Um episódio de House of Cards analisado em três aspectos fundamentais.

  • Crítica com altos níveis de SPOILER

House of Cards é sem dúvidas uma das melhores séries desta década, por ser relevante e pioneira, quando se trata das produções originais da nossa querida Netflix, que se estabeleceu como uma produtora de conteúdo respeitável após o lançamento do drama político.

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A esmagadora maioria de seus episódios são memoráveis, com cenas que já entraram para o hall da fama das séries. Quem não se lembra de quando o protagonista, Frank Underwood, forjou o suicídio de Peter Russo? Ou empurrou Zoe Barnes à sua morte? Quem não se lembra quando, no último episódio da segunda temporada, ele concluiu seu plano e assumiu a presidência dos Estados Unidos, sendo chamado de “Senhor Presidente” pela primeira vez?

Todos esses momentos ficarão marcados por muito tempo em nossas memórias, por terem contribuído para a construção de House of Cards como conhecemos, mas há um episódio em especial. Um que foi capaz de nos arrepiar e emocionar como nenhum outro, através de elementos narrativos tão bem usados que caracterizam uma obra-prima.

Falaremos aqui sobre o capítulo 43 (S04E04), onde Frank, já presidente, é baleado em campanha, abordando três aspectos fundamentais do episódio.

 

1 – Humanização

Frank Underwood não é uma boa pessoa. Ponto. Em sua subida ao poder, interesses pesam mais do que moral e isso é perfeitamente compreensível, é parte do núcleo de um personagem escrito para ser inteligente e implacável.

Isso não quer dizer, porém, que a série não se preocupe em dar a ele momentos pontuais de humanização, como acontece nesse episódio, onde o presidente dos Estados Unidos senta ao lado de seu mais fiel guarda-costas, Edward Meechum, para refletir a respeito de uma pintura que está pendurada em uma das paredes da Casa Branca. Meechum diz que gosta das cores, Frank diz que que odeia o quadro e o agente imediatamente muda de ideia.

Frank então tira o quadro da parede e pede a caneta e a mão de Meechum, para, num ato carinhoso, desenhá-la na parede onde ficava o quadro.

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A cena contrasta com a personalidade do protagonista, nos mostrando um pouco do outro lado (já previamente estabelecido) da sua relação com seu segurança.

2 – Choque

Frank faz um discurso de sua campanha que viaja pelo país, ao som abafado de opositores que protestam contra as decisões de seu governo e especialmente contra a sua reeleição. Enquanto ele explica os maus necessários da presidência, vemos Meechum em primeiro plano, no backstage, como uma entidade alerta que o protegerá a qualquer custo.

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Ao terminar o discurso, Frank sai para falar com os manifestantes. Uma boa estratégia, mas uma péssima decisão. A câmera que filma através da multidão nos anuncia que algo está à espreita do presidente, como um predador que se esconde em moitas esperando para dar o bote.

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E então, acontece. O susto. O momento que nem os mais atentos espectadores previram:

Lucas, arruinado pela paranoia e descrença alheia sobre o assassinato de Zoe Barnes, da sua última investida para derrubar Frank Underwood. Ele falha, obviamente, mas provoca tumulto e é morto por Meechum, que também não sobrevive aos eventos desse segmento e é deixado para trás, como um peão sacrificado para que o rei possa continuar em jogo. Um exercício forçado de desapego para todos que assistíamos à série.

3 – Mudança

A terceira metade do episódio retrata a loucura da mídia acerca da tentativa de assassinato ao líder do país e o peso do poder caindo sobre as costas daqueles que não estão preparados para lidar com ele.

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Donald sendo notificado sobre Frank

Donald Blythe, o vice-presidente que o próprio Frank desqualificou como profissional, subitamente recebe uma promoção e se torna o presidente em exercício dos EUA. A história toma um rumo muito mais interno e minimalista. É quase impossível, para mim, narrar os eventos deste episódio sem me render à empolgação. A linguagem se torna o principal elemento de exposição aqui. Temos a câmera nos ombros de um líder cuja respiração é instável. Um homem antes subestimado, agora espalha o silêncio ao entrar numa sala.

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A responsabilidade de uma nação caiu sobre alguém que mal consegue segurar uma caneta sem tremer na frente de seus colegas, que agora são obrigados a chamá-lo de “Mr. President” e responderem às suas ordens, enquanto a incerteza sobre a vida do verdadeiro líder do país paira sobre todos.

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“Mr. Vice… Mr. President”

Sem dúvidas esse é um episódio perspicaz, que contribui (e muito) para a construção do mito de Frank Underwood, sintetizando a humanidade sutil e a voracidade do protagonista da série, além de seu espírito de sobrevivência acima de tudo e todos, nos mostrando que ele é o único capaz de fazer história e deixar um legado através do poder. Outros podem ocupar o seu cargo, mas ninguém pode lhe fazer tanta justiça quanto Underwood.

 

 


Gabriel Martins

Adicto às artes, pois através delas a vida ganha sentido.

"O cinema é um modo divino de contar a vida"
Federico Fellini

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