Corpo e Alma – A simbologia bem aplicada

Sinopse: Uma história de amor que começou em sonho, literalmente. Numa dualidade entre o dormir e o acordar, dois indivíduos que não se conhecem têm sonhos exatamente iguais, e acabam se encontrando diariamente todas as noites nesse mundo paralelo de fantasia. Quando chega a hora de lidarem com a realidade, as coisas se mostram ainda mais complexas.

Escolhido como representante da Hungria pela corrida de melhor filme estrangeiro do Oscar, Corpo e Alma é dirigido por Ildikó Enyedi, diretora de cerca de oito filmes, nenhum deles com tanto destaque como o mais atual, que foi vencedor do urso de ouro, importante premiação que se dá no célebre Festival Internacional de Berlim.

A trama se desenvolve ao redor da problemática Mária, uma jovem mulher, inspetora de qualidade de um frigorífico, com indicativos evidentes de traumas em sua personalidade, que são evidenciados com maestria pela interpretação da atriz Alexandra Borbély. Tendo como base inúmeros elementos simbolistas, o filme desenvolve seu enredo em plano real, contudo, é no universo onírico vivenciado pela personagem, e assim como ela descobre posteriormente, por Endre, chefe da mesma na empresa na qual trabalha, que certos pontos da trama são de fato explorados.

Através dos múltiplos encontros que se dão ao longo da narrativa, seja no plano físico ou no plano onírico, é evidenciado a todo momento a dificuldade de Mária em estabelecer relacionamentos concretos e até mesmo simples com as pessoas que a cercam. Introspectiva, de caráter distanciado, com apelo antissocial evidente, e com um árduo problema de comunicação, a personagem parece promover continuamente uma caminhada isolada, até que pouco a pouco se estabelece uma proximidade entre ela e o seu chefe, que se dá justamente decorrente dos encontros que se dão em seus respectivos sonhos.

Os sonhos, por sinal, funcionam como um excelente elemento simbólico, haja visto que nos encontros ele está animalizado junto com ela, ambos em formato de cervos. Na opção pela animalização dos personagens, o roteiro corre o risco de ser mau interpretado, contudo, a execução das aparições e da forma que elas se dão é muito bem conduzida, o que acaba promovendo um resultado pontual, gerando a percepção de um contexto que fica melhor evidenciado, sobretudo porque a logística da disparidade de gênero parece que ganha um caráter mais contundente diante dessa perspectiva.

O grande problema do filme é a ideia de estender o roteiro, que ainda que promova algumas cenas interessantes e que servem pra fomentar de um jeito mais eficaz a psiquê da personagem, termina por gerar uma história mais longa, demasiadamente arrastada, e que no início parece ser forçosamente entediante. Naturalmente que qualquer telespectador que continue atento ao filme termine por perceber que o culminar da obra toma rumos inesperados, e acaba surpreendendo até mesmo aos mais ávidos dos observadores.

A fotografia é simples, com tons que se conversam em uma escala de branco com pastel, e que vez ou outra são submetidos a um choque de vermelho intenso, que inclusive é muito bem aplicado para construir uma percepção de intensidade, e fragilidade. A trilha sonora, por sua vez, é bem aplicada, e é continuamente utilizada como uma ferramenta não só de imersão da percepção da atmosfera fictícia, mas também tem valor evidenciado ao longo do universo fílmico.

Dito isso, Corpo e Alma se prova um filme surpreendente, que parece quase morto até o momento em que se debate e grita com o público. Uma trama pessoal, galgada em valores de uma psiquê problemática, e com um potencial enorme de mesclar elementos simbólicos com a realidade. Aguardo sinceramente por mais filmes de Ildikó Enyedi, e recomendo a todos vocês o contato com esse trabalho.

 

 


William Diniz

Um jovem estudante do cinema e de toda a sua complexidade, que se debruça diariamente diante daquilo que mais ama, e se entrega com eloquência a 7ª Arte. Aprendiz de cineasta, amante de uma profusão de diretores e pseudo cinéfilo.

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