, quem assume o cargo de Primeiro Ministro é Winston Churchill, célebre político inglês, conhecido pela sua oratória excelente, e pelo seu posicionamento incisivo durante o contexto de guerra ao nazismo, e é justamente esse poder do discurso, e as percepções e decisões que envolveram Churchill que acabam construindo progressivamente a narrativa da história.

Apesar da grande dedicação de Gary Oldman ao personagem, e ao destaque incomensurável que ele obtém diante da trama, o filme tem o potencial de construir a sua narrativa rumo ao desfecho da perspectiva histórica, se valendo de recursos muito pontuais que impedem que a trama tome um caráter biográfico, ou ao menos tentam impedir. Com um número de dias específicos, tendo a construção temporal bem demarcada durante um momento pontual, a história evolui e se mantém atrelada a figura do forte estadista e nas decisões que envolviam seu cargo, mas ainda que seja intimista ao ponto em que demonstra detalhes mais precisos sobre a personalidade de Winston e sobre sua vida, termina por culminar na resolução daquela contenda, voltando a atenção, acima de tudo. para o potencial de ação do mesmo diante daquele espaço/tempo.

Com uma abordagem que tende ao mais realístico, ainda que beba invariavelmente da fonte do nacionalismo ao construir uma crescente oratória sobre aqueles que seriam por fim os vencedores do conflito, e com isso gere uma atmosfera final que remete ao nacionalismo (de um jeito muito mais refinado que os americanos), o trabalho se mostra eficaz em sua proposta na medida em que consegue gerir um contexto histórico muito bem aplicado, ao remeter o telespectador, ainda que não tão próximo da dimensão que se deu por trás da II Guerra, ao peso e a grandiosidade daquele evento.

O problema nasce na existência de personagens que são invariavelmente maiores do que as histórias que eles se desenvolvem. A interpretação de Gary Oldman está incrível, e em alguns momentos era muito fácil confundir a sua presença com a do político Churchill, contudo, dada sua entrega absoluta a personagem, é evidente que Joe Wright deixou-se envolver em demasia pelo espetáculo que se deu, cometendo o deslize de explorar ao máximo a sua persona, e ignorar o valor de outras figuras relevantes, como a mulher do político, interpretada por Kristin Scott. Tal feito não diminui o valor do trabalho, contudo, acaba menosprezando a eficácia de outros pontos, porque ainda que o político tenha sido uma figura de extrema relevância, o conflito em si, é invariavelmente mais grandioso do que a sua condição.

Com uma fotografia bem escura, com planos abertos aproveitados em espaços claustrofóbicos, e uma elaboração imagética bem eficaz (como por exemplo na cena em que Churchill liga para o presidente americano), a história se molda pouco a pouco tendo a persona principal como base, e falha em explorar com mais veemência todo o caos existente e a inquietude social vivenciada no período.

Dito isso, O Destino de Uma Nação termina por romantizar seu personagem, na medida em que lhe confere uma força superior ao conflito que ele se encontra, contudo, como a dialética da imagem e do discurso do filme (assim como o do próprio personagem) se mostram fortes e bem elaborados, o trabalho se mantém com sua força e originalidade, ainda que deixe a desejar em alguns pontos.

 

Sinopse: França, início dos anos 1990. O grupo ativista Act Up está intensificando seus esforços para que a sociedade reconheça a importância da prevenção e do tratamento em relação a Aids, que mata cada vez mais há uma década. Recém-chegado ao grupo, Nathan (Arnaud Valois) logo fica impressionado com a dedicação de Sean (Nahuel Pérez Biscayart), apesar de seu estado de saúde delicado.

Dirigido por Robin Campillo, com estréia no Brasil no dia 04 de Janeiro, 120 Batimentos por Minuto tem provocado inquietação por onde passa, gerando comentários de todos os tipos, sobretudo depois de sua passagem pelo renomado Festival de Cannes, onde o presidente, jurado, e um dos diretores mais célebres do cinema, Pedro Almodóvar, acabou se emocionando diante da película, algo inédito na história do evento – diga-se de passagem-.

A trama se passa ao longo dos anos 90, e conta com um ponto realístico desde os primórdios de sua criação: Robin Campillo, diretor da obra, vivenciou o momento e parte da história retratada. Acontece que Robin integrou durante os anos 90 a Act Up, organização ativista que ao longo de anos de luta acabou sendo uma das grandes responsáveis pela democratização do acesso aos coquetéis, que na época se mostraram ferramentas importantíssimas não só para com o controle do HIV, mas sobretudo para a redução do número massivo de mortes que estavam se dando, decorrente da incapacidade dos tratamentos até então, de promoverem maior segurança para os indivíduos contaminados.

A grosso modo, poderia ser concluído que a trama do filme se propõe a falar sobre esse momento histórico, e sobre esse contexto específico de luta e de ativismo, numa busca intensa e quase visceral por mais reconhecimento da doença enquanto realidade, e da abertura dos tratamentos para a resolução do mesmo, contudo, depois das 2 horas e 20 minutos dedicadas diante da película, não é difícil perceber que esse resumo seria deveras reducionista. Muito além de se delimitar ao contexto e ao momento vivido, a história é sobre vivência, sobre resistência, e sobre sobrevivência.

