Sandman | Os perpétuos e a genialidade de Neil Gaiman

Os verdadeiros fãs de quadrinhos já devem conhecer a obra prima que é Sandman, e toda a genialidade de Neil Gaiman. Ele foi o criador de centenas de bons quadrinhos e livros, inclusive o que serviu de inspiração para o filme “Coraline”, e o conhecidissimo livro Neverwhere, “Lugar nenhum”. Sandman faz parte do selo Vertigo da DC. O famoso quadrinho pra adulto.

O objetivo desse artigo não é analisar cada um dos seus arcos e sim tentar te introduzir ao mundo tão complexo, abrangente e incrível de Sandman. Não se trata de uma simples história focada em apenas um único personagem. Claro que temos um protagonista, onde a maioria das histórias giram em torno dele, mas nem todas elas giram em torno do Sonho. O rei do sonhar, protagonista de Sandman, é o mesmo a dar o nome a hq. Ao interagir com o universo, com humanos, Perpétuos, Deuses, entre outras criaturas, vemos o seu ponto de vista. Em muitas histórias ele é apenas o coadjuvante, num universo de personagens muito bem introduzidos e desenvolvidos pelo autor. Nada jogado a toa para o leitor, como no arco “Terra dos sonhos”, que tem 4 histórias diferentes e totalmente independentes umas das outras. Trata-se de uma pausa na trama principal feita por Neil Gaiman dentro da grandiosidade que é Sandman, cheia de simbolismos e cultura envolvidos. Mas quem seria o “sonho”? Ele faz parte de um grupo de entidades chamadas perpétuos que não são deuses, e sim representações antropomórficas de seus nomes e dos aspectos da vida relaciona a nós humanos. No total existem 7 perpétuos, comandando 7 reinos. Cada um deles é absoluto e independente, sem qualquer interferência dos outros, e contendo seus próprios símbolos que os representam.

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Perpétuos
Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desespero e Delírio. Eles não podem ser mortos, pois seria a mesma coisa que matar um conceito, o que seria impossível. Ao terem uma morte cósmica, suas essências procuram novos hospedeiros que passarão a portar suas memórias e personalidade.

Destino

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O mais velho dos perpétuos. Como seu próprio nome já diz, ele é a representação do destino e de tudo que vai acontecer ou que já aconteceu. É representado por um homem cego com um capuz, mas que, embora cego, ele pode ver a tudo e a todos. Tudo está registrado num livro que fica acorrentado ao seu pulso. Ele sabe todas as coisas, e nada foge ao destino. Aparenta ser o mais sábio e dedicado entre os perpétuos, e apesar de ser mais conhecido pelas histórias do sandman, sua primeira aparição foi na Weird Mystery Tales.

Morte

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Podemos dizer que a morte é o porteiro do mundo, e que vai estar lá pra fechar seus “portões”. Ela levará até o último mortal e, no fim dos tempos, estará junto com destino entre os últimos perpétuos do planeta. Ela é a segunda mais velha dos perpétuos, apenas superada por Destino. Dizem que a Morte encontra com cada mortal duas vezes, sendo a primeira em seu nascimento e depois na hora de suas últimas palavras. Ela é uma das personagens mais famosas e amadas de Sandman, ganhando até uma série própria de quadrinhos. Diferente do que muitos podem pensar, ela é um dos perpétuos mais bem humorados e otimistas da trama. Com uma aparência jovem, estilo gótico, e vestida de preto, muitas vezes ajuda o Sonho quando ele precisa. Não apenas por ser um perpétuo, mas como uma irmã mais velha, que tem Sonho como seu irmão mais próximo. A Morte controla o ciclo da vida do universo DC, ou seja, ela não pode ser morta em hipótese alguma, tendo o poder até de matar imortais. A cada cem anos a morte toma a forma de um mortal e morre nessa vida. Assim aprende mais e sente na pele como é ser levada por ela mesma, a morte não julga, cor, raça, etnia, a morte é pra todos. Seu símbolo é o seu colar com a cruz de Ankh, que na cultura popular significa ressurreição, mas os povos egípcios o tinham como símbolo da vida.

