É preciso ressignificar a idealização no cinema

IDEALIZAR
verbo
  1. 1.
    transitivo direto e pronominal
    imaginar(-se) de maneira ideal.
    “um pintor que idealiza os modelos”
  2. 2.
    transitivo direto e bitransitivo
    criar na imaginação; fantasiar, imaginar, idear.
    “idealizava um futuro diferente (para os filhos)”
  3. 3.
    transitivo direto
    fazer o plano ou a planta de; planejar, projetar, idear.
    “i. um conjunto habitacional modelo”

Para começar esse texto, é preciso compreender que a idealização é uma ação que considera a projeção de uma perspectiva individual, numa figura que não é existente, ou que é real mas que não corresponde realisticamente ao que se imagina. Idealizar é munir, no campo das ideias e das possibilidades, um determinado indivíduo/objeto com uma série de expectativas, esperanças, objetivos pessoais, e percepções a nível psicológico ou não.

O cinema sempre apresentou o potencial de elevar os ânimos da humanidade, e isso se dá desde os primórdios da construção da 7ª Arte. Quando em 1895 os irmãos Lumière expuseram pela primeira vez aquilo que viria a ser o que hoje conhecemos como cinema, a platéia ficou maravilhada, horrorizada, absorta diante daquela realidade que se sobrepunha a ela, sem compreender a dimensão do que aquele momento capturado representava. A simples consideração primária do universo cinematográfico soava inacreditável, porque se tratava não somente da exposição de uma vertente da realidade, mas também da criação, e em alguns casos até mesmo da consolidação da mesma. Reproduzir um conjunto de cenas, construir uma percepção do entendimento humano por trás das figuras que se desdobravam na tela, destrinchar os códigos do imaginário da nossa sociedade, aprender a não só comunicar com palavras, mas a decifrar a compreensão por trás de cada uma delas, era como recriar a vida. E é aqui que nasce o grande ponto da atual discussão:

O cinema não é somente uma estrutura que fomenta a compreensão das massas e as nutre com um universo de possibilidade. O cinema é por si só, por definição essencial e de consideração básica, uma grandiosíssima idealização. Uma idealização ao introduzir o que é fruto de uma análise humana, e não somente por isso, mas também por ser permissivo à essa parcela também humana, a simples consideração individual. As artes de modo geral sempre obtiveram o poder de gerar significados por trás das coisas, porque é a mente que fomenta e desenvolve a logística que nomina e categoriza o objeto artístico. Porque no momento em que é destrinchado pelo homem a ideia de que pedaços de madeira organizados, ou não organizados, dispostos a esmo ou com minúcia, podem significar a totalidade do universo, ou a pequenez de um grão, assim será considerado. Porque não se trata da introdução do trabalho perfeccionista de Kubrick, ou da consideração visceral dilaceradora de Almodôvar, mas sim da percepção humana daquilo que está sendo feito e ou produzido.

Sendo assim, não é de se espantar que tudo que tenha sido produzido artisticamente, tenha sido fruto de uma idealização e objeto idealizado de tantas outras mentes. O problema que cresce com o cinema, é que nunca na história do mundo uma arte conseguiu chegar em lugares tão distantes como o mesmo. O problema com o cinema, é que hoje existem só no Brasil, cerca de 3000 salas de cinema, o que representa uma média de 115 salas por Estado. O problema com o cinema, é que no ano de 2016, por exemplo, cerca de 21 mil produções audiovisuais diferentes foram lançadas no mundo, e ninguém nunca esperou que chegássemos a isso. O problema com o cinema, é que no ano de 2015, o faturamento de Hollywood foi de cerca de 11 bilhões de dólares, e isso é apenas uma pequena fatia da indústria.

“Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades”, disse um personagem de um filme que você provavelmente viu, e que mesmo que não se lembre sabe que com certeza já ouviu antes. O que você não sabe, é que assim como essa frase de grande impacto entrou na sua cabeça e estabeleceu espaço, inúmeras outras ideias, concepções, medos, sonhos, desejos, hábitos, tristezas, alegrias, paixões e valores nasceram, cresceram, se reproduziram e se estabeleceram na sua mente, só que pra ficar. O cinema agregou ao imaginário social uma infinidade de coisas, e isso está tão bem elaborado na nossa consciência coletiva, que muitas vezes não passa pela cabeça das pessoas que aquela ideia simplesmente não é dela, e que talvez nem a represente, e perceber até que ponto você é  a pessoa que analisa, e até qual ponto você é fruto do objeto de análise, é extremamente crucial para abrir mão da idealização a certo nível, e dessa projeção que é criada sobre o universo fílmico. Vivemos em uma sociedade que não distingue mais a realidade da ficção, e que erroneamente mistura seus heróis com os atores que os representam, porque o cinema não se conteve na tela e tomou rumos demasiadamente reais.

