Movimentos cinematográficos – Expressionismo Alemão

O Expressionismo Alemão foi um movimento advindo da corrente expressionista que surgia na Alemanha no período que sucedeu a I Guerra Mundial.
Para falar sobre tal vertente é necessário antes entender o contexto no qual a mesma terminou por surgir:
O país havia se estabelecido enquanto Império desde a sua unificação no ano de 1871, sendo sua estrutura nesse período de desenvolvimento muito semelhante a da Roma Antiga, uma vez que contavam com a existência de reis-vassalos.
Desde a instauração do Império, ocorreu a recomposição do país que tinha uma população infinitamente menor, uma economia relativamente baixa e sobretudo voltada para o que tangia os aspectos do crescimento rural, para um número demográfico que praticamente dobrou, trazendo consigo e com a II Revolução Industrial, uma realidade mais aprazível de prosperidade econômica, e de expansão urbana interna.

Berlim, 1871

Durante os 47 anos nos quais perduraram o Império, a Alemanha se destacou em inúmeras áreas da indústria e da ciência de modo geral, tendo a mesma recebido mais prêmios Nobel do que outras grande potências da época como Grã-Bretanha e Rússia.
Com o desenvolvimento e destaque de países tão específicos no seio europeu, aumentou o número de políticas imperialistas, o que associado a uma série de outros fatores, acabou por gerar a 1ªGrande guerra, também conhecida como I Guerra Mundial.

O que se desenrola ao longo do conflito não precisa ser explanado nesta crítica, mas somente o resultado final e posterior a essa contenda que teve como indicativo de um período tão brutal, a morte de cerca de 9 milhões de pessoas, além de estabelecer a vitória da Tríplice Entente (Reino Unido, França e Império Russo), e por conseguinte a derrota da Tríplice Aliança (Alemanha, Império Austro-húngaro e Itália).
A significância por trás desses eventos históricos e a correlação objetiva que pode ser encontrada para a exposição de tais situações, se apresenta num cenário que se contrapõe para evidenciar o que era a Alemanha anterior ao surgimento da guerra e o que ela se tornou depois.
É através desse ponto de transição entre uma economia forte, bem estruturada, com um poderio altamente expansivo dentro do cenário europeu, para um país que foi derrotado na contenda, submetido as condições definidas no Tratado de Versalhes e coagido ao pagamento de multas de valores exorbitantes as nações vencedoras, que se evidencia o nascer de características e condições que corroboraram pro maior desenvolvimento do existencialismo como movimento artístico, o que naturalmente inclui o cinema.
Metrópolis – Fritz Lang

O Expressionismo alemão se evidenciou enquanto movimento, como uma força produtiva artística que se propunha a vanguarda, ainda que apesar de trazer inovações em relação a uma variedade de pontos, abraçava características de alguns movimentos mais antigos, como o romancismo.
Tendo como objetivo a busca de uma realidade mais profunda, o movimento acaba por sacrificar o realismo figurativo em prol do emocional, a partir da introdução de elementos que remetiam a questões amplamente subjetivas, ou até mesmo tratando de temas mais generalistas sobre uma ótica mais específica, considerando um grande número de variáveis correlacionadas a psiquê das personagens e ao contexto no qual se inseriam.
Considerando o período e a condição existente na Alemanha no momento, é possível notar que o movimento abarca uma multiplicidade de temáticas, mas que ainda que a variação possa se mostrar presente com uma certa frequência, nota-se sobre essas obras um conjunto de características que tendem a se repetir, e que podem ser justificadas a partir de uma análise sobre as mesmas.

