Do enredo synthwave de Drive para o animalesco Taxi Driver

Textão somente para os excitados em analisar dois filmes excelentes

Parte 1 – Drive (2010) de Nicolas Winding Refn

Temos visto o quão estranhas as coisas podem ficar à noite..Bom, as coisas estão prestes a serem muito mais estranhas.
Este misterioso motorista engana os policiais, à pensarem  que ele irá estacionar, mas então allhell breaks loose.
Sua jogada ainda é desconcertante para a polícia, a forma como desvia toda a estrada, dirigindo como um homem possesso.Em algum instante ele irá contornar para a zona do crepúsculo. Watch.
Mas num piscar de olhos será visto novamente.
Ele está girando da polícia for a loop, volta imediatamente, exibindo uma aparente velocidade sobrenatural…Por um momento, o motorista e seu veículo parecem desaparecer no ar rarefeito..
Os oficiais, vendo isto, têm um rápido vislumbre do homem atrás do volante.Será a última visão que terão.
Desta vez, ele tenta passar a frente da polícia em vez de sumir..Uma cerca no fim da pista indica no way out …. ou não?
Mesmo olhando novamente, os caras são incapazes de entender..
Tudo que veem é a cerca intacta e nada mais do que as luzes trazeiras desaparecendo, o que o departamento policial de Garden City chamou de: The Gost Car.

Direto ao ponto este prelúdio adapta Pacific Coast Highway de Kavinski, ao que Drive figura nos  seus sete primeiros minutos.

De adrenalina e equilíbrio, Ryan Gosling entende e aplica no longa mais popular do dinamarquês Nicolas Winding Refn.  Drive humaniza (for real) um cara simples envolvido em roubo e assassinato.

…encurralado e contra as probabilidades
Com sua força de vontade e sua causa
Suas ações são impressionantes
Você é emocionalmente complexo
Na contra mão de reivindicações distópicas
Seus pensamentos e ações não são para agradar
E você, provou, ser ,

diz a letra de A Real Hero (Collegefeat. Electric Youth).

The driver (a própria referência do filme ao personagem) em seu ofício prestado à situações que exigem ação e precisão. De dia é dublê de perseguição de filmes, de tarde suja as mãos em um trabalho modesto na oficina de um conhecido, e de noite, cobre bad guys em corrida contra a polícia.

Este motorista faz o bem e se abre para uma aproximação bacana com uma mãe e seu filho, e mostra ter sanidade convincente para tomar as rédeas com virilidade, coerção e necessidade. Oh Ryan que viril de sua parte.

movie ryan gosling drive

Todo o cenário induz o prazer de andar de carro. As cores prendem e combinam com o astral quente de velocidade. As luvas Gaspar de Gosling as tight as fit para segurar o volante. A soundtrack é o filme em si à portas e janelas fechadas, com o cálido estilo synthwave – uma onda vinda a partir dos anos 2000 para o som clichê sintetizado e ardente dos anos 80. E seus automóveis.

Como parte determinante da trilha tudo a ver com a sonoridade de Drive, compõe a obra o ruído abafado de cidade no interior de um carro e o som elétrico francês de Kavinski. Este fixa mais por ser o próprio filme em sua pegada ¨dirigir um carro às altas horas¨. Ouvir somente o álbum OutRun o ambiente sintético do filme é o mesmo.

Há ainda o som também elétrico mas com o beat melódico que remete ao sentimento oitentista, em Under your spell (Desire), Lady( Chromatics), Heartbets (The Knife), Journal of Ardency (Class Actress) e Goodbye Horses (Psyche).

Como alternativa de trilha encontra-se em várias playlists um outro típico som electric french do grupo M83, bem simbólico e místico para uma banda eletrônica.

Cliff Martinez é o que contribui com a trilha original – não apenas em Drive mas em Só Deus Perdoa (2013) e o novíssimo The Neon Demon, do mesmo Winding Refn. Martinez envolveu o som ambiente tanto nas cenas estáticas (relação do driver com Irene, interpretada pela doce Carey Mulligan) quanto nas cenas em movimento e com fundo dramático pesado, devido ao que o personagem é levado a fazer. Skull Crushing e Hammer representam bem isto. Não apenas Martinez “deu a cena”, que o filme carrega , à música de fundo. A banda de synthpop Chromatics incorporou todo o abafo e contagem que o driver está , quando em aguardo de transportar dois ladrões acompanha a rodada dos segundos no relógio. Tudo em Tick of the Clock.

