Crítica | “It Comes at Night” Ao Cair da Noite

Ao Cair da Noite é um filme que tem todos os ingredientes para falhar com o público Brasileiro. Não foi escrito e dirigido por um grande nome, não possui em seu elenco rostos conhecidos e a narrativa foi mal posicionada, o expectador procura o filme com uma coisa em mente e acabam lhe entregando outra. Para tentar corrigir essa lacuna vou usar esse espaço do Cinerama para te pontuar dois motivos, somente dois, que você deve assistir a este filme.

Crível

Um erro comum é confundir um filme crível com um filme realista, quando na verdade, tratam-se de dois aspectos distintos.

Crível é um elemento que sustenta qualquer roteiro e torna a narrativa interessante, como? Amarrando a narrativa em uma realidade estabelecida dentro do próprio filme.

Se você acompanhou as reclamações dos últimos episódios de Game of Thrones você consegue entender onde eu quero chegar, uma vez que a trama estabelece certas regras, um filme para ser crível deve obedecer a estas regras.

Para exemplificar melhor eu vou precisar que você conheça dois filmes; qualquer um da trilogia O Senhor dos Anéis e qualquer um da trilogia O Hobbit.

Embora todos eles sejam dirigidos pelo Peter Jackson é inegável que a história funciona muito mais em o Senhor dos Anéis e um dos principais motivos é que eles são críveis; em O Senhor dos Anéis o diretor teve um cuidado muito maior na hora de construir os pontos fortes e fracos dos seus personagens, então quando as cenas de ação chegaram você já sabia instintivamente quais eram os perigos em jogo  – marca de um grande Diretor, te incutir uma informação sem ser de forma explícita.

Já na trilogia de O Hobbit nenhuma cena de ação funciona – eu não preciso ter medo de ser tão abrangente, nenhuma cena de ação funciona – porque neste caso o Peter não teve qualquer cuidado com seus personagens, ele apenas os jogou em uma aventura digna de vídeo game e você assiste a tudo sem qualquer apego emocional.

 

Onde eu estou indo parar com essa volta toda?

Ao Cair da Noite é, além de diversos outros fatores, um filme crível. Suas personagens obedecem a regras estabelecidas e bem organizadas, cada cena é uma confirmação da anterior. Não existem “atalhos” de narrativa aqui (atalho de narrativa é quando um roteiro acaba deformando a história ou fazendo algo rápido demais para poder chegar até um resultado)

Um filme sem exposição

Exposição é um dos termos usados para descrever quando um filme explica a si mesmo. Basta tentar entender o seguinte conceito:

Amanda chegou a casa, estava cansada e triste, tomou um banho, sentou na cama e chorou.

OU

Amanda girou a chave com dificuldade, seus passos eram lentos, procurou o caminho até banheiro, o corredor era escuro e seus pés encontraram dificuldade para vencer o caminho até lá. Os ombros e o corpo estavam curvados, seja em baixo do chuveiro, seja na hora que ela sentou na cama. A água quente procurava acalmar seus músculos, a água dos olhos procurava acalmar o que restava.

Reparou que são dois modos de dizer praticamente a mesma coisa, mas uma delas é muito mais interessante? Eu diria mais, uma delas dá mais trabalho, contudo, a recompensa também é muito maior. Na primeira você sabe que a garota está triste, só que, honestamente, não se importa muito com ela, já no segundo exemplo, a simples construção da cena torna o sentimento muito mais palpável. Eu poderia dizer que o primeiro exemplo é uma exposição básica “ela está triste, nós temos que correr, meu filho está com medo, eu vou te matar”, já o segundo exemplo é um uso mais coerente da exposição, onde o público deve organizar tudo por si mesmo.

Ao Cair da Noite é um filme que obedece ao segundo exemplo, ele não tem nenhuma exposição evidente, nada que estique o braço até o expectador e diga, “ei ei, a causa disso aqui é aquilo ali tá”.

Por que assistir?

Porque filmes difíceis dão mais prazer, é muito fácil assistir a um Slasher e entortar os dedos do pé mais por nojo do que por medo, e aí alimentar a uma indústria já abarrotada de genéricos; eu acho que seria uma boa dar uma oportunidade para um filme fora do padrão, talvez ao final a recompensa seja muito maior do que assistir aquele “manjadinho-auto-explicativo-jump-scare-XXV-a-revanche”.

Etiquetas: , , , , ,


Vinicios Lombardi

Estudante de jornalismo, escrevo por compulsão e vejo filmes pelo mesmo motivo, às vezes é o contrário. Me arrisco em curtas metragens, até já me deixaram gritar "corta" e me chamaram de diretor em um set de filmagem, vai entender.

"O cinema é um modo divino de contar a vida"
Federico Fellini

© 2018 Cinerama Clube.

Todos os direitos reservados.

CONTATO | ANUNCIE

Developed By: Vedrak Devs