Autor: Vagner Amaral

Poucas bandas na história da música tiveram a excelência de marcar toda uma geração, ditando comportamento dos jovens e servindo de trilha sonora para os dramas da juventude da época. Tudo isso parece uma tarefa difícil para uma banda mesmo com muitos anos de carreira, não é? E o que me diz de alcançar tal proeza em apenas 3 anos? Impossível? Não para os irmãos Gallagher.

Com direção de Mat Whitecross, “Oasis : Supersonic “ talvez seja o retrato definitivo de uma das maiores bandas já produzidas pela terra da rainha, cuja ascensão meteórica marcou não só a história da música britânica , mas da música mundial .

 

Oasis at Knebworth
TAKEN FROM INTERNET
http://www.intheflesh.it/musica/alive-and-kicking-un-live-segna-la-storia-part-1/3/

O documentário foca nos primeiros anos (e os melhores, por sinal) da banda originária de Manchester (cidade que já nos presenteou com bandas como New Order, Stone Roses e Joy Division), acompanhando seus primeiros passos como banda de garagem que anos depois estaria tocando duas noites para 125 mil pessoas no lendário vilarejo de Knebworth (local que já recebeu shows históricos de bandas como Queen e Led Zeppelin ) .

Com um tom cómico característico dos irmãos Liam e Noel Gallagher que, inclusive, comentam as cenas do documentário, “Oasis: Supersonic” é um apanhado de imagens e áudios raros dos anos de início da banda e traz um prato cheio para os fãs que podem ver os desafios e desenvolvimento de uma banda que parece ter sido predestinada ao sucesso.  O relacionamento conturbado dos irmãos é deixado meio de lado, assim como a rivalidade da banda com os garotos de Londres da banda Blur, deixando espaço para traçar o perfil dos irmãos e mostrar o impacto da banda na mídia e sociedade da época. Um impacto que se fazia necessário diante da carência dos jovens que precisavam de uma nova banda que ditasse comportamento, estilo etc.

De Manchester para o mundo, “ Oasis: Supersonic” é uma ótima escolha para todos os amantes da música e, mais do que isso, é uma obrigação para os fãs da banda que imortalizou tantos hinos como “ Wonderwall” , “ Live Forever “, “ Don’t Look Back in Anger “ e “Champagne Supernova “ e que serve de influência para diversas bandas que temos hoje em dia.

Oasis: Supersonic (2016)
País: EUA | Classificação: 12 anos | Estreia: 26 de Outubro de 2016 | Duração: 2h02min
Direção: Mat Whitecross
Elenco: Noel Gallagher, Liam Gallagher, Peggy Gallagher, Paul Gallagher, Paul Arthurs (Bonehead), Tony McCarroll, Alan McGee, Paul McGuigan (Guigs)

 

 

 

The End of the F***ing World é a nova ( não tão nova assim) série da Netflix que promete ( e cumpre sua promessa) entreter o público, principalmente jovem, que busca um humor polêmico, ácido e cheio de irônia e sarcasmo.

A série segue James, jovem que acredita ser um psicopata e apresenta bloqueios sociais enormes, inclusive com sua família que se resume à apenas seu pai. Sua identidade na série se torna ainda mais singular quando conhece Alyssa, garota de 17 anos com uma personalidade marcante e provocativa que também mostra dificuldades enormes em se encaixar nos padrões sociais.

Em um encontro espontâneo característico da excentricidade dos dois personagens, os jovens acabam formando um casal que desafia os paradigmas da vida em sociedade, que acaba culminando na fuga dos dois em busca de liberdade e descobertas.

A série consegue trabalhar muito bem as características dos personagens principais, que durante a viagem vão explorando e descobrindo importantes pontos de suas personalidades diante das situações que lhes aparecem. Situações essas que beiram extremos como assassinatos, estupros etc. Em alguns momentos podemos ouvir os pensamentos dos personagens, o que confere uma pessoalidade muito maior na narrativa.

As atuações dos jovens atores Alex Lawther e Jessica Barden são sensacionais, a ponto de criar no espetador uma preocupação com os personagens, ao mesmo tempo em que desaprovamos suas ações. Combinada com uma trilha sonora que passeia por clássicos como Buzzcocks e Fleetwood Mac, The End of the F**ing World acerta em cheio em ser provocativa e super acessível ao público em geral.

