Fala sério, mãe! – O clichê como recurso de vendas

Sinopse: Ângela Cristina (Ingrid Guimarães), mãe da adolescente Maria de Lourdes (Larissa Manoela), está  tendo a experiência de guiar sua filha durante uma das fases mais complicadas da vida. Ela vive uma montanha-russa de emoções, com medos, frustrações e um caminhão de queixas para descarregar. Por outro lado, Malu, como prefere ser chamada, também tem suas insatisfações. Embora teimosa, sofre com os cuidados excessivos e com o jeito conservador da mãe. 

O Brasil tem pouco a pouco mostrado um cinema forte, bem elaborado, com elementos muito significativos no que tange a linguagem fílmica, e que tem progressivamente chamado a atenção internacional para a qualidade do que é aqui produzido. Em 2017 tivemos filmes como Não Devore Meu coração, Gabriel E a Montanha, O Filme da minha vida, Bingo, Divinas Divas, dentre outros, que foram muito bem aclamados pela crítica, bem recebidos em grandes festivais, e alguns deles também apresentaram bons resultados de bilheteria. Tal crescente do cinema nacional termina por gerir uma expectativa grande ao redor do que é produzido, e o nível de eficácia cobrado começa a crescer, haja visto que os parâmetros se remodelam e passam a ganhar força e rigidez. No entanto, é preciso pontuar que nem sempre um filme tem que ser equiparado a outros na mesma linha de observação e de cobrança. Quando um trabalho é produzido, ele já se lança com uma determinada atmosfera por trás, dando a entender qual o público, a perspectiva desenvolvida pela equipe, e qual o caminho que vai ou não ser seguido ao longo da montagem da obra, o que serve, e muito, como critério e avaliação em uma boa crítica.

Dito isso, vamos ao ponto real. Fala Sério Mãe chega ao mercado como uma incrível proposta de compartilhar, de algum modo, uma história cujo o centro da narrativa se desenrola tendo como base a relação de uma mãe e de sua filha. Ainda que o livro não seja muito complexo ao longo de sua escrita, e que o enredo seja por si só demasiadamente raso, o que a produção fez foi ratificar massivamente um apanhado de esteriótipos, perspectivas generalizadas, e noções do senso comum, com o intuito único e objetivo de se infiltrar no imaginário das mães e filha do Brasil de um jeito onde em quase todos os lares, sobretudo no da família média, ele pudesse ser bem quisto.

Há um bom tempo que algumas figuras do audiovisual brasileiro entenderam que o formato cômico, de apelo levemente sentimental (sobretudo no final), associado ao desenvolvimento de uma história familiar, sem grande precisão de detalhes, e carregada de repetições e de figuras generalizadas, tem feito sucesso no cinema. Não é nenhuma surpresa que os filmes tendam, ao menos em uma determinada linha de produção, a ser produzidos com algumas dessas similaridades, contudo, a desonestidade da produtividade intelectual, associada a uma história superficial, sem grandes delongas, e completamente repetitiva não tem de ser aplaudida nem mesmo entendida como um sinônimo de êxito, independentemente da produção por trás desse processo, e/ou dos valores angariados pela bilheteria, e parece bem chocante que existam valores significativos sendo dedicados a esse tipo de projeto.

A fotografia do filme não salva a obra, haja visto que a narrativa foi promovida em ambientes simplórios, e os recursos aproveitados garantiram no máximo uma imagem de boa qualidade, mas nada muito além disso. A trilha sonora contou com uma canção própria, cantada pela atriz Larissa Manuela, que conseguiu se provar muito mais eficaz enquanto cantora do que como atriz necessariamente, sobretudo pela personagem mal desenvolvida, rasa, e quase produzida artificialmente. Ingrid Guimarães, por sua vez, deu o que foi lhe permitido dar. Tendo como base o desenvolvimento cômico forçoso que a obra toma, a atriz fez tudo dentro dos limites pra entregar uma personagem relativamente intensa, mais pelos seus dramas vividos individualmente, como o divórcio que teve de lidar e o intercâmbio da filha, do que necessariamente pelo contexto todo.

Enquanto crítico e brasileiro, é de fato muito entristecedor ter de lidar de forma tão severa com uma análise, mas investimentos consideráveis foram deslocados para esse projeto, que não passará de nada além de mais um filme para o grupo tão bem selecionado dos trabalhos construídos artificialmente para satisfação do público médio brasileiro, e que desconsideram que muito além de um emaranhado de indivíduos, o brasileiro é também individualmente existente, e ele tende a se sentir satisfeito também com um pouco mais de veracidade e de personalidade por trás de uma obra.


William Diniz

Um jovem estudante do cinema e de toda a sua complexidade, que se debruça diariamente diante daquilo que mais ama, e se entrega com eloquência a 7ª Arte. Aprendiz de cineasta, amante de uma profusão de diretores e pseudo cinéfilo.

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