São então esses basicamente os três termos definidores do trabalho: Vivência porque se propõe a configurar a experimentação da vida daquelas pessoas, tanto nos seus dramas pessoais e situações a nível individual, quanto ao contexto coletivo. Resistência porque o ativismo, as estruturas bem demarcadas de luta em prol de reconhecimento, e a presença evidente desse ímpeto e força para lidar com uma sociedade ainda formada em arquétipos e em esteriótipos, são ferramentas muito recorrentes na narrativa, e estruturam a base do enredo. Sobrevivência na medida em que muito além de que um conflito social, de uma experimentação coletiva em oposição a estruturas vigentes socialmente, existe também o retrato recorrente de pessoas que enfrentavam também o próprio vírus do HIV, compartilhando de uma força inata ao homem, que se projeta em busca de vida, de longevidade.

Um ponto desse movimento coordenado que foi introduzido e que mesclava essas três perspectivas, é que a atmosfera do filme, o desenvolvimento da câmera, a forma como os takes e a montagem foram trabalhados, e até mesmo o compasso rítmico construído através da trilha sonora e das atuações, conseguiram construir uma noção de unidade, muitíssimo bem costurada, dotada de detalhes e pontos bem individuais, mas que numa análise do todo geraram um espetáculo visual.

Uma outra grande qualidade é que o filme se mostra forte, e emocional, ainda que não se apegue a elementos de grande sentimentalidade, mesmo quando trás consigo a temática da morte e da perda. É que os seus personagens, ainda que individualmente definidos enquanto protagonistas, parecem servir como uma espécie de vitrine de realidade, e os ares mórbidos por trás da problemática acabam perdendo espaço, mesmo quando a mesma se faz presente. O que isso faz é ser permissivo com uma história que não nasce pra ceifar e sepultar vidas, mas sim pra explorar a grandiosidade da existência delas.

Dito isso, não seria surpreendente a nenhum de vocês que a recomendação a esse trabalho fosse imediata. Bem construído, desenvolvido, e surpreendentemente original nas escolhas de sua narrativa fílmica, 120 Batimentos por Minuto, ousaria dizer, é um dos melhores filmes dos últimos anos.

Sinopse: Ângela Cristina (Ingrid Guimarães), mãe da adolescente Maria de Lourdes (Larissa Manoela), está  tendo a experiência de guiar sua filha durante uma das fases mais complicadas da vida. Ela vive uma montanha-russa de emoções, com medos, frustrações e um caminhão de queixas para descarregar. Por outro lado, Malu, como prefere ser chamada, também tem suas insatisfações. Embora teimosa, sofre com os cuidados excessivos e com o jeito conservador da mãe. 

O Brasil tem pouco a pouco mostrado um cinema forte, bem elaborado, com elementos muito significativos no que tange a linguagem fílmica, e que tem progressivamente chamado a atenção internacional para a qualidade do que é aqui produzido. Em 2017 tivemos filmes como Não Devore Meu coração, Gabriel E a Montanha, O Filme da minha vida, Bingo, Divinas Divas, dentre outros, que foram muito bem aclamados pela crítica, bem recebidos em grandes festivais, e alguns deles também apresentaram bons resultados de bilheteria. Tal crescente do cinema nacional termina por gerir uma expectativa grande ao redor do que é produzido, e o nível de eficácia cobrado começa a crescer, haja visto que os parâmetros se remodelam e passam a ganhar força e rigidez. No entanto, é preciso pontuar que nem sempre um filme tem que ser equiparado a outros na mesma linha de observação e de cobrança. Quando um trabalho é produzido, ele já se lança com uma determinada atmosfera por trás, dando a entender qual o público, a perspectiva desenvolvida pela equipe, e qual o caminho que vai ou não ser seguido ao longo da montagem da obra, o que serve, e muito, como critério e avaliação em uma boa crítica.

Dito isso, vamos ao ponto real. Fala Sério Mãe chega ao mercado como uma incrível proposta de compartilhar, de algum modo, uma história cujo o centro da narrativa se desenrola tendo como base a relação de uma mãe e de sua filha. Ainda que o livro não seja muito complexo ao longo de sua escrita, e que o enredo seja por si só demasiadamente raso, o que a produção fez foi ratificar massivamente um apanhado de esteriótipos, perspectivas generalizadas, e noções do senso comum, com o intuito único e objetivo de se infiltrar no imaginário das mães e filha do Brasil de um jeito onde em quase todos os lares, sobretudo no da família média, ele pudesse ser bem quisto.

Há um bom tempo que algumas figuras do audiovisual brasileiro entenderam que o formato cômico, de apelo levemente sentimental (sobretudo no final), associado ao desenvolvimento de uma história familiar, sem grande precisão de detalhes, e carregada de repetições e de figuras generalizadas, tem feito sucesso no cinema. Não é nenhuma surpresa que os filmes tendam, ao menos em uma determinada linha de produção, a ser produzidos com algumas dessas similaridades, contudo, a desonestidade da produtividade intelectual, associada a uma história superficial, sem grandes delongas, e completamente repetitiva não tem de ser aplaudida nem mesmo entendida como um sinônimo de êxito, independentemente da produção por trás desse processo, e/ou dos valores angariados pela bilheteria, e parece bem chocante que existam valores significativos sendo dedicados a esse tipo de projeto.

A fotografia do filme não salva a obra, haja visto que a narrativa foi promovida em ambientes simplórios, e os recursos aproveitados garantiram no máximo uma imagem de boa qualidade, mas nada muito além disso. A trilha sonora contou com uma canção própria, cantada pela atriz Larissa Manuela, que conseguiu se provar muito mais eficaz enquanto cantora do que como atriz necessariamente, sobretudo pela personagem mal desenvolvida, rasa, e quase produzida artificialmente. Ingrid Guimarães, por sua vez, deu o que foi lhe permitido dar. Tendo como base o desenvolvimento cômico forçoso que a obra toma, a atriz fez tudo dentro dos limites pra entregar uma personagem relativamente intensa, mais pelos seus dramas vividos individualmente, como o divórcio que teve de lidar e o intercâmbio da filha, do que necessariamente pelo contexto todo.