Quase que explorando o Niilismo de Nietzsche, a primeira temporada de The End of the F***ing World trata de maneira cômica e irônica assuntos polêmicos e certamente merece ser vista.

Adolescência é a parte mais difícil da vida: Não sabemos quem somos, nem o que vamos ser. Não sabemos do que gostamos e muito menos do que não gostamos. Não sabemos o que é certo e o que é errado. É nessa complexidade que se desenvolve o filme “ Eu, Christiane F. – 13 anos, Drogada e Prostituída”. Na cidade de Berlim, nos anos 70, a adolescente Christiane (Natja Brunckhorst) é uma jovem comum que mora com a mãe e a irmã caçula. Ela sonha em conhecer a “Sound”, discoteca mais moderna e badalada do momento. Menor de idade, ela consegue entrar com a ajuda de uma amiga, conhece Detlev (Thomas Haustein) e começa a se aproximar das drogas. Primeiro álcool, depois maconha, calmantes, LSD, heroína. Imersa no submundo do vício, ela passa a prostituir-se.

É interessante notar o brilhante roteiro do filme, que desenvolve de maneira coesa as diversas fases da protagonista no mundo das drogas e prostituição. Motivada por uma paixão repentina, Cristiane F. começa apenas como uma inofensiva usuária de maconha, que rapidamente passa para o vício em cocaína, que leva ao vício em heroína, culminando catastroficamente na prostituição da garota para sustentar os diversos vícios próprios e do namorado.

Extremamente realista na sua abordagem, a obra definitivamente não é para todos os públicos. Somos inseridos numa Berlim Ocidental totalmente assolada pelas drogas e prostituição, e por isso, ver jovens se drogando em banheiros públicos e se prostituindo em estações de trem são cenários rotineiros na ambientação da trama. As manchetes de jornais mais parecem obituários, mostrando todos os dias novas notícias de pessoas mortas pelo consumo de drogas.

Principalmente no primeiro ato do filme, as referências ao lendário e falecido cantor e compositor David Bowie são várias, desde as roupas usadas pelas personagens, até cartazes colados nas paredes. Suas músicas embalam uma das cenas mais icônicas da projeção, além de fazer uma participação especial interpretando a si mesmo.

Não podemos deixar de destacar a brilhante atuação da jovem atriz Natja Brunckhorst. Observar sua deterioração física, que se reflete no olhar e na mudança de postura, é fascinante. Mesmo nas cenas mais difíceis, a jovem atriz consegue chocar com uma carga de realismo e entrega impressionantes, evidenciando as diversas facetas e dores de uma garota de 13 anos que se vê sozinha no mundo e encontra nas drogas uma maneira de mudar sua realidade.

“ Eu, Christiane F. – 13 anos, Drogada e Prostituída” se propõe em chocar e esfregar a realidade de maneira nua e crua na cara do espectador; E tem sucesso nessa proposta. São pouco mais de duas horas de uma história real que, mesmo depois de vários anos, continua sendo relevante e objeto de reflexões e debates.

4. O Gabinete do Dr.Caligari

É impossível assistir essa obra cinematográfica e não fazer certos paralelos
com a cultura Alemã: O Gabinete do Dr. Caligari trata de conflitos, figuras masculinas
poderosas, mães ausentes e desejos inalcançáveis. Como primeira ideia, a obra
pretendia ser uma crítica a autoridade, no entanto sua estética tortuosa que remete a
pesadelos, conseguiu criar um mundo de inquietação e desconforto que se relaciona
muito bem com a história contada. Tudo isso somado a atuação exagerada dos atores
usando maquiagens pesadas de grande impacto visual e, ao mesmo tempo, criando
uma fotografia deformadora, se juntam com uma narrativa que trata de sentimentos
destrutivos e a incansável luta contra a autoridade.
O enredo do filme acompanha o Dr.Caligari, um mestre da hipnose que chega
em uma pequena cidade do interior para se apresentar junto de seu assistente, Cesare.
Mediante suas técnicas de hipnose, Caligari consegue ordenar que Cesare faça
qualquer coisa. Na cidade começam a acontecer uma serie de crimes e, lógico, são
cometidos por Cesare sob estado de hipnose.
É importante analisar a obra não superficialmente, dando atenção aos crimes
e espetáculos executados pelo doutor Caligari e seu assistente, mas sim perceber a
forma genial com que o autor usa em sentido metafórico a hipnose para nos mostrar
que, mediante a artifícios que divertem o público, o dono do espetáculo hipnotiza não
só seu assistente, mas todo seu público. Se apoiando na máscara de alguém que
chega para mudar o modo de vida da pacata cidadezinha, o homem acaba iludindo
seus clientes, e aqui é que vemos o porquê esta obra, mesmo depois de tantos anos,
desperta a curiosidade de estudiosos a fim de entender como a Alemanha abraçou
o nazismo. O uso de técnicas psíquicas sob o comando de uma mente insana, pode
resultar no uso de tais práticas para fins antiéticos, imorais e egoísta, como é visto no
filme.
O Livro de Siegfried Kracauer, “ De Caligari a Hitler”, se apoiou na ideia desse
filme ser um presságio de um futuro sombrio e insano que a Alemanha viria a enfrentar,
um futuro onde o autoritarismo insano levaria a Alemanha à imortalidade nos livros de
guerras.