Sonho

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Finalmente chega a hora dele, o Sonho. Morpheus, Oneiros, rei do sonhar ou o próprio Sandman. Vários nomes entrelaçados a ele, várias culturas ou interpretações diferentes. Você deve se perguntar o porquê de Sandman. Isso vem da sua areia mágica no folclore Europeu (reconhecido em todo mundo), que fazia com que as crianças, com dificuldade de dormir, adormecessem ao jogá-la no rosto. Um personagem nobre, mas com uma aparência bastante melancólica e sempre com ar pensativo, inspirado no vocalista da banda The cure (Robert Smith). Um ser racional que pensa antes de agir, mas que as vezes se deixa levar pelos sentimentos. Ele dispõe de algumas ferramentas mágicas usadas para facilitar o seu trabalho, como um saco com areia mágica infinita, um rubi onde o seu poder pode ser canalizado, e um elmo feito de ossos de um deus morto, que usa para viagens e algumas outras coisas. Quando dormimos nossa alma vai para o reino do sonhar, onde o próprio Sonho toma conta das imagens, ideias e sonhos que iremos ter. Lá existe uma biblioteca dos livros jamais escritos, idéias e deveres criados, mas nunca aplicados.

Destruição

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O mais poderoso dos perpétuos, e o mais intrigante também. Sempre representado por um homem grande, forte, de barba e cabelos ruivos, e com a aparência similar a um viking. Diferente de seu nome, ele sempre espera que o bem se sobressaia ao mal. Extrovertido, inocente e sempre muito otimista, ele é talvez o mais animado dos perpétuos e está sempre tentando alegrar a todos, além de ajudar muito a Morpheus. Porém a muitos séculos decidiu largar o seu papel de perpétuo, sendo isso ainda uma grande interrogação por não se saber o porque. Isso enfurece muito alguns dos seus irmãos, pois, sem sua presença, eles teriam que assumir seus deveres. Tem como símbolo uma espada.

Desejo e Desespero

Eu botei os dois juntos não só porque são irmãos gêmeos, mas também por serem o oposto um do outro, já que quando não satisfazemos um desejo, vem o desespero. Não podemos definir o desejo como homem ou mulher, pois sua aparência parece tanto de um quanto do outro. Definido com uma beleza inconfundível e única, está sempre bem vestido, apresentado e fumando muito. É o mais egoísta e perverso dos perpétuos, sempre querendo interferir na vida de seus irmãos. Tem uma rixa maior com o Sonho, e seu símbolo é um coração de vidro. A Desespero mostrada como uma mulher baixinha, desnuda, com a pele pálida e escamada, e de cabelos negros curtos. Na mão esquerda traz um anel com um gancho, que usa para rasgar a própria pele. Esse é também o seu símbolo. Diferente do/da Desejo, ela parece sentir empatia pelos outros perpétuos, mesmo quando ambos tramam contra perpétuos mais velhos.

Desejo

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Desespero

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Delírio

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Delírio é a mais nova dos perpétuos, e a única que não podemos definir uma aparência exata ou personalizada. É geralmente baixa e magra, mas sua aparência muda constantemente, e a forma e contorno de sua sombra não têm necessariamente relação com a do corpo que esteja usando. Diz-se que ela cheira a suor, vinho azedo, noites tardias e couro velho. Ela tem um olho azul e o outro verde, salpicado de estrelas. Dessa forma vê o mundo de sua própria e única visão. Uma grande frustração de Delírio é que mesmo sendo quase mais velha que a própria criação, continua sendo a mais jovem dos perpétuos. Quem não sente isso dos seus irmãos mais velhos? Um tom superior sempre, chegando a ser tratada muitas vezes como uma “criança”. Antes Delírio já foi Deleite, mas por algum motivo traumático relacionado ao Lúcifer Morningstar, não explicado nos quadrinhos, ela virou Delírio. Seu símbolo é uma bolha abstrata colorida e sem formato definido.

