Crítica | Pesadelo em “Manchester by the Sea”

“[…] I’m beginning to see the light […]”

-Música de Ella Fitzgerald

Uma mulher que te ama a seu lado, filhos saudáveis sorrindo e brincando, um irmão para todas as horas e um sobrinho adorável. Uma família perfeita. Uma vida perfeita. Um sonho. Você acorda, se espreguiça, boceja, olha para o lado e vê um vazio, sente um vazio. Nada daquilo era real. Você entra em desespero, aquilo só pode ser um pesadelo, você tenta acordar para escapar, mas não tem como apagar o que aconteceu, não tem como fugir da realidade.

Casey Affleck

Manchester by the Sea (uma pequena cidade de Massachusetts e também nome desse filme) conta a história de Lee Chandler (Casey Affleck) que acabou de perder seu irmão e se vê obrigado a mudar sua vida e enfrentar os demônios do passado, que ainda o atormentam e vivem naquela cidade, para cuidar de seu sobrinho órfão. Tudo naquela cidade o faz lembrar de seu passado, que ele faz de tudo para deixar enterrado, embora não consiga. Ele ainda está preso a tudo o que aconteceu com ele e por isso não consegue seguir em frente.

O cinema que nasceu como uma forma de fuga da realidade, mostrando fantasias que o homem jamais alcançaria, foi se adaptando ao longo do tempo e funcionando muitas vezes como uma fuga dos sonhos, ou seja, filmes que mostram a realidade crua, fria e relacionamentos mais conturbados e reais do que a própria vida, na qual muitas vezes fechamos os olhos e fingimos não ver. Tudo isso desde clássicos como E o Vento Levou, mostrando que o amor nem sempre é lindo e perfeito para todo sempre, até os atuais filmes depressivos de Charlie Kauffman e sem esquecer de Woody Allen, Richard Linklater, Kelly Reichardt, entre muitos outros. Manchester by the Sea é mais um exemplo belíssimo dessa fuga dos sonhos que o cinema pode ser.

O filme de Kenneth Lonergan consegue transmitir essa realidade em todos os sentidos, desde o drama sem toda aquela carga pesada, mas ainda capaz de emocionar até os mais durões em conjunto com uma trilha sonora sutil e uma fotografia mais acinzentada e depressiva graças ao clima da Nova Inglaterra. Além de trazer conflitos plausíveis e um humor totalmente cotidiano e encantador. Porém, o maior mérito do filme e do diretor/roteirista se dá por conta das pessoas e suas relações.

Poster do filme com a cena mais emblemática

Um casting louvável, exaltando o melhor de cada um, trazendo toda a carga emocional que Casey Affleck é capaz e que não conseguíamos ver em outros papéis; o jovem Lucas Hedges iniciando sua carreira com o pé direito e com tanto tempo de tela, conseguiu uma química lindíssima com Casey; e para fechar a incrível Michelle Williams, que mesmo com tão pouco tempo de tela, mas com um roteiro bem escrito e uma direção impecável, conseguiu passar para o público toda a profundidade de sua personagem e de seu relacionamento tão complexo com o personagem de Casey Affleck. Propiciando, por exemplo, uma das cenas mais dramáticas e memoráveis do cinema dos últimos anos.

Às vezes, quando não conseguimos acordar de um pesadelo, é porque ele é real e quando finalmente nos damos conta disso, fica mais fácil se levantar e seguir em frente. Manchester by the Sea nos ensina acordar para vida e não fugir dela.

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"O cinema é um modo divino de contar a vida"
Federico Fellini

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