Enquanto crítico e brasileiro, é de fato muito entristecedor ter de lidar de forma tão severa com uma análise, mas investimentos consideráveis foram deslocados para esse projeto, que não passará de nada além de mais um filme para o grupo tão bem selecionado dos trabalhos construídos artificialmente para satisfação do público médio brasileiro, e que desconsideram que muito além de um emaranhado de indivíduos, o brasileiro é também individualmente existente, e ele tende a se sentir satisfeito também com um pouco mais de veracidade e de personalidade por trás de uma obra.

Sinopse: De origem humilde e desde a infância sonhando com um mundo mágico, P.T. Barnum (Hugh Jackman) desafia as barreiras sociais se casando com a filha do patrão do pai e dá o pontapé inicial na realização de seu maior desejo abrindo uma espécie de museu de curiosidades. O empreendimento fracassa, mas ele logo vislumbra uma ousada saída: produzir um grande show estrelado por freaks, fraudes, bizarrices e rejeitados de todos os tipos.

Musicais tem a capacidade consideravelmente pontual de nos transportar para uma perspectiva mais lúdica de mundo, onde todas as questões que são evidenciadas ganham um caráter mais vivaz, com envolvimento rítmico e potencial alastrador. Em O Rei do Show, esse poder dos musicas foi bem explorado, conduzindo o telespectador ao simbólico circense desenvolvido no trabalho.

Se por um lado a capacidade de elevar o telespectador a um estado considerável de envolvimento é algo plausível nesse gênero, por outro é necessário evidenciar que piruetas, vozes estridentes, passos demarcados e todo o glamour por trás desse processo acabam construindo também uma atmosfera de idealização, fantasia, e as vezes, demasiadamente, romance.

Em O Rei do Show, Hugh Jackman entregou um personagem bem conciso, com força o suficiente para conquistar todos os espaços amplos a ele condizentes, e dotado de humanidade, o que não significa necessariamente bondade, e isso é algo que deve ser ovacionado.

Ao tratar de uma temática deveras complicada, abordando a estruturação de uma noção burlesca dos freak shows, que basicamente eram circos com pessoas que eram marginalizadas socialmente, tanto pela sua condição na estrutura social quanto por deformidades físicas e problemas que as incapacitavam de se “enquadrar” dentro dos padrões aceitos, o filme poderia ter tomado rumos de romantização de uma vida dura, entregando um mundo idealizado com personagens construídos sob um pretexto incoerente de “busca da felicidade”, e “completa satisfação pela condição”, contudo, ao decorrer da narrativa O Rei do Show se mostra forte por não só evidenciar as problemáticas de uma vida reclusa, mas também por construir a perspectiva da aceitação de um jeito sólido, atrelada as tragédias e casualidades negativas que tendem a se desenvolver ao longo de qualquer vida humana.

Alguns personagens não foram tão demarcados, como por exemplo a contorcionista interpretada por Zendaya, contudo, a atriz conseguiu evidenciar uma presença de cena tão significativa, que inevitavelmente os holofotes se voltam para ela em diversos momentos, o que termina por conferir mais vivacidade a sua persona.

A trilha sonora foi muitíssimo bem elaborada, e não seria de se espantar se acaso “This is me”, faixa que promove um brinde a auto aceitação e ao amor próprio, fosse naturalmente indicada por melhor canção original no tão almejado Oscar.

Além disso, a fotografia foi bem trabalhada, e todo o envolvimento promovido pelo lúdico foi explorado com maestria, ainda que a atmosfera as vezes se mostrasse muito vibrante, quando poderia ter tido tons mais soturnos, sobretudo diante das cenas que se propuseram a trazer o sentimento de recusa que é vivenciado pelos personagens.

Dito isso, é preciso pontuar que O Rei do Show foi uma surpresa agradável, e que contando com uma boa direção e com a atuação de nomes como Hugh Jackman, e o tão conhecido astral de musicais, Zac Efron, o filme conseguiu alcançar um destaque notável.

Sinopse: Uma história de amor que começou em sonho, literalmente. Numa dualidade entre o dormir e o acordar, dois indivíduos que não se conhecem têm sonhos exatamente iguais, e acabam se encontrando diariamente todas as noites nesse mundo paralelo de fantasia. Quando chega a hora de lidarem com a realidade, as coisas se mostram ainda mais complexas.

Escolhido como representante da Hungria pela corrida de melhor filme estrangeiro do Oscar, Corpo e Alma é dirigido por Ildikó Enyedi, diretora de cerca de oito filmes, nenhum deles com tanto destaque como o mais atual, que foi vencedor do urso de ouro, importante premiação que se dá no célebre Festival Internacional de Berlim.

A trama se desenvolve ao redor da problemática Mária, uma jovem mulher, inspetora de qualidade de um frigorífico, com indicativos evidentes de traumas em sua personalidade, que são evidenciados com maestria pela interpretação da atriz Alexandra Borbély. Tendo como base inúmeros elementos simbolistas, o filme desenvolve seu enredo em plano real, contudo, é no universo onírico vivenciado pela personagem, e assim como ela descobre posteriormente, por Endre, chefe da mesma na empresa na qual trabalha, que certos pontos da trama são de fato explorados.