Esse marco cinematográfico do expressionismo alemão é, na visão de Kracauer,
marcado pela tentativa de investigar o inconsciente de um povo tentando reconsiderar
sua fé tradicional na autoridade. A metáfora do filme para com o câncer que ainda estava
em estado silencioso dentro do coração dos alemães é característica marcante desta
obra que prenunciava o futuro da Alemanha. Através de todas essas características, é
razoável pensar que “ O gabinete do doutor Caligari” parece ter como único objetivo,
fazer a Alemanha se acostumar com a autoridade, fazer com que o povo alemão abrace
a submissão diante de um líder.

4.1. Análise do cenário


O cenário de Caligari tem como único e exclusivo objetivo causar a inquietação
e o terror. A interpretação expressionista do filme teve êxito em evocar uma pequena
aldeia medieval, com passagens estreitas e casas arruinadas cujas paredes nunca
deixam a luz do sol penetrar. Sombras pesadas e janelas deformadas parecem destruir
a fachada e prenunciar um cenário pós-bélico. O Efeito de opressão é muito forte no
filme.
A respeito dos personagens, notamos que eles são perfeitamente adequados
aos preceitos expressionistas: o sonâmbulo, afastado de seu ambiente natural, afastado
de toda individualidade, criatura abstrata, mata sem motivo ou lógica, enquanto seu
mestre, o misterioso Dr.Caligari age com furiosa insensibilidade. 20 anos antes, a
situação de milhares de membros do Partido Nazista se fazia presente nas telas de
cinema da Alemanha através de “ O Gabinete do doutor Caligari” e o estado de espirito
de uma nação era revelado.

2. O Triunfo da Verdade

Entre os dias 30 de Agosto e 03 de Setembro de 1933, o Partido Nacional Socialista
dos Trabalhadores Alemães decidiu comemorar o 5º congresso, em Nuremberg na
Alemanha, que foi filmado pela famosa cineasta alemã Leni Riefenstahl. “ A vitória da
Fé” foi o primeiro documentário, totalmente produzido pelo Ministério de Propaganda,
e serviu como um teste para Leni, sendo que, logo depois, surgiram novos convites
para outros documentários, sendo o “ O Triunfo da Verdade “ o mais importante deles,
se tornando um dos mais famosos filmes de propaganda política da história.

O então ministro da cultura e propaganda, Paul Joseph Goebels, evidencia a
importância da propaganda política e ideológica: “ Pode ser que o poder baseado nas
armas dê certo, entretanto é melhor e mais gratificante vencer o coração da nação e
mantê-lo”.

