Uma entrevista com o criador de ‘Black Mirror’ sobre tecnologia, política e o futuro

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE UK.

Falar de algo tão fugaz quanto o “presente” é praticamente um trabalho de Sísifo. Mas é chocante ver quanto o planeta está diferente do que era em 2011 — apenas cinco anos atrás — quando Black Mirror de Charlie Brooker estreou na TV inglesa. Formado por três histórias separadas, cada uma propondo um cenário ameaçador no futuro de “e se” por meio da interação entre tecnologia e a sociedade, a série pintou um futuro que era igualmente sombrio e interessante, além de desconcertantemente plausível.

Mas agora, no entranho e escabroso pesadelo que é 2016, é difícil dizer se Black Mirroré mais necessário que nunca ou se acabou se tornando redundante. Por que roteirizar o pesadelo quando a realidade é tão ruim ou pior?

Quando encontrei com Brooker num restaurante do Soho em Londres, eu não sabia se devia esperar alguém divertido e convidativo, ou cínico e incrédulo. Antecipar essa última opção não me parecia pouco razoável. Uma das possíveis críticas a Black Mirror, particularmente do público de “millennials egoístas” que formam uma porção substancial dos espectadores, é o potencial da série de se tornar o meme “velho grita com as nuvens”. O programa é uma crítica social, ou só um cara de 40 anos reclamando que ficamos com a cara colada no celular o tempo inteiro?

“Com certeza sou da geração que está sempre suspeitando do nível de atuação exigida pelas redes sociais”, diz Brooker. “Sou velho o suficiente para achar que selfies são meio estranhas, mas consigo entender que isso é mais interessante — olhar para trás e ver como você mudou com os anos — do que fotos escrotas que tentei tirar de um pôr do sol em 2006.”

Dito isso, ele não vê a série como um veículo de julgamento, ou condenando nosso relacionamento com as telas. “Não sou antitecnologia no geral, só me preocupo com tudo. Me preocupo em queimar a língua com esse chá, ou acabar enfiando essa colher no meu olho”, ele disse, bruscamente erguendo uma pequena colher de prata até o nível dos olhos.

Se há mais em jogo que cinismo distópico, Black Mirror é um projeto mal compreendido? Ele se preocupa, por exemplo, como o nome da série se tornou um sinônimo para qualquer evento remotamente sinistro envolvendo tecnologia? “Não me importo, isso é publicidade grátis — toda vez que algo fodido acontece as pessoas mencionam o programa”, diz. “Se a Samsung lança um celular que explode, todo mundo diz ‘nossa, isso é tão Black Mirror‘. Se isso é ruim para o mundo, provavelmente é bom para a marca!”

Ele ri, mas é impossível não reconhecer um toque de frustração em sua voz quando ele menciona a visão binária da série que algumas pessoas têm de “tecnologia dando errado”. “Acho que, às vezes, quando as pessoas fazem uma paródia da série, elas perdem quão consciente de si a série é”, diz ele. “Eu sei quando ela está sendo um pouco boba.”

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É uma distinção importante, considerando a taxa de progresso impossível de frear do século 21. A ideia de ser criticado por se comportar de uma certa maneira é alienante e redutivo. Mas, de maneira crucial, Black Mirror nunca tentou realmente fazer as pessoas parecerem idiotas; sua intenção sempre foi fazer as pessoas parecerem pessoas. Com falhas e sem o software exigido para lidar com as ameaças e promessas da era digital.

Por exemplo “Volto já”, com certeza um dos melhores episódios da segunda temporada — se não da série inteira. O episódio é uma hora angustiante de televisão, onde uma mulher clona seu marido recém-falecido usando como base suas atividades nas redes sociais. O episódio não é pregação: os personagens ficam confusos e em conflito moral, tanto quanto os espectadores. É isso que a sátira deve ser num mundo cada vez mais extremo? Íntima e pessoal?

“Possivelmente”, Brooker concordar. “Não pensei nisso assim, mas é possível que tenhamos que partir para isso se a realidade começar a ultrapassar o caráter grotesco do mundo ficcional.”

Essa ultrapassagem, claro, alude especificamente a dois episódios proféticos de Black Mirror — um da primeira temporada, “Hino Nacional”, e um da segunda, “Momento Waldo”, com similaridades bizarras com dois eventos políticos reais: a derrocada de Cameron com a história de sexo com um porco e a ascensão de Donald Trump. Mas, embora os paralelos tenham uma semelhança aterradora, os episódios mostram mais a mente de um roteirista que teme a oclocracia e a corrosão da democracia. Pergunto a ele onde esse medo nasceu. “Quantos anos você tem?”, ele pergunta.

“25”, respondo.