Através dos múltiplos encontros que se dão ao longo da narrativa, seja no plano físico ou no plano onírico, é evidenciado a todo momento a dificuldade de Mária em estabelecer relacionamentos concretos e até mesmo simples com as pessoas que a cercam. Introspectiva, de caráter distanciado, com apelo antissocial evidente, e com um árduo problema de comunicação, a personagem parece promover continuamente uma caminhada isolada, até que pouco a pouco se estabelece uma proximidade entre ela e o seu chefe, que se dá justamente decorrente dos encontros que se dão em seus respectivos sonhos.

Os sonhos, por sinal, funcionam como um excelente elemento simbólico, haja visto que nos encontros ele está animalizado junto com ela, ambos em formato de cervos. Na opção pela animalização dos personagens, o roteiro corre o risco de ser mau interpretado, contudo, a execução das aparições e da forma que elas se dão é muito bem conduzida, o que acaba promovendo um resultado pontual, gerando a percepção de um contexto que fica melhor evidenciado, sobretudo porque a logística da disparidade de gênero parece que ganha um caráter mais contundente diante dessa perspectiva.

O grande problema do filme é a ideia de estender o roteiro, que ainda que promova algumas cenas interessantes e que servem pra fomentar de um jeito mais eficaz a psiquê da personagem, termina por gerar uma história mais longa, demasiadamente arrastada, e que no início parece ser forçosamente entediante. Naturalmente que qualquer telespectador que continue atento ao filme termine por perceber que o culminar da obra toma rumos inesperados, e acaba surpreendendo até mesmo aos mais ávidos dos observadores.

A fotografia é simples, com tons que se conversam em uma escala de branco com pastel, e que vez ou outra são submetidos a um choque de vermelho intenso, que inclusive é muito bem aplicado para construir uma percepção de intensidade, e fragilidade. A trilha sonora, por sua vez, é bem aplicada, e é continuamente utilizada como uma ferramenta não só de imersão da percepção da atmosfera fictícia, mas também tem valor evidenciado ao longo do universo fílmico.

Dito isso, Corpo e Alma se prova um filme surpreendente, que parece quase morto até o momento em que se debate e grita com o público. Uma trama pessoal, galgada em valores de uma psiquê problemática, e com um potencial enorme de mesclar elementos simbólicos com a realidade. Aguardo sinceramente por mais filmes de Ildikó Enyedi, e recomendo a todos vocês o contato com esse trabalho.

 

 

Sinopse: Após encontrar o mítico e recluso Luke Skywalker (Mark Hammil) em uma ilha isolada, a jovem Rey (Daisy Ridley) busca entender o balanço da Força a partir dos ensinamentos do mestre jedi. Paralelamente, o Primeiro Império de Kylo Ren (Adam Driver) se reorganiza para enfrentar a Aliança Rebelde.

Com cenas memoráveis, um retorno evidentemente eficaz a perspectiva de outros personagens, e com uma atmosfera moderna por trás da construção, Star Wars – Os últimos Jedi, se mostra uma obra equivalente ao esperado, ainda que a pontualidade talvez tenha sido uma percepção escassa na concepção do diretor, Rian Johnson.

Quando se propõe ao trato e desenvolvimento de um trabalho abertamente adorado, com um número gigantesco de filmes já produzidos, e com uma história célebre bem demarcada, um diretor compreende que realizar uma boa direção é ter a sensibilidade de perceber o valor dos elementos antigos, ao mesmo tempo em que introduz a sua própria percepção e sua marca. Nesse aspecto, Rian Johnson se provou eficaz, por construir e desenvolver um universo que foi respeitoso, e fidedigno aos outros filmes, mas ainda assim floreando-o com novas personagens, novas dimensões desse espaço, e com o nascimento de novas histórias. Analisando por essa via, a originalidade do diretor não foi em momento algum de oposição ao que foi contado anteriormente, ainda que as novas personas que surgiram ao longo da trama, corroboraram pra compreensões diferenciadas daquele mesmo universo, através da reestruturação da balança de poder, e dos dilemas e contendas ao longo da trama.

Com uma trama onde os personagens principais acabaram por ser, inquestionavelmente, Princesa Leia e Luke Skywalker,  a história acaba pecando por muitas vezes recorrer a esse retorno do imaginário coletivo, se valendo de nostalgia como ferramenta de força para o envolvimento. Se baseando numa logística que postergou o filme, e que culminou com uma película que no final chegou a quase 3 horas, o tempo teve que ser tão estendido para que fosse permissivo a esse passeio entre o universo presente e passado, que ainda que estivessem juntos em um aspecto espacial, apresentavam rupturas de perspectiva, uma vez que diante de vários momentos, foi apresentado ao telespectador determinadas referências, alegorias, e cenas, que se voltavam totalmente aos outros filmes, e que serviam mais para coroar os antigos personagens, do que necessariamente para o desenrolar da trama.

Além disso, o roteiro deixou a desejar em alguns aspectos, como por exemplo no completo descaso que foi feito com um vilão que parecia ter potencial, e não só isso, que foi super valorizado pelo próprio filme. Lorde Snoke foi mal aproveitado, e sua existência foi tratada como um mero acontecido, haja visto que o filme não se deu ao trabalho de nos revelar sua história, ou de desenvolver melhor o que levaria a morte da personagem. Ficou claro que a presença dele em si, foi gerada para justificar um crescimento do personagem Kylo Ren, contudo, foi falha a forma como isso foi realizada, trazendo uma espécie de vazio na narrativa, culminando numa sensação de dúvida na cabeça do telespectador. Somado a esse problema, estava a ausência de explicações para alguns personagens e para suas criações. Surge ao longo da trama um arco amoroso entre o personagem Finn e uma outra figura, Rose. Esse arco não foi bem construído, e não apresentou qualquer sinais de que estava sendo trabalhado, de tal modo que só foi devidamente compreendido que ele estava acontecendo quando os personagens subitamente se beijaram.