Sim, vocês não leram errado. Lúcifer Morningstar é um dos seres mais poderosos acima dos perpétuos, que são mais poderosos que Deuses, e um dos mais poderosos da própria DC. Já existente também na Weird Mystery Tales, vem também ganhando fama em Sandman, principalmente no 4 arco “Estação das Brumas” onde tem mais destaque. Lúcifer se cansa dos seus deveres como Senhor do inferno, e expulsa todos os demônios de lá. Claro que tem toda uma ideologia a respeito do livre arbitrio, e se cansar de ser submisso a Deus. Assim inicia sua série própria de quadrinhos, onde desce a terra com sua serva Mazikeen e abre um pianos bar. A série da Tv Lúcifer, muito conhecida, é baseada nestes quadrinhos.

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Só pela introdução aos perpétuos, deveras resumida, já deu para notar que esse universo é bem complexo e rico. Não, não é uma história chata. Ela prende, e muito, o leitor, e o coloca para pensar, no meio de tantas filosofias, pensamentos e questionamentos. E não é apenas nas aparências. Sandman é uma história com um ar bem gótico e até obscuro muitas vezes.

Publicadas entre janeiro de 1989 e março de 1996, Sandman possuiu 75 capítulos. Lançados mais tarde em edições de capa dura, e tendo seus arcos divididos, todos tem começo meio e fim, além de fazerem parte de uma história do mesmo universo e cronología, interligados com excessões. São 10 arcos principais, cada um com uma história fechada e distinta, mas todos eles se ligam de alguma forma. O primeiro é “Prelúdios e Noturnos”, onde um mago tenta capturar a Morte, com desejo na imortalidade, e acaba por engano capturando o rei do sonhar, pessoas não conseguindo dormir e pessoas não conseguindo acordar e muitos que não mais dormem o sono merecido. Sem saber o que fazer ele o deixa preso, tirando seus itens. Morpheus fica assim por exatamente 70 anos, e ao sair e se deparar com seu reino em pedaços, tenta recuperar seus itens e seu poder para reerguê-lo. Os arcos seguintes quase sempre serão uma consequência desses anos em que o Sonho ficou aprisionado, sendo também uma jornada do seu autodescobrimento, após todos esses anos Morpheus tinha mudado, se tornando mais reflexivo é questionador, questionando até si mesmo.

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Como o Sonho é o Rei do sonhar, ele sabe os desejos mais íntimos e também os mais obscuros das pessoas, o que os torna mais e mais reais, nos fazendo simpatizar muito com os personagens, é por um lado nós identificando. E nesse primeiro arco temos inúmeras referências a cultura pop, de muitas que virão por diante, teorias da conspiração aos montes, além de diversas culturas e religiões. Com uma ótima premissa inicial, uma ótima trama bem amarrada, oque da aquele prazer maior de ler, qualidade que só aumenta ao decorrer dos volumes. Gaiman traz a tona temas que na época não eram muito explorados, trazendo temas atuais e muito delicados até a hoje, lá nos anos 90, trazendo fortes discussões e reflexões.

Sandman pode ser encontrado em diversos lugares da cultura pop, sendo muito homenageado e elogiado por todos que tem o prazer de ler, misturando horror, religião, misticismo, fantasia, surrealismo, muitas coisas sobre a psicanálise, filosofias e muitas outras coisas. É considerada uma das melhores sagas do gênero já escritas, consagrando Neil Gaiman como um deus quando o assunto é quadrinhos. Para alguns pode parecer uma leitura chata e com um ritmo lento. Mas para os que conseguem ler todos os arcos, sempre fica o desejo de conhecer as, também magníficas, histórias dos outros personagens de Sandman. Com certeza todo fã de quadrinhos que se preze, tem que ter lido essa obra de arte. Tudo que eu disse não passou de uma mera sinopse de tudo que Sandman é e representa. Gaiman nunca teve a intenção de criar um super-herói, seu personagem estava a cima do bem e do mal, ele era um Perpétuo, existente desde no início de tudo, sem o pudor da moralidade ou ética, era nada mais nada menos que o Sonho.

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Ruy Neto

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