Gabriel e A montanha – Entrevista com o diretor Fellipe Barbosa

Gabriel e A Montanha é um dos filmes brasileiros mais comentados do ano, ganhador de inúmeros prêmios incluindo dois deles no Festival de Cannes, um dos mais conhecidos do mundo do cinema. A história, em grosso resumo, se propõe a contar sobre as últimas experiências vivenciadas por Gabriel Buchmann, até então formado em Economia pela PUC, que decidiu dar uma volta ao mundo antes de dar continuidade a sua carreira acadêmica, a qual ele iria desenvolver na UCLA, renomada universidade americana. A obra aborda com uma sensibilidade evidente as experimentações do rapaz, e o que ela carrega em maior evidência na correlação com o diretor Fellipe Barbosa, é o fato de que Gabriel foi na verdade um antigo colega de escola do mesmo, tendo ambos estudados juntos durante um tempo. O Cinerama, tal qual plataforma de divulgação de conteúdos relacionados ao cinema, procurou o diretor Fellipe Barbosa, e o resultado desse encontro vocês podem ler logo abaixo.

 

 

“…mas acho que talvez esse ponto em comum seja talvez uma sensação de não pertencimento , ou de não adequação. E nesse sentido tentar criar uma realidade, criar um mundo, uma realidade mais agradável, onde cada personagem possa ser mais feliz, talvez seja esse o ponto de encontro.”

William Diniz: Você enxerga algum tipo de relação entre as temáticas abordadas nos seus diferentes filmes? Quero dizer, Casa Grande voltado a perspectiva de uma elite decadente, Laura de algum modo correlacionada a esse ideário de uma realidade elitizada, em Kiss Salt é observável a quase recusa da aceitação de um estilo de vida mais voltado para o ambiente doméstico, uma constante negação a realidade e um apego saudosista a um estilo de vida libertino. No âmago, essas três obras acabam se relacionando na temática da aparência, daquilo que é quase ilusório ou quase intangível. Você acha que Gabriel e a Montanha também resgata isso? Essa relação intensa com a possibilidade mas nunca com a efetivação realística dela.

Fellipe Barbosa:
É bem interessante essa pergunta, me fez refletir, não tinha pensando sobre isso, mas acho que talvez esse ponto em comum seja talvez uma sensação de não pertencimento , ou de não adequação. E nesse sentido tentar criar uma realidade, criar um mundo, uma realidade mais agradável, onde cada personagem possa ser mais feliz, talvez seja esse o ponto de encontro. Mas é o que você falou também né? da ilusão no caso, da projeção de uma ilusão. Todos os personagens tem uma certa dificuldade de aceitar a realidade deles, então precisam construir uma nova. E no Gabriel é se reinventar…a viagem é uma oportunidade de se reinventar, e é muito interessante que a Cris (namorada do Gabriel), traz justamente o passado dele, do qual ele está fugindo…Acho que o que tem em comum entre todos eles, é que são inspirados em pessoas que eu conheço, ou no caso eu mesmo, minha família, em Casa Grande. Laura, alguém que eu conheci e me fascinou, Rogério, do Beijo de Sal, alguém que eu conheci e me fascinou; escrevi o Beijo de Sal pra ele, inclusive. E eu achava que era um filme sobre territorialidade, sobre esse homem que acha que tem direito sobre tudo e sobre todos. Queria mostrar todo charme e toda confusão desse cara, que era alguém que me fascinava muito. Laura, alguém que está sempre tentando construir uma realidade, vivendo outra realidade, e ela me remetia muito a grande personagem de cinema, do próprio Otto Preminger (se referindo ao diretor do clássico filme Laura de 1944), onde o detetive tenta revelar os mistérios dela para se estabanar no fim, assim como eu em relação a Laura, e Casa Grande muito daquele menino que não aceita que aquele muro seja o limite, da sua realidade, daquele condomínio, e quer se reinventar.

“…Foi a fase mais importante, mais feliz da minha vida, foi quando eu realmente estava realizando um sonho muito antigo de estudar cinema, e tava aproveitando cada segundo daquilo, e produzindo muito…”

William Diniz: Você é mestre pela Universidade de Columbia. Você diria que ingressar no âmbito acadêmico foi importante para o desenvolvimento das suas habilidades enquanto profissional do cinema, ou o tipo de conhecimento adquirido acaba se delimitando ao espaço da academia, haja visto que é muito teórico?