Nesse documentário, Hitler é apresentado como um deus. É ovacionado por toda
a multidão que o aguardava durante um congresso do Partido Nacional Socialista. Tendo
claramente uma natureza manipuladora, ideológica, a propaganda nazista preparava o
povo alemão na amenização de qualquer culpa ao matar e eliminar qualquer elemento
que não pertencesse a raça ariana.
Durante o documentário, é interessante perceber os close-up (planos fechados)
que mostram pequenos detalhes, como as feições de alegria do povo ao ver Hitler,
os pés das crianças que se esforçam para ver o seu Führer . É clara a intenção de
legitimar o nazismo, mostrando que aqueles que estão ali, estão por vontade própria.
Em várias partes do filme, percebe-se uma tentativa de valorizar o trabalho no
campo, no entanto não passa apenas de uma valorização simbólica, afinal a massa
não participa das decisões políticas. Os discursos parecem sempre refletir e reafirmar
a ideologia nazista, sempre citando a história do partido a fim de demonstrar orgulho.
Expressões como “ camarada” são constantemente usadas, pois tem a função de
agrupar os pertencentes ao regime, fazendo com que cada um se sinta parte de um
grupo.
Esta obra fica para a história como uma demonstração do poder da utilização
de simbologias e expressões que remetiam a autoridade, poder, força e adoração a um
líder, e como tudo isso mudou a história do povo alemão.

3. De Caligari a Hitler.


Talvez a melhor forma de entender o estado de espirito da Alemanha no período
entre guerras, seja por uma análise do livro “ De Caligari a Hitler” de Siegfried Kracauer.
O escritor alemão via nos filmes do período pré-hitlerista o comportamento e as relações
intrínsecas entre os indivíduos de uma população doente, beirando a insanidade. O
cinema da época, segundo Kracauer, refletia o inconsciente de um povo culturalmente
elevado, mas que já sofria dos temores de uma nova guerra e por isso produziria uma
arte em que o tenebroso, o macabro e as taras psíquicas do homem, seus medos, seus
vícios e o seu interior doentio são explorados através da iluminação, cor, som, imagem,
ângulos de filmagens etc. Em seu interior, a nação escondia algo muito embaraçoso: o
nazismo.
Nesta obra, Kracauer sugere que os personagens loucos e tiranos que eram
tão famosos nos cinemas Alemão após a primeira guerra mundial, eram protótipos da
insanidade e tirania que viria a tomar conta da Alemanha nos anos 30. O Historiador
nota que temas como a divisão da alma e a rebelião eram recorrentes em produções
cinematográficas da época, o que poderia significar um prenuncio do que viria com
a ascensão de Hitler. Tais características poderiam revelar sintomas sociais de uma
sociedade que acabara de sair de uma guerra que provocara milhões de mortes. Sobre
a temática o autor afirma:

“Os filmes de uma nação refletem a mentalidade desta de uma maneira
mais direta do que qualquer outro meio artístico (. . . ). Primeiro, os filmes
nunca são produto de um indivíduo (. . . ) segundo porque os filmes são destinados
às multidões anônimas. (. . . ) Ao gravar o mundo visível – não importa se a
realidade vigente com um universo imaginário – os filmes proporcionam
a chave de processos mentais ocultos. (. . . ) O que conta não é tanto a
popularidade dos filmes estatisticamente mensurável, mas a popularidade
de seus temas pictóricos e narrativos. (. . . ) Assim, por trás da história
explícita da Alemanha (. . . ) existe uma história secreta envolvendo dispositivos
internos do povo alemão. A revelação desses dispositivos através do
cinema alemão pode ajudar a compreender a ascensão e a ascendência de
Hitler.”
(Kracauer 1988, pp. 17-20).

Resumo

A arte sempre foi uma forte arma de influência social e cultural em uma nação, e é sabido que o cinema aborda o pensamento de uma civilização, seja em um curto ou longo espaço de tempo. Seguindo essa ideia, o cinema alemão do período pré-hitlerista teve sucesso em visualizar de maneira premonitória, o declínio de sua nação e o prenúncio de tempos sombrios.

Como prova desse caráter profético do cinema alemão pré-hitlerista, o livro do sociólogo e historiador germânico Siegfried Kracauer “ De Caligari a Hitler – Uma história psicológica do cinema Alemão”, nos revela a relação do cinema com a sociedade como parte de um jogo de análise comportamental da Alemanha. O cidadão da época, caracterizado pelos personagens doentios e insanos dos filmes expressionistas (como será analisado através do filme “ O Gabinete do doutor Caligari”), funciona como uma alegoria da condição massificante do indivíduo que perde sua individualidade e personalidade, tornando-se uma peça da engrenagem do nazismo, totalmente alienado.

Através de obras cinematográficas como “ O triunfo da Verdade “, pretende-se analisar as características propagandísticas presentes nesses que foram importantes meios de proliferação dos ideais nazistas da época.