Foi também um incômodo a forma como foi trabalhada Kylo Ren, que estranhamente se estabeleceu como a grande força de oposição, como o grande antagonista, mas que ainda assim era completamente dotado de inseguranças, sem força para crescimento da personalidade, sem maior participação efetiva da sua história, apenas com a introdução forçosa de um “vilão”, que muitas vezes remetia mais a uma criança mimada descontrolada do que a um líder supremo em estágio de dominação do universo.

A direção foi ao meu ver, eficaz, haja visto que grande parte desses problemas nascem mais numa falha de roteiro, do que de qualquer outra parte. As interpretações foram positivas, e a entrega de personagens por partes dos atores foi em sua maioria muito boa. A fotografia foi fenomenal, e muito me maravilha a oportunidade de falar sobre isso, porque esse sem sombra de dúvidas foi um ponto alto do filme, que foi evidenciado em cenas mais internas, como na que coincide em um momento conflituoso entre Ray  e Kylo, e também em momentos mais abertos, quando a muito bem trabalhada Vice-Almirante Holdo toma uma decisão surpreendente. Ademais, a trilha sonora também se provou pontual, corroborando pra percepção do universo e das situações desenvolvidas ao longo da obra.

Dito isso, gostaria de evidenciar que não foi a mim desagradável a experiência, e indicaria sem sombra de dúvidas a inúmeras pessoas esse filme. Contudo, enquanto crítico e profissional que está diretamente ligado ao cinema, encontrei e evidenciei algumas falhas como pode ser visto acima, mas isso ao meu ver, são detalhes que precisam ser considerados a nível particular, que terminam por interferir na percepção alheia da obra, mas que ainda assim não são suficientemente relevantes para ceifar o trabalho, ou reduzir o valor do filme. Espero que todos se deliciem com Star Wars – Os últimos Jedi, que promete trazer bastante alegria pros corações nostálgicos dos fãs, e pro público novo da saga.

Sinopse: Lucy (Ksenia Solo) completa 20 anos como uma jovem extremamente tímida, grudada na mãe (Maria Bello), que pouco sai de casa e dedica a maior parte do tempo a rever clássicos do diretor Federico Fellini. A grande oportunidade de sair do mundo da fantasia em que sempre viveu se dá numa viagem de autodescoberta à Itália, onde ela visita cenários de seus filmes favoritos e descobre o amor.

Dirigido por Taron Lexton, e com estréia pro dia 07/12 no Brasil, a obra se propõe a apontar uma jornada de auto descoberta da personagem Lucy, tendo como base o imaginário vasto dos trabalhos do grande diretor Francisco Fellini. Reducionista, o roteiro não só se infla de concepções forçosas pra favorecer o desenrolar da trama, como também se sente confortável com a retirada indevida do real valor do trabalho de Fellini, afastando a grandiosidade do cinema italiano do seu âmago, e aproximando-o de uma realidade de simbolismo e mistério, que parece uma mistura mal elaborada entre o universo de Tim Burton com a atmosfera onírica do filme Amor Além da Vida, com Robin Williams.

A premissa básica considera Lucy como uma personagem demasiadamente resguardada, mas na tentativa de criar essa identidade de uma pessoa que foi super protegida, a direção leva-a para caminhos muito convencionais, e a menina absolve um espectro de ingenuidade que chega a ser fantasioso e idiota. Não que no mundo real não existam pessoas que tenham sido super protegidas, mas numa instância mais realística, a trama deveria ser mais pontual com a própria consideração da inteligência da personagem, que baseado no que ela mesmo desenvolve ao longo do filme, teria sido considerada como suficientemente capaz de ser algo além de infantil e inocente.

O roteiro não correlaciona um olhar negativo/doutrinador na criação da adolescente, no entanto, a sensação mais recorrente é que ela não foi só bem cuidada, como também castrada no sentido de liberdade. Tudo se desenvolve no cerco de suas experimentações individuais, e a partir de um encantamento com o cinema de Felline, e uma emancipação tardia, que a garota se joga em rumo a sua jornada.

A construção narrativa fílmica é fraca, e isso é decepcionante, contudo, a execução de algumas cenas é muito satisfatória, o problema é que o telespectador se vê duvidoso quanto a necessidade da mesma, e da correlação entre ela e o resto do filme. Além disso, existe uma introdução de diálogo que não acompanha muitas vezes o rumo que a sentimentalidade toma ao longo da obra, o que corrobora para que pareça que sempre existe a sobreposição da perspectiva fortemente abalada emocionalmente, mesmo que ela não caiba ali necessariamente.

A trilha sonora é um ponto muito positivo, e isso é completamente evidente, porque é conferido justamente ao som o papel de induzir a essa percepção onírica e de auto descoberta que é tão almejada pelo diretor. A fotografia falha quando comparada a proposta originária do trabalho, mas isoladamente ela é eficaz, na medida em que oscila de acordo com as experimentações vivenciadas pela personagem.

A proposta toma rumos entristecedores na corrida final, quando a personagem começa a se portar de um modo mais condizente com sua realidade e com sua vida, depois que passar por uma experiência de abuso, o que promoveu uma correlação lógica horrível, porque associou o único arco de crescimento a uma atitude empobrecedora e violenta.