Fellipe Barbosa: Foi fundamental, foi a fase mais importante, mais feliz da minha vida, foi quando eu realmente estava realizando um sonho muito antigo de estudar cinema, e tava aproveitando cada segundo daquilo, e produzindo muito…só que, ao contrário do que você disse, não foi nada teórico. É um mestrado que foi muito prático mesmo, a gente colocava muito a mão na massa com muito pouco recurso, e produzimos muitos curtas, e escrevíamos muitos roteiros, dirigíamos muitos atores em aula. É um MFA como eles chamam, Master Fine Arts, que é muito mais voltado pra prática da arte, no caso o cinema, mas engloba várias disciplinas das artes. A gente tinha teoria na Columbia, no MFA, mas o grosso mesmo era a prática, era fazer cinema, e fazer cinema num ambiente totalmente protegido, onde a gente tinha a liberdade de criticar um ao outro, e onde eu tive mestres inesquecíveis que foram fundamentais pra minha formação, enfim, alguns dos mestres mais importantes que eu tive né, porque  gente continua tendo mestres. Eu continuo tendo referências no trabalho, na vida, mas sem dúvida alguma a Columbia foi muito importante pra mim…E sobretudo foi o playground onde eu pude compreender o que eu fazia melhor e me apaixonar por isso, ao invés de tentar emular um tipo de cinema que eu sempre amei. E acho que finalmente, o que eu faço, não reflete o cinema que eu mais amo, mas reflete o que eu descobri que eu poderia fazer melhor, e esse momento se deu na Colúmbia, quando alguns professores me indicaram, e foi esse incentivo que foi importante, esse tipo de movimento. Buscar me apaixonar por aquilo que eu sabia fazer bem, pra um tipo de cinema que vinha naturalmente pra mim, ao invés de tentar emular um cinema que eu gostava.

“Foi uma forma de tentar corrigir isso, o filme. Entender os últimos passos dele exaustivamente, refazendo os passos através de anos e anos de pesquisa, e chegando ao filme, que talvez fosse uma expressão de um desejo maior dele, de compartilhar a experiência com os amigos, com os outros, com o mundo até, como foi.”

 

William Diniz: Em uma entrevista a Glamurama, em 2014, você disse que escrever Casa Grande foi, em suas palavras, “uma forma de corrigir essa ausência”, enquanto se referia a crise financeira vivenciada pelo seu pai. Gabriel e a Montanha carrega também elementos tão íntimos e pessoais? Sendo sim a resposta, você acha que relatar a nossa história de um jeito tão expositivo não é sempre um exercício de corrigi ausências?

Fellipe Barbosa: É, mais uma vez você chegou na essência. Também foi uma forma de correção de ausência, com o Gabriel, porque eu perdi o contato com ele em 2000 quando saí da PUC e fui estudar em Hofstra. A gente não tava no mesmo ano da PUC, porque no penúltimo ano no São Bento, Gabriel foi fazer um intercâmbio na Dinamarca, e aí quando ele voltou, ele preferiu repetir. O Reitor do colégio na época, o Dom Lourenço, deu a oportunidade dele ficar na mesma série que a gente, mas ele preferiu refazer porque pra ele não fazia sentido deixar de aprender aquele ano letivo, e o Gabriel era brilhante, tanto é que ele foi o 1º geral na PUC em Economia, no ano seguinte ao que eu entrei, então a gente pegou seis meses juntos na PUC, do total de um ano e meio que eu fiz. Ele foi meu calouro na PUC, depois de seis meses eu fui pros Estados Unidos pra Hofstra, com essa bolsa do Institute of International Education. Acabei indo pra lá entre 19 e 20 anos, e perdi o contato com o Gabriel, que continuou a pesquisa acadêmica dele em Economia, embarcou em um mestrado e tinha acabado de conseguir uma bolsa para ir pra UCLA, depois de fazer pesquisa na FGV, trabalhando alguns temas bem interessantes, como Economia da Felicidade. Eu voltei pro Brasil em 2008, quase 9 anos depois, quando o Gabriel tinha acabado de partir pra viagem dele ao redor do mundo, e a gente perdeu o contato, e logo em seguida se desencontrou…e aí ele desapareceu em Julho de 2009, quase um ano depois. Quando ele desapareceu eu fui pesquisar os emails das nossas últimas correspondências, e a última delas havia sido um que ele enviou para a lista do São Bento, mas que era na verdade endereçada a mim. No e-mail ele dizia que estava indo para Nova Iorque e que queria muito me ver. Nesse momento eu muito provavelmente não estava conferindo todos os emails porque a depender do trabalho que eu tinha, não acompanhava muito, e eu acabei não vendo, já que ele não me escreveu diretamente. Evidentemente que eu me senti muito mal, muito culpado, porque eu adoraria tê-lo visto em Ny, enfim, nesse sentido faz todo o sentido o que você falou, no sentido da ausência, de ter o reencontrado e pedido desculpas por esse tempo, talvez. Foi uma forma de tentar corrigir isso, o filme. Entender os últimos passos dele exaustivamente, refazendo os passos dele através de anos e anos de pesquisa, e chegando ao filme, que talvez fosse uma expressão de um desejo maior dele, de compartilhar a experiência deles com os amigos, com os outros, com o mundo até, como foi.