1.  Introdução

Tendo como coordenador o ministro da Propaganda e Conscientização Publica, Paul Joseph Goebbels, a propaganda nazista foi responsável pela realização de vários filmes com teor propagandístico e nacionalista, sempre exaltando o racismo e o ódio aos estrangeiros, principalmente ao povo judeu que eram mostrados como únicos culpados pela decadência da Alemanha. O cinema era a maneira mais eficiente para a proliferação de imagens, pois distraia a atenção da população para qualquer possível derrota do exército alemão.

O principal objetivo era vender Hitler, enaltece-lo como um herói da nação ariana, e espalhar suas ideias, como a de que os judeus eram os verdadeiros culpados pela decadência econômica da Alemanha e, por isso, deveriam ser vistos como subhumanos perigosos para a saúde pública, e, portanto, para que uma nova Alemanha se reerguesse, era necessário exterminar as “imperfeições”.

Nos dias de hoje, olhamos mais de 80 anos para o passado e nos questionamos sobre as estratégias usadas pelos nazistas na propaganda do partido.

O cinema foi pela primeira vez utilizado como instrumento de propaganda pelos nazistas, pois era uma forma fácil e eficiente para a divulgação de imagens que serviam para distrair o povo alemão. Inúmeros filmes e documentários foram produzidos, cujo objetivo era construir uma lenda por trás do monstro que era Adolf Hitler.

A estética apresentada pelas propagandas foi a principal responsável pela glória dos ideais nazistas alcançou. Estética que fazia o imaginário da população, levando-os a crer na existência de um mundo perfeito e ideal, completamente distante da realidade daquela época. O nazismo como movimento totalitário dominava a todos através da política do medo, moldando os próprios membros do partido em seres sem capacidade de pensamento ou escolha individual, apenas focalizando os interesses do partido.

Os nazistas investiram pesado na propaganda, até mesmo em aprisionamentos de judeus como em Auschwitz, era possível ler em sua fechada “ Arbeit macht frei”, O Trabalho Liberta. Uma clara e evidente maneira de persuadir os prisioneiros para realizar o trabalho desumano nas fabricas de armamentos, em busca de liberdade.

Com base no romance homônimo de Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale talvez seja, do ponto de vista social, político e cultural, a série mais relevante e importante do momento. Numa sociedade onde a grande parte das mulheres não conseguem ter filhos e a maioria dos homens são estéreis, a série foca na República de Gilead, uma versão alternativa dos Estados Unidos que é regido por um opressivo governo que controla a sociedade por meio das leis da bíblia. Em Gilead, as mulheres que ainda podem ter filhos são capturadas e enviadas para as casas dos membros do grande escalão desse novo governo para servirem como reprodutoras que terão os filhos desses membros; A essas mulheres é dado o nome de “ Handmaid”.

The Handmad’s tale é assustadora, pois mostra um futuro que não queremos acreditar que possa acontecer… Mas pode (inclusive já acontece em algumas regiões do mundo). Essa estreita relação entre ficção e realidade é a principal característica responsável por tornar a serie tão interessante. Por mais que saibamos que é uma ficção, os fatos são tão bem ilustrados que não sentimos assistir, de fato, uma ficção, mas sim um futuro não muito distante.

A atuação brilhante de Elisabeth Moss como a protagonista Offred é tão intensa que chega a nos assustar por passar uma sensação de realidade que nos faz acreditar que ela é uma de nós e de que aquilo que está acontecendo com ela, não está tão distante de nós. A direção favorece demais essas sensações colocando sempre a câmera muito próxima do rosto das personagens (principalmente de Offred), o que nos faz ver as coisas do ponto de vista delas. Para somar a isso, ainda podemos ouvir os pensamentos de Offred, nos colocando mais ainda dentro do seu mundo, o que transforma a série num fascinante drama psicológico onde nos sentimos como a protagonista.

A serie acerta em cheio em criar uma atmosfera onde a tensão, o medo e a desconfiança estão sempre presentes. Pessoalmente, não lembro de ficar tão apreensivo assim desde “ 1984 “ dirigido por Michael Radford. Aliás, as semelhanças com o clássico de George Orwell são muitas: além do clima de medo e tensão, temos um desprezo total pelos inimigos do estado (que nesse caso são os suicidas, adúlteros etc.) e também um sistema que acredita no recondicionamento dos cidadãos por meio de violência e tortura.

