Crítica | O Homem que caiu na Terra, o primeiro filme protagonizado por David Bowie

 O inicio do ano de 2016 foi marcado por mortes inesperadas de alguns famosos. Dentre eles, David Bowie. O artista britânico influenciou fortemente o cenário musical e deixou seu legado. O “camaleão do rock“, como era conhecido, inovava e reinventava  tanto sua imagem quanto seu estilo musical e causava diversas reações naqueles que o viam e ouviam suas músicas. No entanto, Bowie não ficou limitado apenas na carreira de cantor. Em 1976, ele viria a protagonizar seu primeiro filme: O Homem que caiu na Terra, dirigido por Nicolas Roeg.

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Thomas se apresenta ao advogado Farnsworth.

 O enredo do filme centra-se em Thomas Jerome Newton – ou pelo menos, esse é o seu nome humano -, um humanoide que vem à Terra com uma delicada e complicada missão. Escolhido por seus semelhantes, Thomas estuda a língua e comportamento humano através de vídeos captados no espaço e deve seguir rigidamente o cronograma de um plano que lhe é confiado.
A princípio, Thomas sobrevive vendendo anéis em lojas de penhores, até que consegue capital suficiente para contratar Oliver Farnsworth, o melhor advogado especializado em patentes. Usando as tecnologias de seu planeta de origem, Newton funda um conglomerado poderoso no ramo tecnológico (fotografia, televisão e aparelhos de som) e se torna um bilionário excêntrico e recluso. Mas este é apenas o segundo passo de seu plano.
O professor universitário Nathan Bryce, parece ser o único a notar e se maravilhar com as fotos de alta resolução oriundas das máquinas fotográficas das empresas de Newton. Logo começa a investigar seu funcionamento e se depara com algo totalmente novo. A investigação de Bryce torna-se obsessiva e o leva a se esforça ao máximo para conhecer esse misterioso homem e trabalhar com ele – o que consegue depois de um tempo. Movido pelo instinto, Bryce tenta solucionar uma dúvida inquietante: seria Newton de outro mundo ?
Enquanto isso, Thomas conhece Mary-Lou. Apesar de Farnsworth ser o único contato de Newton com o mundo, Mary-Lou torna-se uma amiga íntima e o introduz na degustação de gim.

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Newton e Mary-Lu discutem o sentido da vida.

 Aliado à sua popularidade, carisma e versatilidade artística, Bowie pareceu ser a escolha ideal para o papel. A excentricidade, androgenia e isolamento de Newton lembra bastante Ziggy Stardust, personagem alienígena bissexual de seu álbum “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars” de 1972. Esse fato quase nos leva a acreditar que o papel estava destinado a ele.
O filme leva o espectador a ter uma visão de “estrangeiro” sobre a espécie humana. Vemos um ser “puro” sendo corrompido e, aos poucos, desviado de seus objetivos pelos vícios e distrações humanas. Tudo isso leva a uma reflexão sobre a natureza escapista e auto-destrutiva do ser humano. Há também o levante para discussões sobre indiferença ao sentimento de pessoas próximas; ganância implacável do meio empresarial; espionagem do governo na era da Guerra Fria e uma leve sugestão ambiental sobre a importância da água.

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Paleta de cores.

 Vale ressaltar que a direção de Nicolas Roeg preferiu contar a história de modo não convencional. A narrativa dá saltos e apresenta planos aparentemente sem conexões. Motivações para determinadas atitudes não são bem esclarecidas, dificultando, assim, o entendimento do espectador. Não há qualquer aviso de passagem de tempo, só se percebe isso quando os atores aparecem envelhecidos pela maquiagem.
A própria origem e motivações do protagonista possui lacunas pouco explicadas: é preciso estar atento a alguns diálogos e memórias de Newton para entender melhor as circunstâncias.
Roeg prioriza cenas de nudez e sexo, restringindo o público a uma faixa etária mais madura.

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Edição brasileira do livro. Fonte: DarkSide Books.

 O filme é uma adaptação do livro homônimo de Walter Tevis lançado em 1963. Somente agora, em 2016, ele ganha uma versão brasileira através da editora DarkSide Books. O livro é esteticamente bem trabalhado: capa dura, fita de marcação, bordas alaranjadas e uma diagramação excelente.
Parece clichê, mas o livro supera o filme. Várias informações omitidas no filme são descritas no livro: o planeta de Newton e o que o levou à sua situação devastada; as características físicas do humanoide; as divagações e reflexões que levam Newton a duvidar do sucesso de sua missão. Depois de ler e assistir ao filme, fica a impressão de que houve uma dificuldade de adaptação de roteiro e direção.
No entanto, o ponto comum do livro e do filme está na discussão do voo de Ícaro: quantas vezes nos deparamos com situações que exigem tanto de nós que acabamos por duvidar da nossa capacidade de sucesso. Quando isso acontece procuramos por escapismos para aliviar a tensão. Um voo tão alto requer disciplina e organização, qualquer distração pode ser motivo para sua queda.
O Homem que caiu na Terra é um Sci-Fi dramático, restrito a espectadores atentos que gostam de ler nas entrelinhas e assistir a algo diferente. Indicado para fãs de David Bowie e do cinema cult. Caso esteja interessado em detalhes e maior imersão, o livro é mais indicado. Vale muito a pena a leitura.

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