“…mas a gente esperava mais, todos esperávamos mais em termos de bilheteria, em termos de alcance, e por mais que o filme esteja sendo visto, acho bastante estranho que provavelmente ele vá fazer menos do que ele fez na França.”

William Diniz: Me fala um pouco sobre Cannes. Como foi pra você estar vivenciando esse que é uma das maiores referências de festival de cinema? Existia em você algum sentimento de nacionalismo ao se ver enquanto brasileiro a representar todo o povo, haja visto que você foi o único brasileiro indicado?

Fellipe Barbosa: Cannes foi muito bom, foi um momento de celebração, e de reunião com pessoas queridas e importantes que realizaram esse filme comigo. Não foi especialmente bom ser o único brasileiro, preferia que houvesse mais, uma representação maior do cinema brasileiro. O único não me interessa tanto, mas posso dizer que a experiência foi muito única porque estávamos ali, equipe, parte do elenco, vivendo aquilo, tendo a estréia na maior vitrine de festivais de cinema do mundo. Um lugar lindo, que é a semana da crítica, super pequeno, super especial, onde só se mostra primeiro e segundo longas, e depois ter o reconhecimento de dois júris distintos que nos deram prêmios, e daí partir pra uma distribuição na França, onde eu estive muito presente, fiz um tour em diversas cidades francesas, o filme foi visto por mais de 85 mil espectadores lá até hoje, lançado no dia 30 de Agosto, foi incrível. É muito bom representar o Brasil nesses eventos, a gente se sente muito orgulhoso, evidentemente, mas não sei o quanto os brasileiros se sentem orgulhosos de nós, porque a gente ganhou dois prêmios em Cannes, mas e aí? O que está acontecendo com o filme hoje? Ele ta sendo super bem falado, super bem recebido, apesar de sempre ter alguns detratores…mas a gente esperava mais, todos esperávamos mais em termos de bilheteria, em termos de alcance, e por mais que o filme esteja sendo visto, acho bastante estranho que provavelmente ele vá fazer menos do que ele fez na França. Não sei se existe muito esse nacionalismo entre os nossos pares (as pessoas que trabalham com cinema brasileiro), porque os exibidores não botam fé, os grandes distribuidores não botam fé…A gente tem um distribuidor fantástico, que está fazendo um trabalho excelente, que é a Pagu, que é uma nova distribuidora, que tem feito uma campanha muito forte, que está dando resultado, mas que mesmo assim o mercado ainda está muito difícil pra gente, pros filmes brasileiros, e eu acho que é também porque falta nacionalismo, acho que falta protecionismo, e falta também algo, que eu não sei o que é.

“…até porque é uma competição bem injusta, uma vez que a gente tá competindo com filmes que tem orçamentos duzentas vezes maior do que o nosso pra fazer marketing, divulgação, etc…A gente não consegue nem chegar a população, porque tem uma massa de dinheiro trazendo as produções de hollywood pro povo.”

 

William Diniz: Na sua percepção, existe alguma dificuldade maior quanto a promoção e valoração das produções brasileiras? Em um ano com filmes como Bingo, O filme da minha vida, Não Devore meu coração, e Como Nossos Pais, o cinema brasileiro, ao seu ver, recebe a devida atenção internacional ou ainda existe uma concentração desse foco nos países mais proeminentes na indústria?

