Kevin Spacey (PERFIL)

Roteiro, direção, atuação. Ás vezes mútuos, ás vezes não. É claro que os dois primeiros falam alto, mas frequentemente o filme é mera filmagem se não houver uma atuação foda. A carreira cinematográfica de Kevin Spacey rompeu com as obras de mera filmagem. É quase instantâneo dizer uau! , bastando algumas cenas assistidas. Para os que o conheceram somente em House of Cards – mais recente e de maior fama – é muito válido: Frank Underwood é o personagem-mor que sucedeu e fundiu os anteriores. Verdade seja dita, é o papel que representa as carnificinas anteriores.

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Yes. The butchery. A carnificina, no português. É o que soa a sagacidade nos papéis de Kevin. É claro que este tipo de conduta se passa em um cenário fictício, onde é acrescentado empatia, elegância, originalidade. Nos chamando a adorar o personagem, e a sermos seus cúmplices.

Obviamente, falo aqui de um gênero sombrio mas que é positivamente favorável. É importante entender isto. O entretenimento estrelado por figuras como Spacey (maioria dos personagens), Bobby Axelrod (Billions), Amy (Garota Exemplar) e Marc Torneuil (O Capital), configuram grandes – boas – obras audiovisuais. O contato estabelecido do personagem com o telespectador é chamado, segundo entendedores, de quebra da quarta parede – termo do teatro. Referência memorável em House of Cards, já que o protagonista usa da casa de cartas, lugar de jogos de poder e de cinismo, para convencer quem o assiste. Aliás. Usa da conveniência para passar por cima de questões sociais e morais para chegar onde quer.

O ator Kevin fez isso muito bem com o ator Frank.

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Falando em teatro…

Vindo de New Jersey, Kevin Spacey Fowler (1959) passou por Califórnia e New York de peça em peça e de indicação a indicação. Há de ser curioso dois fatos enquanto esteve no teatro. Estudando na renomada Juilliard em 1979, foi chamado de preguiçoso por uma professora, a qual ele já percebia liberar duras críticas e não gostar dele. O fato é que sua ínfima ideologia sobre esforço o levou a pensar “ah então não é só seguir minha vida fingindo que trabalho?” A  instrutora, no esclarecer do bafafá, o iluminou reconhecendo ser o mais talentoso estudante, e por este pequeno detalhe, ela julgava sua lentidão e o pressionava a esforçar mais.

O outro fato, já nos anos 90 fazendo tv e filmes, foi na Broadway. O inesperado foi Kevin saber que Al Pacino e seu amigo diretor, James Foley, eram espectadores da peça. Foley, dias depois, o escalou para um papel secundário, porém o colocou ao lado de Pacino e Jack Lemmon – o mentor de Spacey. ”Ele me ensinou que ser uma boa pessoa e um bom ator não eram mutuamente exclusivos, e eu ainda considero Jack o meu exemplo”, disse Spacey. O Sucesso a Qualquer Preço, 1992, foi o seu primeiro papel significativo.

Al Pacino, aliás, já foi referência pra Spacey. Meados dos anos 80, bastou Scarface e The Godfather para interpretar  o criminoso Mel Profitt do seriado Wiseguy. Criminoso do tipo jocoso e mentalmente distorcido.

O que fez de Kevin um operante das sombras foi possivelmente o teatro, que tinha muito do caractere tirano ou maquiavélico em Shakespeare. Incrivelmente comparável com seus papéis. Assustadoramente atraente. Ele ainda continuou no teatro com a peça shakespeariana Richard III, em 2014. Sam Mendes (dirigiu Beleza Americana) inclusive, registrou os bastidores no documentário Now:In the Wings on a World Stage, onde é possível ver algumas das performances. Ao falar sobre a peça, Kevin relata que inicia uma performance independentemente de seu humor. Que não é iniciada no canto, devagar. Ele apenas vai. Richard III inspirou a série original – britânica – de House of Cards.

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Kevin Spacey in Richard III - saw it at BAM and it was awesome.

Outros personagens

Um depoimento criminal a base de narrações geniais. E Verbal Kint, sendo um gênio da falácia inteligente, aborda detalhes, nomes, fatos, devaneios. A postura retraída, introvertida, vira mero caracter por conta da personalidade ligeira e esperta.

 

 

 

 

E assim percorre todo o filme como um dos suspeitos mais astutos dentre cinco. O que te convence mais, um sujeito manco sinistro, ou este mesmo lançando aforismos sobre si? The devil himself. Sério. Kevin está tão original em Os Suspeitos (1995) na sua maneira engenhosa de atuar, que os próximos papéis a serem conquistados viriam adaptados para ele. Este papel, considerado como o que pavimentou o caminho para o sucesso de Spacey, rendeu Oscar de melhor ator coadjuvante.

Em 1997, funda a produtora Trigger Street. Com créditos em alguns filmes independentes e nos nomeados Capitão Phillips e A Rede Social. No mesmo ano, é dirigido por Clint Eastwood numa adaptação. Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal.

1999. Segundo Spacey a beautiful year. Revelou o pai de família do subúrbio em um ingênuo amante. A importância desse papel com Kevin foi a de libertar o protagonista, que no meio de uma crise típica de classe média rompe o marasmo e traz nuances de fantasia. É bem sensual, na verdade. Mas talvez diz mais sobre a morte interna. Aquele marasmo dos dias arrastados da vida americana e de tudo o que está por trás do bom e do tradicional, particularmente dos anos 90. Kevin realmente liberta Lester Burham. Atraído pela garota das pétalas, em benefício  de uma mudança radical. Ótima performance. Oscar de melhor ator.

A Corrente do Bem (2000), Chegadas e Partidas (2001) e A Vida de David Gale (2003). Títulos fora da imagem pretensiosa. São destaques para a atuação emocional de Kevin.

Política segundo KS

Antes de Frank Underwood tomar posse do streaming, KS interpretou Jack Abramoff em 2010. Com acesso ao Congresso Americano, este poderoso negociante caça os melhores alvos da política para barganhar e atrever-se a ter o que o lobby proporciona. O Super Lobista é a personalidade mais próxima de Underwood. Sarcástico. Só que fanfarrão. Ele conversa com a câmera. Ele pondera e eleva a voz para persuadir. Comete a carnificina.

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Curiosamente KS ainda explorou o entretenimento da série eletrônica Call of Duty. Um dos videogames mais avançados da atualidade. A voz e a fisionomia de K foram o resultado final no jogo, mas ele atuou de verdade. E segundo entrevistas que deu, afirma ter sido uma experiência diferente e que atraiu um novo público. Jonathan Irons é o personagem e possui o mesmo perfil de K em trabalhos sobre política. No Youtube está disponível todas as cenas que ele aparece, à frente da corporativa militar independente Atlas. É um outro mundo, realmente. A coisa mais legal que descobri, depois de Mads Mikkelsen – outro ator charmoso – também fazer, no jogo Death Stranding.

 

Você sabe que cinema é pra sempre. Você também sabe que Kevin Spacey, o ator, fez um bruto trabalho lá atrás que todos vão lembrar, independentemente das notícias. It’s done. KS construiu um perfil no cinema irresistível. Difícil não sermos cúmplices dos personagens enquanto o filme/obra está rolando.

 

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Letícia Nunes

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