Star Wars – Os últimos Jedi, e a força por trás da nostalgia

Sinopse: Após encontrar o mítico e recluso Luke Skywalker (Mark Hammil) em uma ilha isolada, a jovem Rey (Daisy Ridley) busca entender o balanço da Força a partir dos ensinamentos do mestre jedi. Paralelamente, o Primeiro Império de Kylo Ren (Adam Driver) se reorganiza para enfrentar a Aliança Rebelde.

Com cenas memoráveis, um retorno evidentemente eficaz a perspectiva de outros personagens, e com uma atmosfera moderna por trás da construção, Star Wars – Os últimos Jedi, se mostra uma obra equivalente ao esperado, ainda que a pontualidade talvez tenha sido uma percepção escassa na concepção do diretor, Rian Johnson.

Quando se propõe ao trato e desenvolvimento de um trabalho abertamente adorado, com um número gigantesco de filmes já produzidos, e com uma história célebre bem demarcada, um diretor compreende que realizar uma boa direção é ter a sensibilidade de perceber o valor dos elementos antigos, ao mesmo tempo em que introduz a sua própria percepção e sua marca. Nesse aspecto, Rian Johnson se provou eficaz, por construir e desenvolver um universo que foi respeitoso, e fidedigno aos outros filmes, mas ainda assim floreando-o com novas personagens, novas dimensões desse espaço, e com o nascimento de novas histórias. Analisando por essa via, a originalidade do diretor não foi em momento algum de oposição ao que foi contado anteriormente, ainda que as novas personas que surgiram ao longo da trama, corroboraram pra compreensões diferenciadas daquele mesmo universo, através da reestruturação da balança de poder, e dos dilemas e contendas ao longo da trama.

Com uma trama onde os personagens principais acabaram por ser, inquestionavelmente, Princesa Leia e Luke Skywalker,  a história acaba pecando por muitas vezes recorrer a esse retorno do imaginário coletivo, se valendo de nostalgia como ferramenta de força para o envolvimento. Se baseando numa logística que postergou o filme, e que culminou com uma película que no final chegou a quase 3 horas, o tempo teve que ser tão estendido para que fosse permissivo a esse passeio entre o universo presente e passado, que ainda que estivessem juntos em um aspecto espacial, apresentavam rupturas de perspectiva, uma vez que diante de vários momentos, foi apresentado ao telespectador determinadas referências, alegorias, e cenas, que se voltavam totalmente aos outros filmes, e que serviam mais para coroar os antigos personagens, do que necessariamente para o desenrolar da trama.

Além disso, o roteiro deixou a desejar em alguns aspectos, como por exemplo no completo descaso que foi feito com um vilão que parecia ter potencial, e não só isso, que foi super valorizado pelo próprio filme. Lorde Snoke foi mal aproveitado, e sua existência foi tratada como um mero acontecido, haja visto que o filme não se deu ao trabalho de nos revelar sua história, ou de desenvolver melhor o que levaria a morte da personagem. Ficou claro que a presença dele em si, foi gerada para justificar um crescimento do personagem Kylo Ren, contudo, foi falha a forma como isso foi realizada, trazendo uma espécie de vazio na narrativa, culminando numa sensação de dúvida na cabeça do telespectador. Somado a esse problema, estava a ausência de explicações para alguns personagens e para suas criações. Surge ao longo da trama um arco amoroso entre o personagem Finn e uma outra figura, Rose. Esse arco não foi bem construído, e não apresentou qualquer sinais de que estava sendo trabalhado, de tal modo que só foi devidamente compreendido que ele estava acontecendo quando os personagens subitamente se beijaram.

Foi também um incômodo a forma como foi trabalhada Kylo Ren, que estranhamente se estabeleceu como a grande força de oposição, como o grande antagonista, mas que ainda assim era completamente dotado de inseguranças, sem força para crescimento da personalidade, sem maior participação efetiva da sua história, apenas com a introdução forçosa de um “vilão”, que muitas vezes remetia mais a uma criança mimada descontrolada do que a um líder supremo em estágio de dominação do universo.

A direção foi ao meu ver, eficaz, haja visto que grande parte desses problemas nascem mais numa falha de roteiro, do que de qualquer outra parte. As interpretações foram positivas, e a entrega de personagens por partes dos atores foi em sua maioria muito boa. A fotografia foi fenomenal, e muito me maravilha a oportunidade de falar sobre isso, porque esse sem sombra de dúvidas foi um ponto alto do filme, que foi evidenciado em cenas mais internas, como na que coincide em um momento conflituoso entre Ray  e Kylo, e também em momentos mais abertos, quando a muito bem trabalhada Vice-Almirante Holdo toma uma decisão surpreendente. Ademais, a trilha sonora também se provou pontual, corroborando pra percepção do universo e das situações desenvolvidas ao longo da obra.

Dito isso, gostaria de evidenciar que não foi a mim desagradável a experiência, e indicaria sem sombra de dúvidas a inúmeras pessoas esse filme. Contudo, enquanto crítico e profissional que está diretamente ligado ao cinema, encontrei e evidenciei algumas falhas como pode ser visto acima, mas isso ao meu ver, são detalhes que precisam ser considerados a nível particular, que terminam por interferir na percepção alheia da obra, mas que ainda assim não são suficientemente relevantes para ceifar o trabalho, ou reduzir o valor do filme. Espero que todos se deliciem com Star Wars – Os últimos Jedi, que promete trazer bastante alegria pros corações nostálgicos dos fãs, e pro público novo da saga.


William Diniz

Um jovem estudante do cinema e de toda a sua complexidade, que se debruça diariamente diante daquilo que mais ama, e se entrega com eloquência a 7ª Arte. Aprendiz de cineasta, amante de uma profusão de diretores e pseudo cinéfilo.

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