“Tenho 45, literalmente vinte anos mais velho que você, seu maldito jovem”, ele exclama. “Olha, a coisa mais formativa que consigo lembrar era quando parecia que uma guerra nuclear era uma coisa real e possível. No começo dos anos 80, parecia que estávamos nos preparando, bem literalmente, para enfrentar uma guerra nuclear. Assisti a documentários sobre isso, dramas sobre isso, e era assim que eu achava que ia morrer, como resultado da tecnologia e do progresso. Achei que ia morrer numa grande bola de fogo. Esse é um pensamento traumático — que fica com você — e acho que isso aparece em Black Mirror.”

Brooker entrega esse ponto com o mesmo tipo de desdém extravagante que ele aperfeiçoou em anos de painéis de discussão da série. É como dar de ombros com palavras, algo que faz o apocalipse iminente soar como se ele só tivesse derramando café na camisa.

“É isso que me preocupa nos meus filhos”, ele ri, como se estivesse achando engraçado quão horrível o mundo pode se tornar para seus filhos, de dois e quatro anos. “Não tenho medo que eles percam a noção de realidade em 2030 colocando headsets de realidade virtual que permitam que eles comam hologramas, ou sei lá o quê. Tenho medo dos grandes mísseis nucleares escondidos lá nos silos, só esperando alguém que vá lançá-los.”

Para alguém tão temeroso da política, ou pelo menos profundamente desconfiado, fico curioso em saber se ele já foi engajado politicamente. “Como qualquer um, tenho minhas tradições — cresci numa casa que votava no Partido dos Trabalhadores, e definitivamente prefiro ficar do lado esquerdo das coisas”, ele diz. “Mas acho que conforme fui envelhecendo, fui ficando menos certo das minhas convicções, ou menos certo das minhas opiniões.”

O clima atual da Grã-Bretanha, ele me diz, faz ele ter saudades dos dias mais simples de Cameron e Clegg. “Sinto saudade de um tempo, poucos anos atrás, quando tudo era sem graça — quando todos os políticos eram iguais e todo mundo era chato, seguro e estável”, ele analisa. “Mandei um e-mail para Chris Morris depois do referendo, dizendo ‘você devia fazer um Brass Eye sobre o Brexit — sabe, meio que um e-mail de fã — e ele me disse: ‘Bom, o problema é que é preciso de alguma forma de autoridade para subverter para que o programa funcione, sem isso, novas ferramentas são necessárias’.”

Ele fica mais animado quanto mais pensa nisso. “Realmente parece que estamos numa época febril agora”, ele continua. “Você tem figuras carismáticas aparecendo por todos os lados, ou monstros — dependendo do seu ângulo. Quando surge alguém como Corbyn, que parece uma banda indie — como o Arab Strap, com fãs apaixonados, você admira isso, mas não consegue imaginá-los entrando para o mainstream. Admiro isso, mas meu lado chato e pragmático diz ‘Sério? Você realmente acha que isso vai funcionar?'”

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Então o trabalho começado em 2016 já acabou? “Pense assim”, ele diz. “Normalmente, temos nossa primeira reunião de roteiristas sobre a série do final de ano, agora. Este ano, tivemos a reunião em julho.”

Com nosso tempo acabando, minha última pergunta se relaciona com um projeto de Charlie Brooker: Nathan Barley.

“Primeira coisa, para esclarecer”, ele interrompe, enquanto as palavras estão saindo da minha boca. “Tem um episódio de Nathan Barley no qual eles fazem uma edição da revista Sugar Ape chamada ‘Edição VICE’, que não deveria ser uma comparação direta — foi uma coincidência, só coincidência. Depois que o episódio saiu as pessoas disseram ‘Ah, zoando a revista VICE’, e eu pensei, ‘Não! Claro que as pessoas iam achar isso!’ Acho que o logo até era parecido com o da VICE. Pensamos na VICE, claro, mas não era para ser uma zoação direta.

“É estranho pensar nessa série agora”, ele continua, agora que esclareceu as coisas. “Trabalhamos num roteiro para uma segunda série que não era mais sobre a revista de estilo, mas sobre ele ter seu apoio financeiro cortado. Ele teria que encarar a dura realidade, que — se conhecêssemos o termo — seria bem mais ‘millennial’. Ele ficava perdido no mundo onde as coisas estavam desmoronando, e tinha menos certeza das coisas.”

Enquanto nos despedimos, fico impressionado com esse Nathan Barley hipotético, se debatendo por baixo do verniz irônico desmoronando. Isso diz muito sobre o próprio Brooker não estar desmoronando, mas um escritor que muitas vezes é entendido como cínico, quando na verdade está tentando comunicar uma grama da perplexidade que todos nós sentimos. Não que ele vá dizer isso, claro.

Como ele coloca: “Acho que seria arrogante da minha parte achar que posso mudar a cabeça das pessoas com uma obra de ficção. Tenho certeza que isso já aconteceu, mas não sei se eu sou a pessoa certa para fazer isso”.

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Fonte: Vice

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Caio Augusto

Estudante, 21 anos, apresentador do canal Cinerama TV, e o maior fã do Scorsese que você respeita.

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Federico Fellini

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