Outro ponto forte de The Handmaid’s tale é o contraste de realidades que é mostrado entre a vida de Offred antes e depois de Gilead. Acompanhar a sequência de fatos que mudou drasticamente a vida da protagonista é uma experiencia angustiante, principalmente quando nos familiarizamos com seus laços familiares e amorosos.

A dicotomia entre bem e mal é trabalhada de maneira brilhante na série. Em um episódio ficamos abismados pensando em como algo pode ser tão brutal, já em outro somos tentados a pensar “será que é de todo ruim mesmo?”; Não vemos somente um lado da história, o que torna tudo muito mais complexo e interessante.

Com uma história extremamente interessante que irá fazer você refletir sobre diversos temas como religião e machismo, The Handmaid’s tale é uma das melhores e mais relevantes séries da atualidade e merece que você dedique algumas horas para assisti-la. Com apenas 10 episódios da primeira temporada, só podemos torcer para que a próxima temporada mantenha o nível de qualidade.

Abaixo você confere o trailer legendado:

 

Diante das recentes manifestações racistas e neonazistas ocorridas nos Estados Unidos, a reflexão e o debate acerca dos problemas sociais presentes na América, faz-se medida necessária e primordial para o entendimento dessas feridas abertas que parecem crescer cada vez mais na sociedade instável que está presente a população norte americana.

Como a arte sempre teve o intuito de tratar de questões importantes e incentivar o debate acerca dessas questões, nada mais oportuno do que falar a respeito de um filme-documentário que se encaixa perfeitamente nesse momento social Americano e que nos dá uma ótima ilustração do passado para que possamos entender o presente e fazer prognósticos para o futuro. Estou falando de “I AM NOT YOUR NEGRO” , lançado em Fevereiro desse ano aqui no Brasil, dirigido por Raoul Peck com base nos manuscritos inacabados de James Baldwin ( lendário escritor e ativista americano) chamado “ REMEMBER THIS HOUSE“ , onde o escritor conta suas memórias sobre seus encontros e ideias de três líderes dos direitos civis: Malcolm X, Medgar Evers e Martin Luther king Jr.

Trazendo a narração de Samuel L. Jackson que mais parece performar com a voz do que apenas narrar, o filme-documentário, apesar de trazer relatos, debates e imagens de mais de 40 anos, ainda assim é extremamente atual e relevante por mostrar a segregação racial presente em praticamente todos os meios da sociedade:  nas escolas, nas ruas, nas propagandas de televisão, no cinema e etc.

Repleto de entrevistas em programas de TV da época, vídeos de debates e palestras, as palavras de Baldwin em defesa dos direitos civis da população negra soam urgentes, ainda mais quando confrontadas com filmagens recentes do racismo em atividade nas ruas dos Estados Unidos. A personalidade dos três líderes (Malcolm X, Martin Luther King e Medgar Evers) são dissecadas e colocadas em contraste uma com as outras, mostrando que apesar de defenderem os mesmos ideais, acreditavam em caminhos diferentes para alcançar o objetivo.

Do ponto de vista cinematográfico, não posso deixar de citar a ótima trilha sonora do filme, que vai de Buddy Guy até Kendrick Lamar, além da ótima montagem que dá um ritmo perfeito ao filme.

Urgente e atual, “I AM NOT YOUR NEGRO “ trata de uma herança histórica que divide um pais e merece ser visto para que, conhecendo o passado, possamos tratar do presente e assegurar um futuro melhor.

Abaixo você confere o trailer Legendado:

 

American Gods, a nova série criada por  Bryan Fuller e Michael Green, baseada no romance homônimo do escritor britânico Neil Gaiman se enquadra entre as novas séries que mais estão despertando a curiosidade e mexendo com o imaginário do público.

Com apenas 1 temporada, American Gods conta a história de Shadow Moon, um homem que após ser libertado da cadeia depois da morte de sua esposa, encontra-se com um homem chamado Wednesday que lhe oferece um emprego. Mesmo hesitante, Shadow Moon aceita a oferta por pensar se tratar de um trapaceiro que precisa de um guarda-costas, sem imaginar que na verdade Wednesday está trilhando seu caminho pelos E.U.A recrutando todos os deuses antigos da mitologia que perderam seu espaço na sociedade moderna, para travar uma batalha contra os novos deuses, os deuses da tecnologia, mídia, celebridades e drogas.

