Crítica | Entre irmãs – A emotividade por trás do duo

Ambientado em um Brasil dos anos 30, o mais novo filme de Breno Silveira se propõe a demonstrar a dualidade entre a realidade vivida por duas irmãs nascidas em Taquaritinga do Norte. A divulgação do filme deu a entender que a obra era voltada para as diferenciações e experimentações que ocorriam de modo individual entre duas pessoas diferentes, contudo, com um roteiro absurdamente longo, e com uma duração média de cerca de 2 horas e 40 minutos, Entre Irmãs acaba sendo um pouco demais no que não desejava, e um pouco de menos no que de fato era necessário.

Com um enredo demasiadamente longo, o diretor acabou se perdendo ao longo da própria história, e acrescentando micro enredos numa narrativa que chega em alguns momentos a dar sinal de que não vai acabar.

 O roteiro é sem sombra de dúvidas uma das partes mais importantes da construção cinematográfica, de modo que a introdução de uma perspectiva mais ampla, carregada de acontecimentos e de possibilidades, pode ser tão prejudicial para uma obra quanto a falta de inventividade, e é justamente pelo excesso que Entre Irmãs termina por não obter tanta eficácia quanto poderia.

Ao evidenciar de modo paralelo os acontecimentos da vida das personagens Emilia (Marjorie Estiano) e Luzia (Nanda Costa), Breno Silveira tentou criar um ponto de equiparação entre as realidades vividas por elas, mas com a introdução exagerada de eventos ao longo da trama, acabou por não conseguir estabelecer paralelos de um jeito tão eficaz na linguagem cinematográfica, de tal maneira falho que em alguns momentos poderia até ser esquecido pelo telespectador que as histórias delas estavam, de algum modo, conectadas.

A fotografia do filme, por sua vez, que oscilava entre retratos panorâmicos do sertão e takes da agitada vida no Recife dos anos 40, não deixa a desejar quanto a sua execução, sempre baseada em tons característicos sob uma perspectiva realística, que foi fidedigna ao contexto na hora de evidenciar o contraste entre os diferentes locais. De atmosfera regionalista, o filme acaba por ser muito convencional em relação a certas assertivas, como por exemplo na linearidade da vida de ambas, ou no destino incutido as mesmas, que reforçava uma idealização do que se compreende do sertão, e/ou da capital, galgada em concepções do senso comum, o que diminui um pouco a imprevisibilidade que poderia ser conferida originalmente, porém, ao longo da narrativa são também construídas situações que demarcam uma autenticidade bem significativa no que diz respeito a filmes brasileiros de época, que tendem a se delimitar a uma visão mais conservadora.

Quanto a atuação, Marjorie Estiano e Nanda Costa foram altamente pontuais nas suas personagens, ainda que gere um certo incômodo porque deu a entender que ambas, na representação respectiva de cada uma das irmãs, estavam reproduzindo um papel que as colocava na zona de conforto, principalmente por conta das personalidades adotadas.
Um ponto que destoa, e que incomoda, é a trilha sonora que foi muito mal trabalhada. Não que a musicalidade tenha sido mal pensada, mas a forma como o diretor optou por utilizar a música, acabou sobrecarregando algumas cenas, o que comprometeu um resultado final.

Emocionante, sensível, longo e um pouco demasiado, Entre irmãs pode não ser a grande obra do cinema brasileiro de 2017, mas é um obvio representativo de que a cinematografia nacional tem crescido, e que caminha vagarosamente em direção a filmes cada vez melhores.

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William Diniz

Um jovem estudante do cinema e de toda a sua complexidade, que se debruça diariamente diante daquilo que mais ama, e se entrega com eloquência a 7ª Arte. Aprendiz de cineasta, amante de uma profusão de diretores e pseudo cinéfilo.

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