Fellipe Barbosa: Acho que falta valoração pelos exibidores, pelos brasileiros. Eu to aqui em Pelotas agora filmando o Domingo (novo projeto), se eu não tivesse em Pelotas, no Rio Grande do Sul, há um tempo já, pré-produzindo esse filme, tendo conhecido pessoas daqui, o Gabriel e a Montanha certamente não teria entrado no cinema daqui, mas ele entrou porque a gente tá presente há um tempo, e conhece gente daqui, e fizemos ligações para o filme entrar, aproveitar a nossa presença, haja visto que tem muita gente da equipe de Gabriel e a Montanha no Set, então a gente organizou uma sessão pra conseguir estrear…e aí o filme ficou duas semanas em cartaz aqui, e essa semana tem cinco salas, duas são ocupadas pelo Liga da Justiça e três pelo Thor, e a gente não tem um horário se quer nas salas… então isso deve estar acontecendo no resto do Brasil inteiro, e isso é muito triste, e é muito absurdo que esteja acontecendo desse modo. Que estejamos produzindo tantos filmes, que estejamos vivendo um momento de ouro, de glória na produção, que é o sonho de várias gerações anteriores a nossa, que a gente tá conseguindo usufruir disso, produzindo, produzindo, produzindo, mas que não tenha nenhum mecanismo de controle pra proteger os filmes brasileiros no mercado de exibição. Tem as cotas né, que são observadas com as comédias principalmente, mas não tem nenhum equivalente do que se coloca na produção na exibição, no sentido de subsídios pro ingresso, até porque é uma competição bem injusta, uma vez que a gente tá competindo com filmes que tem orçamentos duzentas vezes maior do que o nosso pra fazer marketing, divulgação, etc…A gente não consegue nem chegar a população, porque tem uma massa de dinheiro trazendo as produções de hollywood pro povo. Deveríamos estar principalmente capacitando gente para ocupar esses espaços, ocupar cinema, ocupar salas, e fazer um trabalho verdadeiro de comunicação, de formação de público, através de parcerias com escolas locais, levando gente pro cinema. É um processo que precisa de gente, precisa de gente interessada em fazer isso, precisa de cinéfilos, pessoas que amam o cinema, que tem muitas por aí no país, ocupando lugares, e sendo capacitadas para ocupar esse espaço, porque é um espaço oco, que não existe. Tem alguns amantes de cinema espalhados por aí fazendo pequenos milagres, mas não tem um incentivo a isso. Isso é uma coisa muito séria, e precisa ser feito isso. A gente precisa de Embaixadores, de pequenos embaixadores em diversos lugares nesse país gigantesco, fazendo chegar no público, criando o público, formando o público, e essas pessoas precisam ser capacitadas. Essa é uma conversa muito longa, porque realmente a gente é massacrado, e é uma pena porque muitos filmes podiam chegar a muito mais gente no país, se as pessoas soubessem da existência deles. Eu converso com gente em vários lugares do Brasil que nunca ouviram falar do Gabriel E a Montanha, o único filme brasileiro que esteve em Cannes…Mas a gente tem recebido muita atenção internacional, a nossa presença em festivais internacionais tá cada vez maior.

William Diniz: Por fim, o que esperar dos novos projetos de Fellipe Barbosa pro ano que vem?

Fellipe Barbosa: Pro ano que vem eu espero lançar o Domingo, filme cujo o roteiro é de um amigo meu, o Lucas Paraizo, e é o filme que eu estou fazendo agora, e está se mostrando ser uma comédia, mas uma comédia social, com alguns picos de alta tensão, e to bem ansioso quanto a ele. Estou com outros dois projetos, e são ambos mais internacionais, e me tirariam do Brasil por mais um tempinho, e eu prefiro não falar sobre eles agora, mas enfim, não é que eu tenha um desejo consciente mas a vida tá me levando agora pra fazer coisas fora do Brasil, e talvez, quem sabe, trabalhar com algumas estrelas dos meus sonhos.

.

Etiquetas: , , , , ,


William Diniz

Um jovem estudante do cinema e de toda a sua complexidade, que se debruça diariamente diante daquilo que mais ama, e se entrega com eloquência a 7ª Arte. Aprendiz de cineasta, amante de uma profusão de diretores e pseudo cinéfilo.

"O cinema é um modo divino de contar a vida"
Federico Fellini

© 2018 Cinerama Clube.

Todos os direitos reservados.

CONTATO | ANUNCIE

Developed By: Vedrak Devs