Dito isso, o filme parece um rumo direto a possibilidade, a uma quase vida adulta, em um mundo que quase homenageia Fellini, com um roteiro quase suficiente. Se você é apaixonado por cinema e gosta de ser permissivo com as experimentações, super recomendo, mas se pra você um filme tem que ser muito maior que um “quase”, pra valer a pena, então é melhor ficar em casa e baixar os filmes de Fellini, garanto que são mais eficazes.

 

Com estréia marcada para o dia 15/11/2018, Animais Fantásticos e onde habitam: Os Crimes de Grindelwald, gerou grande polêmica desde o lançamento do teaser de divulgação, decorrente da escolhar do ator Johnny Depp para fazer o papel do bruxo Grindelwal. Confira o teaser abaixo:

Depp estava sendo amplamente criticado em diversos veículos depois que foi acusado publicamente de agressão pela sua ex-mulher Amber Heard, e um grande número de fãs, que haviam prometido boicotar o filme, estavam pressionando J.K Rowlling por uma declaração, mas até então a autora da franquia de livros não havia dito nada. Contudo, no dia de hoje 07/12/2017, a mesma disponibilizou no seu site a seguinte opinião, que foi traduzida na íntegra aqui abaixo:

“Quando Johnny Depp foi selecionado como Grindwald, eu pensei que ele seria incrível nesse papel. No entanto, durante o período das filmagens da aparição dele no primeiro filme, algumas histórias surgiram na imprensa que preocuparam profundamente a mim e a praticamente a todos mais intimamente envolvidos na franquia. 

Os fãs de Harry Potter tem questões e preocupações legítimas sobre nossa escolha de continuar com Johnny Depp no papel. Como disse o diretor David Yates, nós naturalmente consideramos a possibilidade de refazer o teste de atores. Eu entendo porque algumas pessoas tem estado confusas e irritadas porque isso não aconteceu. 

A gigantesca, mutuamente apoiadora comunidade que tem crescido ao redor de Harry Potter é uma das maiores alegrias da minha vida. Para mim, pessoalmente, a impossibilidade de falar abertamente aos fãs sobre essa questão tem sido difícil, frustrante e algumas vezes dolorosa. No entanto, os acordos que foram selados para proteger a privacidade das duas pessoas, sendo que ambas expressaram seus desejos de seguir com suas vidas, devem ser respeitados. Baseado no entendimento das circunstâncias, os realizadores do filme e eu, não só estamos confortáveis mantendo nosso elenco original, como também estamos genuinamente felizes por ter Johnny interpretando um papel de destaque nos filmes. 

Eu tenho amado escrever os dois primeiros roteiros, e não posso esperar para que os fãs vejam ‘Os Crimes de Grindelwald’. Eu aceito que existirão aqueles que não vão se sentir satisfeitos com nossas escolha de ator para o personagem principal. Contudo, consciência não é algo governável por um grupo. Dentro do mundo real ou do fictício, todos nós temos que fazer o que acreditamos ser a coisa certa.”

Bem, como é possível ler acima, a autora evidenciou sua satisfação com a escolha do ator. Quanto a nós, só nos resta agora ponderar nossos posicionamentos diante disso, e assistir (ou não, se for o caso), ao mais novo trabalho que está por vir. O cinerama se exime de pontuar concordância ou discordância diante da declaração, cumprindo exclusivamente com seu papel enquanto veículo informativo.

Sinopse: Auggie Pullman (Jacob Tremblay) é um garoto que nasceu com uma deformação facial, o que fez com que passasse por 27 cirurgias plásticas. Aos 10 anos, ele pela primeira vez frequentará uma escola regular, como qualquer outra criança. Lá, precisa lidar com a sensação constante de ser sempre observado e avaliado por todos à sua volta.

Antes de começar a florear a minha perspectiva sobre o filme, serei objetivamente crítico de cara com uma questão que me incomodou muito: Ainda que o jovem Jacob Tramblay tenha feito um trabalho de excelência, nos envolvendo e nos aproximando da perspectiva de uma pessoa que tenha de fato nascido com um problema, qual foi o motivo pelo qual as produtoras envolvidas no processo de desenvolvimento do filme não trabalharam de fato com alguém que estivesse vivenciando essa situação, que tivesse nascido com a Síndrome de Treacher Collins? Por que Hollywood adora nos expor grandes dramas sobre pessoas com dificuldades físicas, mentais, e questões realísticas mas na hora da elaboração desses trabalhos sempre opta por atores e atrizes que não experimentaram nem nunca vão experimentar a veracidade daquele problema?

Bem, algumas semanas atrás me deparei com o vídeo de uma comediante americana que é vítima de paralisia cerebral, e basicamente, na palestra que ela promovia na importante plataforma TED TALK, uma das coisas que ela se queixava, era de não ter sido chamada para uma peça que falava sobre a vida de uma garota que tinha exatamente o mesmo problema que ela. Indignada com isso ela foi reclamar ao diretor da peça, e ele a respondeu que não a chamaram porque ela poderia não conseguir fazer as acrobacias que a personagem fazia. Com senso de humor e uma pitada de ironia, ela respondeu: “Mas se eu não consigo, então obviamente a personagem também não consegue!”
Bem, basicamente isso é um apelo por uma realidade mais inclusiva, que considere e respeite as limitações alheias, mas que não opte pela exclusão como forma de resolução. Fazer um filme sobre aceitações e sobre respeito as capacidades potenciais do outro é incrível, mas executar na prática esses valores seria ainda melhor.

