Crítica | “Dogville” Lars Von Trier e a crueldade

Aqui no Cinerama nós temos uma liberdade bem legal para analisar diversos filmes, como por exemplo estas duas análises que a galera colocou no ar, uma sobre o Clube da Luta e a outra sobre O Senhor dos Anéis.

O que eu resolvi fazer? Eu resolvi encarar a missão de te indicar mais um ótimo e difícil filme

O que eu espero com esse texto é fazer você dar um passinho a mais em direção aos filmes complicados de assistir. Essa é a graça da arte, eu não estou aqui para te traduzir nada, só vou te apontar um caminho que eu segui e que me serviu; dali pra frente a tarefa é toda sua, caberá a você encarar o filme e descobrir suas próprias interpretações.

A sua experiência refletida no filme

Quando um estranho torna-se um problema?

Você obedece a uma rotina especifica na sua vida e os seus dias estão amparados por essa rotina. Imagine que o seu cotidiano funciona como uma roupa nova, assim que ela é comprada algumas coisas não se acertam bem, talvez a cor da roupa seja excessivamente chamativa, talvez a etiqueta fique incomodando ou você apenas se sinta inseguro de ter de usar aquela roupa nova sem saber se será bem recebido ou não. Com o passar do tempo, e após muitas lavagens, a roupa ganha contornos e se adapta perfeitamente ao seu jeito, a sua personalidade ganha uma extensão através da roupa.  A cidade de Dogville funciona como uma roupa, apesar de problemática, suas falhas e seus defeitos se encaixam perfeitamente do mesmo modo que a sola do seu sapato se adapta ao seu modo de caminhar.

O que acontece quando um elemento estranho é apresentado a sua rotina?

Se você imaginar que o começo de uma pessoa nova no seu trabalho, um novo aluno na sua sala. Um novo professor para uma matéria antiga, enfim, todos os elementos de mudança causam uma readaptação da rotina, a readaptação gera um vácuo momentâneo, o espaço entre a antiga rotina, local seguro em que o cotidiano já estava adaptado, e os novos dias, local devassado pela presença estranha, este espaço entre um modelo antigo e o novo pode ser ocupado por toda a sorte de sentimentos.

Explico; você pode sentir aversão pelo colega novo, ou apaixonar-se por ele, ou sentir medo, raiva, raramente a sua resposta será o desinteresse. É com isso que Dogville brinca. Dogville analisa, de forma cruel e sem pudor, como um elemento estranho pode ser objeto dos mais variados sentimentos.

Dogville olha para o preconceito

Sem estabelecer nenhuma espécie de censura o filme demonstra que a relação entre nós e o elemento estranho depende unicamente da nossa sensação de poder com relação a ele; Como assim? Bem assim.

Imagine três situações… A casa ou o apartamento ao lado está vago, sempre esteve vago, você vive ao lado deste espaço vazio por mais tempo do que consegue se lembrar, pois bem… Amanhã ele estará ocupado.

No primeiro cenário ele será ocupado por um mendigo que não tem sequer o que comer, o sujeito vai certamente passar frio e fome se ninguém fizer nada e como você é a pessoa mais próxima a ele, a responsabilidade acaba sendo sua.

Uma outra possibilidade é o espaço vago ser ocupado por um ex detento, este cumpriu pena por roubo seguido de morte e agora será o seu novo vizinho.

A terceira alternativa é o apartamento ao lado ser ocupado pelo seu chefe, pela diretora do seu colégio, o seu professor mais rígido ou a figura de autoridade mais importante da sua vida.

E agora cabe a você entender e determinar qual será a sua reação para cada situação, Dogville analisa isso através da violência e o diretor, sempre despudorado, não tem receios em apontar o dedo na cara e dizer o que ele pensa que você faria em cada uma das situações.

Nós sabemos que o filme é muito mais do que isso, eu poderia ficar aqui falando sobre a fotografia, sobre como o filme funciona através de um cenário Teatral, poderia escrever sobre cada uma das personagens ou avisar, assim meio que sem querer, que o filme conta com a participação da Nicole Kidman, mas nós estamos em 2017 e eu sei que a maioria de vocês já sabe de tudo isso.

A questão é, como assistir a esse filme?

Assim mesmo, com a mente aberta, esteja pronto para cenas chocantes, esteja pronto para o terror do preconceito e esteja pronto para reconhecer-se humano em cada um deles.

Lars Von Trier vai te chocar e ele, normalmente, não pede desculpas.

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Vinicios Lombardi

Estudante de jornalismo, escrevo por compulsão e vejo filmes pelo mesmo motivo, às vezes é o contrário. Me arrisco em curtas metragens, até já me deixaram gritar "corta" e me chamaram de diretor em um set de filmagem, vai entender.

"O cinema é um modo divino de contar a vida"
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