A partir da total consolidação do cinema falado, em meados da década de 20, junto com todas as premissas do efeito na psiquê e na compreensão individual que o cinema trazia, começou a crescer um novo objeto, ou melhor, um novo sujeito objeto: As estrelas de cinema.
A exposição em telas gigantescas, a construção da figura de uma espécie de sobre-humano que encarnava personalidades variadas, rostos variados, psiquês variadas, a possibilidade da completa entrega a um novo universo fílmico, a uma outra realidade que nos gera mais conforto, a um outro espaço tempo que nos efetive e nos evidencie de um jeito melhor, mais justo, mais digno, mais…idealizado. A existência dessa expectativa absoluta na figura humana que se apresentava diante do público, e que tinha o poder de ser em si só um indivíduo e todos ao mesmo tempo, gerou quase que imediatamente um efeito arrebatador nas pessoas, construindo um imaginário que não só convalidava a realidade do universo fílmico, mas que também passou a emancipar de um jeito divinatório as grandes faces por trás do cinema, e com isso criou não a idealização sobre o outro, mas a construção altamente perigosa de uma imagem que antecede ao indivíduo humano, e que atribui ao mesmo uma série de funções e obrigações que uma figura real dificilmente poderia lidar. Nasce aí uma nova espécie de figura pública, que diferente dos monarcas ou políticos, não representavam o que o povo queria ouvir, mas sim o que o povo queria ser.

Quando a sociedade em uma espécie de movimento unificado compreendeu e significou o nascimento dessa figura cinematográfica, ela não contava com a globalização, com a internet, com o nascimento de uma mídia absolutamente gigantesca, e a partir disso, com a potencialização inacreditável daquilo que parecia ate então apenas uma relação de idealização. O que acontece, é que do idealizar nasceu o adorar, e da adoração se criou uma cultura obsessiva, que não mais se delimita ao campo consciente e lógico dessa realidade, mas que se propõe a uma espécie de imersão perigosa e nociva para ambos os lados envolvidos, tanto as figuras em consideração, quanto ao público de um modo geral. Desse ponto, em um desenvolvimento capitalista voraz e desumanizador, as grandes corporações por trás do cinema começaram a ganhar mais e mais poder, e entenderam que para lidar com um mundo que criava deuses, eles precisavam de figuras que fossem tão perfeitas quanto as expectativas por trás delas…e assim nasceu a força mantenedora de Hollywood: a ilusão.

Diferentemente do que é dito, o cinema não é a arte da ilusão. É a arte da fuga. É fugaz porque é gentil com a realidade que se constrói, e abraça-a reconhecendo que sua existência não é paralela a nossa, mas que existe. Ilusão não é o que os efeitos especiais criam, nem os figurinos, ou os cenários variados, ou a linguagem aplicada cuidadosamente; o que eles criam, é um novo universo, com seu próprio espaço, tempo, e estrutura, sem tentar confundir a ninguém de que aquilo pode ser vivenciado, ainda que escolhamos interpretá-lo assim algumas vezes. A ilusão que rodeia o cinema nasce nas concepções que desumanizam as pessoas por trás do seu processo, e que depositam sobre elas o peso de exemplo do mundo, mas o problema é que pouco a pouco, a gravidade insiste a nos puxar para o centro de nossa realidade, evidenciando as fraquezas, os erros, medos, pecados, crimes, absurdos, e tragédias cometidas por esses homens, e precisamos lidar com isso, precisamos voltar para a nossa construção de universo, e perceber que os heróis só são em sua totalidade bons quando estão mortos, ou quando nunca chegaram a existir.

É preciso ressignificar a idealização, porque chegamos em um tempo onde não é mais possível perdurar com tanta eficácia essa admiração voraz que foi ao longo de tantos anos depositada nesses indivíduos, não só decorrente do desgaste gerado por ela, mas também porque com as ferramentas de compartilhamento e de exposição já não é mais plausível a manutenção de figuras heroicas. Elas vão pouco a pouco sucumbir ao mundo real, e se a solução para lidarmos com elas for a consideração de uma espécie de rodízio, em um movimento constante de substituição de deuses por novos deuses, passaremos a perceber que a instabilidade nasce na nossa compreensão que desumaniza e endeusa esses homens e mulheres. Isso só pode evoluir em meio a um cenário de desconstrução absoluta de ídolos, porque a consideração de valores que podem parecer mais harmoniosos e corretos só vai durar o tempo em que for necessário para o surgimento de novas problemáticas que vão crescer aos montes porque eis a grande verdade do mundo: os deuses sempre terão que ser perfeitos, porque diferentemente dos mitos Gregos, somos nós aqui que os colocamos em seus panteões e os preceitos morais não vão permitir que ninguém idolatre bêbados, pedófilos, homens violentos, mulheres adúlteras e cruéis, pessoas vingativas e mesquinhas, ou qualquer tipo de figura que vá de oposição a logística básica da compreensão moral humana. Não é sobre ignorar os feitos, pois é necessário promover a resolução e exposição deles, mas sim sobre depositar a ideia concreta de que não importa o quão incrível aquela figura seja, ainda são humanos, e não há efeito especial em Hollywood que vá conseguir nos convencer do contrário.


William Diniz

Um jovem estudante do cinema e de toda a sua complexidade, que se debruça diariamente diante daquilo que mais ama, e se entrega com eloquência a 7ª Arte. Aprendiz de cineasta, amante de uma profusão de diretores e pseudo cinéfilo.

"O cinema é um modo divino de contar a vida"
Federico Fellini

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