American Gods é diferente de tudo que há na televisão hoje em dia. Ousada em sua gênese, a série é brilhante em retratar os antigos deuses como pessoas normais, que vivem suas vidas não muito diferente de qualquer outro cidadão americano e, ao mesmo tempo, mostra como a tecnologia e as celebridades são cultuadas como os novos Deuses da humanidade. Trata-se de uma série que se empenha em manter seus mistérios ao longo dos episódios, trazendo mais dúvidas do que certezas ao longo da narrativa, o que pode incomodar algumas pessoas que prefiram uma história mais direta. Mesmo que você não saiba exatamente o que está acontecendo, as cenas são provocativas e fascinantes o bastante para te manter atento.

Apesar de ter apenas 8 episódios, American Gods arranja tempo para desenvolver os personagens (principalmente os deuses antigos), mostrando suas características, motivações e dramas individuais, ao invés de apenas seguir Wednesday e Shadow Moon.

A trilha sonora é uma atração à parte na série; Com grandes influências do jazz, temos ao longo de praticamente todos os episódios, frequentes riffs de saxofone que muitas vezes dão um tom sarcástico e único às cenas que, acompanhadas de um paleta de cores vivas e provocativas, fazem de American Gods (do ponto de vista estético) diferente de qualquer outra série televisiva.

Ousada em tratar de temas como religião, sexo e vida após a morte; lúdica na sua abordagem desses temas e cheia de cenas marcantes (pessoalmente destaco a cena inicial do segundo episódio), American Gods estreia muito bem na TV e promete futuras temporadas ainda mais interessantes.

Abaixo você confere o trailer:

 

No final dos anos 90 quando Christopher Nolan estreou no cinema com seu ótimo filme “ Following” já tínhamos indícios de que a sétima arte tinha ganhado um colaborador de peso que traria trabalhos dignos num futuro próximo. Somente com os bem sucedidos “ Batman Begins“, “The Dark Knight“ e “The Dark Knight Rises“ Nolan ganhou reconhecimento e fama mundial, colocando seu nome entre os principais diretores do cinema moderno.

Seu mais novo trabalho, “Dunkirk”, filme que conta a história (desconhecida por muitos) da evacuação de mais de 300 mil soldados britânicos e franceses da praia de Dunquerque na França depois de serem encurralados pela tropa nazista em 1940, traz novas facetas deste diretor que parece ter dado um novo passo em sua carreira, se consolidando ainda mais entre os grandes.

Dunkirk não é um filme de guerra, mas um filme sobre Guerra. Não espere ir ao cinema e presenciar cenas intensas de batalhas, grandes confrontos violentos e sangue para todo lado. Dunkirk é brilhante em mostrar os dramas psicológicos daqueles que viveram a tragédia da guerra, sem apelar pra cenas grandiosas de batalhas. Durante todo o filme, tememos um inimigo quase invisível ao mesmo tempo em que o lar está bem ali do outro lado do mar, trazendo um sentimento de angústia por parecer tão próximo e distante ao mesmo tempo.

“ […] we shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills; we shall never surrender…” – CHURCHILL, 1940.

Em certo momento do filme, um dos personagens lê em um folha de jornal parte do histórico discurso “ We shall fight on the beachs” feito pelo então primeiro ministro britânico Winston Churchill, e isso não poderia ser mais adequado ao mais novo trabalho de Christopher Nolan. Como de costume, o diretor brinca com a cronologia do filme e escolhe contar a história de três pontos de vista diferentes:  do céu, do Mar e da praia. Cada um tão importante quanto o outro. Nenhum personagem recebe um tratamento especial, deixando claro que o objetivo do filme não é focar em um protagonista, mas mostrar a experiência compartilhada, o esforço de todos em prol do sucesso da missão.

Embalado com uma fotografia impressionante e com uma trilha sonora feita pelo lendário Hans Zimmer que promete te deixar ligado em 100% do tempo da projeção, Dunkirk se mostra como um forte candidato a trazer o primeiro Oscar de direção para Christopher Nolan.

"O cinema é um modo divino de contar a vida"
Federico Fellini

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