Crítica | Menina de Ouro “Milion Dollar Baby”

 

Ficha tecninca:Diretor: Clint Eastwood
Roteirista: Paul Haggis e F.X Toole
Elenco: Hilary Swank, Clint Eastwood, Morgan Freeman

 

Clint Eastwood tem um percurso instável para dizer o menos, com mais filmes medíocres do que bons há claro sempre algumas exceções a regra, sendo a maior delas Milion Dollar Baby, um filme que consegue superar o seu género e o melodrama e tornar-se quase que num hino dedicado a todas as mulheres.

Tudo se joga em sobriedade e economia de meios, tudo se joga na concentração e progressão da narrativa – mas ao mesmo tempo tudo se joga também num constante pingue-pongue entre a transparência (a sensação de que se vê tudo e se sabe tudo o que há para ver e saber) e a obscuridade (a sensação oposta: a de que não se vê nada nem se sabe nada, do que é verdadeiramente importante, pelo menos). Pequeno exemplo anedótico: em “Million Dollar Baby” há incontáveis referências à relação entre a personagem de Eastwood e a sua filha, sempre ausente do filme; percebe-se que essa relação (ou algo que aconteceu a essa relação) é causa de grande inquietação, e que muito da relação entre a personagem de Eastwood e a de Hilary Swank tem origem nessa incomodidade. Pois bem, digamos assim: como espectador, é uma alegria imensa perceber que se chega ao fim sem que nada, absolutamente nada, dessa questão tenha sido explicitado. O que aconteceu ninguém sabe – é o mistério, é o pudor da biografia. Sabemos apenas que a personagem de Eastwoodn corre (e faz correr) em busca de uma pacificação interior (assim como frequenta uma igreja católica e faz perguntas insolentes ao padre que já não o pode ver à frente). Não precisamos de saber mais – e que esta “economia” do saber transformada em mistério e pudor (em obscuridade no meio da transparência) não é uma regra aprendida no “clássico” eis o que ninguém se atreva a negar.

Mas podemos saber isto: Maggie, a personagem interpretada por Hilary Swank é candidata a boxer e procura Frankie Dunn (Clint Eastwood), um velho treinador que acabou de ficar sem o seu pupilo, para a ajudar. Ele resiste em aceitá-la, mas a persistência dela convence-o. Ela tem uma carreira em ascensão rapidíssima, chega à beira de ser campeã do mundo, mas acontece um acidente que a atira para um hospital…

Hilary Swank é extraordinária no papel principal, reduzindo-se a si própria totalmente no processo, no fim de tudo estamos a ver Maggie, todas as notas parecem verdadeiras e entregues com um grau de concentração extraordinário. Clint Eastwood (geralmente bastante inapto como ator) da uma excelente performance, uma rara ocasião em que consegue ir mais longe do que sempre maneirismos. Morgan Freeman faz aqui o melhor trabalho da sua carreira como Scrap, o confidente de Frankie.

Milion Dollar Baby explora temas como o arrependimento, a determinação, a afeição e o preconceito de forma tão refletiva e deliberada que o resultado final acaba por ser um dos filmes mais dolorosos que já assisti. E ainda que não chegue o resultado final sem alguns erros pelo meio (sobretudo de lógica) não deixa de ser de louvar, uma obra-prima.

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