120 Batimentos por Minuto – O equilíbrio ritmado

Sinopse: França, início dos anos 1990. O grupo ativista Act Up está intensificando seus esforços para que a sociedade reconheça a importância da prevenção e do tratamento em relação a Aids, que mata cada vez mais há uma década. Recém-chegado ao grupo, Nathan (Arnaud Valois) logo fica impressionado com a dedicação de Sean (Nahuel Pérez Biscayart), apesar de seu estado de saúde delicado.

Dirigido por Robin Campillo, com estréia no Brasil no dia 04 de Janeiro, 120 Batimentos por Minuto tem provocado inquietação por onde passa, gerando comentários de todos os tipos, sobretudo depois de sua passagem pelo renomado Festival de Cannes, onde o presidente, jurado, e um dos diretores mais célebres do cinema, Pedro Almodóvar, acabou se emocionando diante da película, algo inédito na história do evento – diga-se de passagem-.

A trama se passa ao longo dos anos 90, e conta com um ponto realístico desde os primórdios de sua criação: Robin Campillo, diretor da obra, vivenciou o momento e parte da história retratada. Acontece que Robin integrou durante os anos 90 a Act Up, organização ativista que ao longo de anos de luta acabou sendo uma das grandes responsáveis pela democratização do acesso aos coquetéis, que na época se mostraram ferramentas importantíssimas não só para com o controle do HIV, mas sobretudo para a redução do número massivo de mortes que estavam se dando, decorrente da incapacidade dos tratamentos até então, de promoverem maior segurança para os indivíduos contaminados.

A grosso modo, poderia ser concluído que a trama do filme se propõe a falar sobre esse momento histórico, e sobre esse contexto específico de luta e de ativismo, numa busca intensa e quase visceral por mais reconhecimento da doença enquanto realidade, e da abertura dos tratamentos para a resolução do mesmo, contudo, depois das 2 horas e 20 minutos dedicadas diante da película, não é difícil perceber que esse resumo seria deveras reducionista. Muito além de se delimitar ao contexto e ao momento vivido, a história é sobre vivência, sobre resistência, e sobre sobrevivência.

São então esses basicamente os três termos definidores do trabalho: Vivência porque se propõe a configurar a experimentação da vida daquelas pessoas, tanto nos seus dramas pessoais e situações a nível individual, quanto ao contexto coletivo. Resistência porque o ativismo, as estruturas bem demarcadas de luta em prol de reconhecimento, e a presença evidente desse ímpeto e força para lidar com uma sociedade ainda formada em arquétipos e em esteriótipos, são ferramentas muito recorrentes na narrativa, e estruturam a base do enredo. Sobrevivência na medida em que muito além de que um conflito social, de uma experimentação coletiva em oposição a estruturas vigentes socialmente, existe também o retrato recorrente de pessoas que enfrentavam também o próprio vírus do HIV, compartilhando de uma força inata ao homem, que se projeta em busca de vida, de longevidade.

Um ponto desse movimento coordenado que foi introduzido e que mesclava essas três perspectivas, é que a atmosfera do filme, o desenvolvimento da câmera, a forma como os takes e a montagem foram trabalhados, e até mesmo o compasso rítmico construído através da trilha sonora e das atuações, conseguiram construir uma noção de unidade, muitíssimo bem costurada, dotada de detalhes e pontos bem individuais, mas que numa análise do todo geraram um espetáculo visual.

Uma outra grande qualidade é que o filme se mostra forte, e emocional, ainda que não se apegue a elementos de grande sentimentalidade, mesmo quando trás consigo a temática da morte e da perda. É que os seus personagens, ainda que individualmente definidos enquanto protagonistas, parecem servir como uma espécie de vitrine de realidade, e os ares mórbidos por trás da problemática acabam perdendo espaço, mesmo quando a mesma se faz presente. O que isso faz é ser permissivo com uma história que não nasce pra ceifar e sepultar vidas, mas sim pra explorar a grandiosidade da existência delas.

Dito isso, não seria surpreendente a nenhum de vocês que a recomendação a esse trabalho fosse imediata. Bem construído, desenvolvido, e surpreendentemente original nas escolhas de sua narrativa fílmica, 120 Batimentos por Minuto, ousaria dizer, é um dos melhores filmes dos últimos anos.


William Diniz

Um jovem estudante do cinema e de toda a sua complexidade, que se debruça diariamente diante daquilo que mais ama, e se entrega com eloquência a 7ª Arte. Aprendiz de cineasta, amante de uma profusão de diretores e pseudo cinéfilo.

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