Em Busca de Fellini e a inocência idealizada

Sinopse: Lucy (Ksenia Solo) completa 20 anos como uma jovem extremamente tímida, grudada na mãe (Maria Bello), que pouco sai de casa e dedica a maior parte do tempo a rever clássicos do diretor Federico Fellini. A grande oportunidade de sair do mundo da fantasia em que sempre viveu se dá numa viagem de autodescoberta à Itália, onde ela visita cenários de seus filmes favoritos e descobre o amor.

Dirigido por Taron Lexton, e com estréia pro dia 07/12 no Brasil, a obra se propõe a apontar uma jornada de auto descoberta da personagem Lucy, tendo como base o imaginário vasto dos trabalhos do grande diretor Francisco Fellini. Reducionista, o roteiro não só se infla de concepções forçosas pra favorecer o desenrolar da trama, como também se sente confortável com a retirada indevida do real valor do trabalho de Fellini, afastando a grandiosidade do cinema italiano do seu âmago, e aproximando-o de uma realidade de simbolismo e mistério, que parece uma mistura mal elaborada entre o universo de Tim Burton com a atmosfera onírica do filme Amor Além da Vida, com Robin Williams.

A premissa básica considera Lucy como uma personagem demasiadamente resguardada, mas na tentativa de criar essa identidade de uma pessoa que foi super protegida, a direção leva-a para caminhos muito convencionais, e a menina absolve um espectro de ingenuidade que chega a ser fantasioso e idiota. Não que no mundo real não existam pessoas que tenham sido super protegidas, mas numa instância mais realística, a trama deveria ser mais pontual com a própria consideração da inteligência da personagem, que baseado no que ela mesmo desenvolve ao longo do filme, teria sido considerada como suficientemente capaz de ser algo além de infantil e inocente.

O roteiro não correlaciona um olhar negativo/doutrinador na criação da adolescente, no entanto, a sensação mais recorrente é que ela não foi só bem cuidada, como também castrada no sentido de liberdade. Tudo se desenvolve no cerco de suas experimentações individuais, e a partir de um encantamento com o cinema de Felline, e uma emancipação tardia, que a garota se joga em rumo a sua jornada.

A construção narrativa fílmica é fraca, e isso é decepcionante, contudo, a execução de algumas cenas é muito satisfatória, o problema é que o telespectador se vê duvidoso quanto a necessidade da mesma, e da correlação entre ela e o resto do filme. Além disso, existe uma introdução de diálogo que não acompanha muitas vezes o rumo que a sentimentalidade toma ao longo da obra, o que corrobora para que pareça que sempre existe a sobreposição da perspectiva fortemente abalada emocionalmente, mesmo que ela não caiba ali necessariamente.

A trilha sonora é um ponto muito positivo, e isso é completamente evidente, porque é conferido justamente ao som o papel de induzir a essa percepção onírica e de auto descoberta que é tão almejada pelo diretor. A fotografia falha quando comparada a proposta originária do trabalho, mas isoladamente ela é eficaz, na medida em que oscila de acordo com as experimentações vivenciadas pela personagem.

A proposta toma rumos entristecedores na corrida final, quando a personagem começa a se portar de um modo mais condizente com sua realidade e com sua vida, depois que passar por uma experiência de abuso, o que promoveu uma correlação lógica horrível, porque associou o único arco de crescimento a uma atitude empobrecedora e violenta.

Dito isso, o filme parece um rumo direto a possibilidade, a uma quase vida adulta, em um mundo que quase homenageia Fellini, com um roteiro quase suficiente. Se você é apaixonado por cinema e gosta de ser permissivo com as experimentações, super recomendo, mas se pra você um filme tem que ser muito maior que um “quase”, pra valer a pena, então é melhor ficar em casa e baixar os filmes de Fellini, garanto que são mais eficazes.

 


William Diniz

Um jovem estudante do cinema e de toda a sua complexidade, que se debruça diariamente diante daquilo que mais ama, e se entrega com eloquência a 7ª Arte. Aprendiz de cineasta, amante de uma profusão de diretores e pseudo cinéfilo.

"O cinema é um modo divino de contar a vida"
Federico Fellini

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