Com o país em estado de desequilíbrio financeiro, e com os seus cidadãos sendo submetidos a uma nova conjuntura social, onde o desenvolvimento econômico, tecnológico e territorial que estava sendo visto até então, acabou por ser interrompido e ceifado no âmago do seu crescimento, o nascimento de sentimentos relacionados a um forte medo pelas incertezas do futuro, associado a uma recusa da figura do que era externo ao ser (o que acabou por promover uma onda nacionalista que termina por corroborar nos anos seguintes para o progresso da ideologia Nazista), os movimentos artísticos invariavelmente incorporaram o reverberar dessa sociedade, traduzindo isso na linguagem cinematográfica através de diferentes recursos que na fotografia foram trazidos através da utilização de uma estética mais sombria, e que no que diz respeito ao roteiro e as temáticas gerou a presença evidente de conflitos internos nas personas, e a existência de uma atmosfera que transitava entre o fantástico e o macabro.
A realidade que se fazia presente provocava uma forte recusa nos indivíduos, e no cinema isso foi demarcado através da implementação de uma noção não-realística do cenário, o qual era muitas vezes deformado, ou construído intencionalmente para o filme, sempre apontando uma fuga do que seria mais palpável em um universo concreto.
O Gabinete do Dr. Caligari – Robert Wiene

É importante perceber que antes do nascimento de tal movimento, a exploração da fantasia e da percepção do mistério de forma tão evidenciada só havia sido notada com maior destaque nos filmes de George Mélies, os quais foram representativos da utilização de meios tecnológicos no cinema, para a formatação do que hoje chamamos de efeitos especiais. Ainda que nos filmes de Mélies o cenário pudesse se construir de forma fantástica e completamente diferente do real, as diferenças no que tange o objetivo e a temática aplicada por trás deles, se diferem de forma dispare das do expressionismo.
No movimento expressionista, toda a força é aplicada para o sucumbir de um cenário que beirava o apocalíptico, não necessariamente por nortear um caminho para um destino final e imutável, mas sim pela evidenciação de um mundo que se mostra por si só como fantástico, uma vez que tudo que lhe diz respeito evoca a ideia do que é não-humano, ou demasiadamente introspectivo, caminhando bilateralmente entre o impensável no sentido presente, e o intocável no que se dirige ao âmago da psiquê humana e das possíveis idiossincrasias a nível individual.

Inúmeros filmes podem ser apontados como significativos para o Expressionismo, e coabita entre eles a utilização de recursos que servem inclusive para consolidar a ideia do movimento, porém, alguns em especiais se tornaram referência no que diz respeito a implementação da estética tão associada ao expressionismo. Dentre eles, destacam-se:

O Gabinete do Dr. Caligari (Robert Wiene, 1920)

 

O Estudante de Praga (Paul Wegener, 1913)

 

O Golem, Como Ele Veio ao Mundo (Paul Wegener, 1920)

 

M – O vampiro de Düsseldorf (Fritz Lang, 1931)

 

Metropolis (Fritz lang, 1927)

Nosferatu (F. W. Murnau, 1922)

Com o passar dos anos outros movimentos foram surgindo, e muitos filmes acabaram por não mais se enquadrar necessariamente dentro de alguns deles, contudo, ainda na atualidade é possível perceber incontáveis referências ao Expressionismo e a sua força em diversos trabalhos, reivindicando características específicas de perspectivas lançadas desde o período inicial do movimento.
Diante disso, para encerrar esse artigo, segue abaixo três filmes da atualidade (lê-se últimos 30 anos), que terminaram por nos agraciar com referências tão claras a esse que foi um dos mais importantes movimentos cinematográficos:

Edward Mãos de Tesoura (Tim Burton, 1991)

O Labirinto do Fauno (Guillermo Del Toro, 2006)

Sin City – A Cidade do Pecado (Frank Miller e Robert Rodriguez, 2005)

Obs: Esse artigo faz parte de um conjunto de outros artigos que serão aqui publicados, referente ao projeto Movimentos Cinematográficos

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William Diniz

Um jovem estudante do cinema e de toda a sua complexidade, que se debruça diariamente diante daquilo que mais ama, e se entrega com eloquência a 7ª Arte. Aprendiz de cineasta, amante de uma profusão de diretores e pseudo cinéfilo.

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