Confira o Trailer do filme:

Com lançamento para o dia 07/12/2017, Extraordinário é uma adaptação do célebre livro, de mesmo nome, da escritora R.J. Palacio. A história gira em torno da vida do jovem Auggie Pullman, portador da Síndrome de Treacher Collins, que apesar de não ter sido apontada no livro, foi depois confirmada pela autora, que disse ter se inspirado nas pessoas portadoras do problema.

Dirigido por Stephen Chbosky, mesmo diretor de As Vantagens de ser Invisível, o mais novo trabalho se mostra completamente eficaz. Tomando como base um livro que já era dotado de sentimentalidade, Chbosky soube utilizar os recursos da narrativa cinematográfica pra fomentar uma ligação empática inquestionável entre o público e o personagem, e ele recorre a uma ambiguidade muito bem aplicada, que se baseia nesse contraste iminente entre a sutileza e a brutalidade.

Brutal, sobretudo, porque a história é por si só condicionada a uma realidade cruel, e o mundo fílmico em questão nos remete o tempo todo a isso, através das experimentações cotidianas do personagem, que naturalmente se mostram não só desafiadoras, como também pesadas. Sendo um garoto, portador de uma deformidade tão significativa e comprometedora a nível de interação e sociabilidade (haja visto a falta de tato das pessoas para lidar com a diferença), o filme poderia ter tomado rumos pesados, até mesmo culminando numa história fatídica, voltada para a inconformidade e para os aspectos mais exclusivos da humanidade, contudo, a direção foi tão bem conduzida que a introdução do universo infantil foi suave, e esses problemas tão gritantes foram pouco a pouco apaziguados tanto pela personalidade marcante da personagem, incrivelmente interpretada pelo talentoso Jacob Tramblay, como pelos elementos simbólicos do imaginário infantil, que perpassaram diante dos nossos olhos através de mil formas, como do astronauta que dava passos astronômicos de leveza pelo corredor, ou o Chewbacca, que diga-se de passagem foi um golpe baixíssimo com um público que viveu Star Wars.

O filme foi cheio de pontos altos, e as interpretações foram, inquestionavelmente, um dos grandes destaques desse trabalho. Não houveram fraquezas quanto a isso, porque desde as crianças até os já conhecidos Julia Roberts e Owen Wilson, os personagem dados foram completamente explorados, extraindo o que havia de mais essencial e humano dentro de cada um deles.

Assim como no livro, o filme contava com um formato que era permissivo com uma espécie de “protagonismo momentâneo”, onde as personagens tinham pedaços de suas vidas e histórias priorizadas, no intuito de correlacionar aquelas pessoas ao jovem Auggie, o que serviu não só pra ser mais abrangente com o cerco individual, mas também pra fomentar que a vida do jovem menino não era por si só um ponto que se delimitava, mas incluía e afetava, direta e indiretamente, a existência de todas aquelas outras pessoas.

Um ponto negativo, é que na recorrência constante a inúmeros elementos simbólicos emocionais, o filme termina por sufocar o enredo, gerando uma atmosfera de doçura, de superação, de esperança e eu ousaria até dizer, de desrespeito.  Antes de escrever essa crítica, busquei sites especializados americanos que estivessem falando do filme, e algo que me deparei com constância foram críticas de pessoas que realmente tem problemas de deformidade, e que se sentiram um tanto quanto “apagadas” com o filme. Uma das recorrências que me deparei foi justamente com o ponto da maquiagem. Tomei a liberdade de traduzir alguns tweets de uma mulher chamada Mike Moddy, e gostaria que vocês lessem:
“Meu rosto não leva horas toda manhã para ser colado, e eu não posso remover isso no final do dia.”
“Eu não existo?”
“Eu não consigo enfatizar isso suficientemente. Isso é traumático, quando 99% das pessoas desfiguradas na tela estão usando maquiagem.”
“Me deixa muito muito muito triste ver o Jacob Tramblay nessa máscara. Faz parecer que meu rosto é uma fantasia.”
“Imagina que resultado eles poderiam ter alcançado se tivessem contratado pessoas realmente desfiguradas pra consultar.”

Não é sobre necessidade de divulgação, é sobre representatividade. Crianças que assim como a personagem nasceram com o problema deveriam ter o direito de se enxergar diante das telas, e esse não seria um favor feito por Hollywood, mas uma obrigação. Precisamos repensar as políticas inclusivas, ou filmes como esse jamais passarão de um universo hipotético de esperança e luminosidade para pessoas que não vivem nem nunca viveram os problemas realísticos de nascer com uma deformidade.

Dito isso, é inegável que o filme foi dirigido com maestria, e que os elementos fílmicos tão bem retratados vão fazer com que o público se debande em lágrimas, numa espécie de êxtase por esse trabalho que é uma ode a superação, e que por isso ele deve ser assistido por inúmeras pessoas ao longo de todo o período em que se mantiver em cartaz. Contudo, quero trazer a reflexão sobre o nosso real comprometimento para a criação de um mundo mais inclusivo, e não somente de faz de contas.

Sinopse:O legado do assassino Jigsaw continua a atormentar a vida das pessoas. Corpos começam a aparecer por toda a cidade, cada um desenhado com as mais horrendas das mortes. Todas as investigações apontam na mesma direção mas ninguém quer ousar dizer o nome do homicida falecido.

Depois de 7 anos do lançamento do último filme, estreou no dia 30 de Novembro o oitavo filme da franquia Jogos Mortais, considerada a terceira mais lucrativa série de filmes de terror da história, atrás somente de Invocação do Mal, e Alien respectivamente.