Ouça CHROMATICS / TICK OF THE CLOCK (Film Edit) de JOHNNY JEWEL #np na #SoundCloud

 

Parte 2 – Taxi Driver (1976) de Martin Scorsese

Em Taxi Driver, um taxista que não dorme à noite e por isto trabalha somente este período, conhece todo o centro urbano e o caos e a sujeira que impregna ele. Se apaixona, se enlouquece. Luta pelo bem de uma mocinha das ruas e dos motéis… mas trama o assassinato de um homem público.

Travis está ocupando sua mente com muitos devaneios aqui. Ao tomar posse de 4 revólveres, dedica o dia em brincar com eles e treinar sua defesa/ataque. Robert De Niro e sua habilidade em observar, analisar e depois falar em filmes de ação, traz o drama certeiro.

Mas mesmo com estes traços aceitáveis é complicado absorver o filme, inclusive nos 15 minutos finais.

Se em Drive há sanidade precisa, aqui o segundo motorista falta lhe o mesmo. Não dormir á noite ou até dias, “brincar” com 4 armas. Ter tempo de sobra para stalkear e escrever. Travis não transparece sua espécie de transtorno aos outros no filme, mas é apresentado como lúcido e de opinião popular sobre os males da cidade. Este driver não é tão humanizado quanto o primeiro, mas Martin Scorsese consegue convencer de que ele é um anti-herói. Mesmo que isso só seja percebido nos momentos finais do longa.

Pode ser que não também. Verdade seja dita que o filme é um clássico e está presente nos debates entre cinéfilos.

A trilha original feita pelo mesmo que fez em Cidadão Kane e Psicose, se mostra marcante na abertura e nas cenas com o De Niro/Travis. Tem um peso considerável por ambientar a decadência e o movimento das ruas de Nova Iorque dos anos 70, através de um jazz sensual e surpreso.

Bernard Herrmann captou momentos de maior contato interpessoal de Travis com a loucura – ou, joguinho de ser uma outra pessoa em frente o espelho. Com 4 armas escondidas pelo corpo. Com muitos pensamentos na cabeça.

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Um destes momentos está na faixa The 44 Magnum is a Monster, como um apego dele com a arma mais potente que comprou. Mune ele para ataque de forma planejada e não para uma tragada rápida. Assim como se vê na cena em que, na cadeira encostado e de análise suspeita, olha para o televisor apontando certeiro ao rosto que está na tela.

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Me espanto e admiro pela loucura de senso crítico que ele passa em palavras em seu diário. Diary of a Taxi Driver é mais um momento. ¨Todos os animais saem à noite¨ diz Travis, ¨sujeitos, rainhas, fadas, dopantes, viciados. Doentio, venal. Um dia uma chuva de verdade irá lavar toda esta escória das ruas¨. E por aí percorre toda a faixa em mais relatos grotescos e imorais das entranhas da cidade, e ameaças, e desabafos. Herrmann reuniu a maioria das falas de todo o filme, o que parece ser um turbilhão melancólico, o ponto de vista do motorista.

Parte 3 – Desfecho

A descrição e enfim a comparação dos dois personagens para com sua profissão, serviram de relato do que pode se chamar de paradoxo de papéis. Ambos trabalham á sombra da sociedade e nas sombras da cidade. Sem querer humanizar o que já é (the driver) e o que é absurdo de ser (Travis), é difícil não reparar na vida solitária. E porquê não amaldiçoada? O driver de Winding Refn é agraciado com companhia e autocontrole, mas justo através do que sabe fazer de melhor se envolve com o lado da máfia e se torna como um deles por uns momentos. O de Scorsese dá um desconforto por não ter seu passado apresentado como é sua solidão e devaneio, mas é impecável a sacada irônica da moral e da decadência nele em repugnar a sociedade apesar de ser o único repugnado na história.

Desfecho foi sucinto, porque escrever não é fácil. Fora este detalhe, a abordagem destes dois suspenses clássicos cada qual à seu tempo e atualidade, é de inteira percepção admirável do conjunto da obra. Dois diretores que trabalham os opostos do ser humano personificado em tela; atuação contida e atraente de dois atores boa pinta; trilha sonora fucking good.

Afinal, qual é o melhor e mais confiável “herói” ?

 


Letícia Nunes

Cinema: artefato preferido // [email protected]

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