Forrest Gump: uma mente pequena, um grande coração.

O Filme
Corre, Forrest, corre!” (“Run, Forrest, Run!”, para o leitor mais purista) é um dos bordões mais famosos do cinema. E por mais que você, por alguma razão, não tenha assistido ao filme, já deve ter ouvido. A imagem do jovem Tom Hanks correndo ficou marcada e imortalizada na mente de vários cinéfilos e, se me permitem a analogia, irá “percorrer” por gerações.
A história de vida de um simples rapaz com baixo Q.I vindo do Alabama, caiu tanto no gosto do público que ganhou as principais categorias do Oscar. Inclusive o de melhor filme, competindo com o cultuado “Pulp Fiction” de Quentin Tarantino e “Um sonho de liberdade” – muitos consideram essa disputa uma das mais acirradas da categoria.
Mas afinal, por que um filme com um roteiro aparentemente simples conseguiu tal feito? Tentarei, observem bem, tentarei responder essa pergunta.

Em uma rápida sinopse, Forrest Gump narra a trajetória de vida de Forrest (Tom Hanks), um jovem do interior do sul dos Estados Unidos cuja principal característica, pelo menos para aqueles que interagem com ele, é seu intelecto limitado. O cara é um idiota, para ser mais direto. Sua única amiga de infância, por quem nutre uma paixão, é Jenny Curran.
Mas Forrest é um bom corredor. Habilidade essa que não apenas o cura “milagrosamente” da poliomielite como também abre oportunidades para seu futuro. Seja fugindo dos problemas da vida ou usando o amor por Jenny como força-motriz, Forrest corre, o que consequentemente o envolve em situações cômicas, inesperadas e inusitadas.

A direção de Robert Zemeckis foi essencial para o sucesso do filme. O diretor, cuja imagem era associada na época ao uso de efeitos especiais devido ao grande sucesso da trilogia “De volta para o Futuro”, investiu no uso de CGI – até então restrito aos gêneros de ficção e fantasia. O resultado foram as inovadoras e surreais cenas em que celebridades históricas falecidas interagiam com os atores.
Se por um lado o CGI possibilitou recriações de momentos históricos, por outro rentabilizou a produção ao economizar com o uso de cenários. Vale a pena ressaltar também a fotografia estonteante do filme com cenas panorâmicas que possibilitaram desfrutar das paisagens e diversidades norte-americanas.

Paleta de cores.

A trilha sonora do filme é uma playlist das melhores musicas do rock das décadas de 1960 e 1970. Podemos encontrar Joan Baez, Bob Dylan, The Mamas and the Papas, The Supremes etc. The Doors tem um total de seis musicas no filme. Assim, o filme imerge o personagem e o espectador na cultura musical contemporânea.
Mesmo com todos esses pontos positivos, creio que o que mais cativou o público foi a característica gentil, adorável e ingenua de Forrest, um idiota alheio a tudo que acontece ao seu redor. Suas atitudes prestativas e educadas contrastam e suavizam momentos sombrios e delicados envolvendo guerra e racismo. O fato de um homem limitado conseguir viver “o sonho americano”, tornou-o exemplo, ainda que ideológico, de cidadão americano.
Com tantos pontos a favor da sociedade norte-americana, não é atoa que, em 2011, o filme foi escolhido, junto com outros 24 filmes, para ser preservado como “tesouro nacional, cultural e artístico” no Registro Nacional de Filmes da Biblioteca do Congresso Americano.

Forrest sendo condecorado pelo presidente Lyndon Johnson.

O livro

Nenhum texto alternativo automático disponível.
Edição brasileira. Um único livro. Sobrecapa dupla-face. O leitor pode alternar a versão que preferir.

Lançado em 1986, o romance de Winston Groom ganhou mais notoriedade após o lançamento do filme. Aproveitando o sucesso cinematográfico, em 1995, o livro vendeu 1,4 milhões de exemplares brochuras usando o poster do filme como capa. Logo depois seria lançado um livro bônus e uma continuação.
Porém, o romance é totalmente diferente da versão apresentada no cinema. Logo na primeira frase do livro, percebemos que ele encara a vida de um modo mais satírico que o filme.
Narrado em primeira pessoa, Forrest apresenta-se como um homem de quase dois metros de altura e pesando 110 kg. Ele é ciente de sua condição e de como as pessoas lidam com ela. Aliás, essa condição é melhor explicada no livro: idiot savant. Ou seja, mesmo não sendo capaz de realizar tarefas simples, Forrest é capaz de desenvolver rapidamente habilidades excepcionais como tocar gaita, memorizar formulas matemáticas e jogar xadrez.
O autor usa o personagem em situações extravagantemente cômicas (eu ri em diversos momentos) para que o leitor perceba a estupidez e o absurdo de um mundo comandado por pessoas ditas normais. São diversas críticas aos políticos, à Guerra do Vietnã, à instituições como a NASA, à industria do cinema e ao entretenimento barato de luta profissional.
Forrest segue seu instinto e não seus deveres. E se envolve em situações que surpreenderia o leitor mais conservador ou puritano. Em todo o livro há esse plano de fundo anti-establishment. Toda essa sátira e subversividade foi descartada do filme – que ironicamente recebeu o Oscar de melhor roteiro adaptado – adotando um tom mais passivo e conformista. Não é de se admirar que Winston Groom detestou o filme e deixou isso bem claro na continuação “Gump & Co” (1995).
No Brasil, o livro foi lançado pela editora Aleph em uma belíssima edição comemorativa – o melhor lançamento editorial de 2016, na minha opinião. A tradução foi fiel ao original, mantendo os erros e desvios gramaticais e ortográficos do narrador, possibilitando ao leitor uma leitura envolvente e perto do real.
Possui capa dura branca com ícones do filme em baixo relevo; bela sobrecapa dupla-face (azul ou vermelha, o leitor escolhe), papel polén bold no miolo e couché supremo no revestimento e sobrecapa; ricamente ilustrado por Rafael Coutinho e, ao final, um texto de Isabelle Roblin que melhor aborda e detalha as diferenças entre o filme e o livro. Segue um vídeo para melhor detalhamento físico.

Deixa eu te falar uma coisa: que livro incrível. Vale, e muito, a pena a leitura. Assim como prestigiar o trabalho editorial impecável da Aleph.

"O cinema é um modo divino de contar a vida"
Federico Fellini

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