Com direção de Michael e Peter Spierig, esse mais recente filme começa como uma referência saudosista a Jogos Mortais – O final, não só pela estética característica de terror slasher, que se resume basicamente na prerrogativa de um assassino em série com máscara, mas também pela implementação do grande questionamento inicial do filme, que se propõe a indagar, decorrente do aparecimento de uma série de assassinatos, se o serial killer John Kramer está de fato vivo, ou se existe algum fã obcecado dele reproduzindo o que teria sido o seu “trabalho”.

Não fosse a repetitividade tão corriqueira da série, o filme teria melhor se desenvolvido, porque ainda que seja perceptível a continuidade desse estilo, o roteiro nesse novo trabalho se mostrou um tanto quanto inovador, não ao longo do desenrolar da obra, mas sobretudo pelo caminho revelador que as coisas tomam, elaborando não somente um bom enredo, mas quebrando de forma coerente toda uma linearidade temporal tão comumente associada na cabeça do telespectador. Além disso, a paleta de cores também é mais permissiva com certas mudanças, o que é bem diferente dos outros filmes da franquia. Aqui, aquele azul constante que reafirmava a ideia do local enclausurado, criando um ambiente sufocante pras vítimas que eram assassinadas com armadilhas mirabolantes e com métodos bem gore, acaba ganhando um contexto mais liberto, e é possível ver cenas que conservam tons mais abertos, envolvendo lugares mais amplos e sem aquele tom de claustrofobia constante o tempo todo.

Um dos grandes problemas da obra, é que ainda que seja introduzida uma quebra de linearidade que deve ser pontuada como inovadora, com isso, os diretores acabaram sementando uma espécie de continuidade, promovendo a volta do que não seria viável para os telespectadores, que ainda que envolvidos pela série, esperavam uma reformulação mais elaborada da trama, ao invés de um retalho costurado para gerar uma espécie de seguimento.

As atuações são boas mas nada que mereça destaque, ainda mais que ao longo da trama, por mais que seja explorada a perspectiva de um personagem, o telespectador só se aproxima mais deles, de algum modo, pela existência de dramas e experimentações dolorosas de vida, que terminaram por corroborar por uma noção empática, mas não necessariamente produzem carisma nas personas.

Dito isso, é natural que Jogos Mortais – Jigsaw, vá agradar aos fãs da franquia pela evidente nostalgia que foi incorporada, contudo, teria sido bem mais interessante se o filme houvesse introduzido uma proposta de renovação e abertura desse universo tão restrito e delimitado.

Sinopse: O detetive Hercule Poirot está a bordo do Expresso do Oriente quando um passageiro é encontrado morto. Amplamente desprezada, a vítima tinha muitos inimigos, e Poirot tem que peneirar um grupo excêntrico de suspeitos para encontrar o assassino.

Estreando no Brasil no dia de hoje (30/11/2017), o novo trabalho do diretor e protagonista Kenneth Branagh, é uma adaptação do clássico livro de Agatha Christie, uma das mais célebres escritoras do gênero policial já vista. Ainda que normalmente seja extremamente complicado para um filme conseguir captar com eficiência toda a atmosfera construída em um livro, em O Assassinato no Expresso do Oriente, o trabalho foi desenvolvido de forma minuciosa e eficaz, corroborando pro desenrolar de uma ótima obra.

Com uma duração de 01h 54m (uma hora e cinquenta e quatro minutos), o novo filme de Kenneth Branagh se mostra completamente pontual na trama, introduzindo os personagens de um jeito cativante, mas mantendo o distanciamento característico da personalidade de cada um deles, o que foi também mérito do vasto elenco, que contou com atores célebres como Judi Dench, Michelle Pfeiffer, Willem Dafoe, Johnny Depp, além do próprio diretor, que conseguiu promover uma entrega incrível na sua interpretação do Hercule Poirot.

O filme é cativante, e isso se dá pela forma em que a atmosfera de suspense foi trabalhada, bebendo de uma estética quase caricatural e que lembrava muito a de A Invenção de Hugo Cabret (2012), do adorado Martin Scorsese. Além disso, a montagem, a escolha progressiva da forma de introduzir os personagens, e as dinâmicas passadas no meio do trem, foram tão bem costuradas pelo diretor, que o tempo passa despercebido, e o telespectador sai da sala com um gosto de quero mais, se perguntando do porquê de ter acabado.

Outro mérito do filme é o figurino. Associado com uma direção de arte excelente, que recriou o luxuoso trem que sai de Istambul, o apelo visual gerado pela opulência tanto do espaço quanto da caracterização das personagens foi estonteante. É de tal modo eficaz que nasce no público o receio de virar para o lado e perder alguma parte da exuberância trazida na tela.
A câmera, por sua vez, passeia magistralmente entre os atores, e as escolhas tão inovadoras de ângulos e planos conferiram um semblante mais moderno a uma obra tão clássica,  e isso é perceptível em inúmeras cenas, desde o ponto onde um ângulo conta-plongée é utilizado, captando a imagem de um diálogo de cima, até o plano subjetivo introduzido na perspectiva de Poirot, quando o mesmo caminha pelo vagão enquanto se dirige aos personagens.

Dito isso, é preciso pontuar também que a nova adaptação acabou explorando recursos bem mais dinâmicos, e com isso terminou por ceifar alguns diálogos mais densos que podem ser encontrados no livro, contudo, associado a todos os outros detalhes que foram adicionados, essa dinamicidade corroborou pra maior proximidade de um clássico a um universo mais moderno, fazendo com que O Assassinato no Expresso do Oriente fosse sementada como uma obra elegante, eficaz, e digna de recomendações!

"O cinema é um modo divino de contar a vida"
Federico Fellini

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