Crítica | Encontro Marcado “5 to 7”

5 to 7  é um filme romântico americano com direção e roteiro de Victor Levin, estrelado por Anton Yelchin , Bérénice Marlohe ,Olivia Thirlby , Lambert Wilson , Frank Langella e Glenn Close 

A premissa da película foi inspirada por um casal francês em um casamento aberto que Levin conheceu na década de 1980. Embora ele tenha completado o primeiro rascunho do filme em 2007, o projeto permaneceu em desenvolvimento por mais sete anos devido a questões de elenco. Diane Kruger foi inicialmente escalada como Arielle, mas foi substituída por Marlohe. As filmagens começaram em maio de 2013 em Nova York e aconteceram principalmente no Upper East Side de Manhattan. A trilha sonora do filme foi composta por Danny Bensi e Saunder Jurriaans.

5 a 7 foi estreada no Tribeca Film Festival em 19 de abril de 2014. Também foi exibido no 2014 Traverse City Film Festival , onde ganhou o prêmio do público de Melhor Filme Americano. O filme foi lançado nos cinemas em 3 de abril de 2015 pela IFC Films . Ele arrecadou US $ 674.579 nas bilheterias mundiais e recebeu críticas positivas dos críticos.

Alguns dos melhores escritos de Nova York não estão em livros, filmes e peças, mas no banco do Central Park.“, narra Brian a frase que inicia a trama do filme… o banco do Central Park é o local onde a Arielle e Valéry escreveram um trecho dos seus votos de casamento: — I Will Hold Your Heart More Tenderly Than My Own.  Desde o início Valéry foi assim com Arielle: sólido, substancioso e bondoso. Fica claro que sentimento existe, Valéry ama Arielle, fez a promessa de um ser movido pela racionalidade e pelo maior sentimento, o amor. Só o amor é capaz de compreender as necessidades do outro, só o amor é capaz de perdoar a traição, só o amor nos torna capaz de nos fazer conviver com a pessoa que amamos, mesmo sabendo que nós mesmos, tão somente, não somos unicamente a razão pela qual se explica o brilho dos olhos da pessoa amada. Há uma terceira pessoa sobre a qual estamos disposto a conviver para tornar a pessoa que amamos mais feliz. É a redenção, é a promessa de colocar o coração do outro em primeiro lugar, mesmo que isso custe a sua própria felicidade. Por mais absurdo que pareça, amar alguém que possui paixão por outra pessoa que não é você, parece triste, mas na prática, não é mais triste do que perdê-la para outra pessoa. Como dizia Vinicius de Moraes “é melhor sofrer junto que viver feliz sozinho“.

O sentimento do filme não é algo comum entre a nossa cultura monogâmica. Brian é um rapaz de 24 anos que não está preocupado em ter amigos ou namoradas, tudo o que ele fazia antes de conhecer Arielle se resumia em escrever, ler e resmungar para si mesmo. Mas existe uma lenda que diz que “em Nova York nunca estamos mais que 6m de distância de alguém que conhecemos, ou alguém que deveríamos conhecer”
Existem pessoas que não acreditam em amor a primeira vista, e, existe o Brian e a Arielle para nos mostrar que esse é o único amor verdadeiro. 
Quando encontramos o amor das nossas vidas, o coração acelera, falta o ar, temos a sensação de ter borboletas no estômago é como ser adolescente novamente, é como o poema Presságio de Fernando Pessoa:

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente

Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…
(…)

A atuação de Anton Yelchin é realmente algo louvável, ele compreendeu o personagem, ele sentiu cada detalhe e conseguiu transmitir as emoções para o espectador. É possível saber o que ele sente através da respiração e da pausa, o grande teatrólogo, dramaturgo, Nelson Rodrigues dizia que “A maioria das pessoas imaginam que o mais importante no diálogo é a palavra. Engano: o mais importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão.”

A ansiedade que nos induz ao primeiro encontro não permite que nada na natureza interrompa o amor. É debaixo de dois guarda-chuvas que Brian e Arielle têm o primeiro encontro. E é um teste, para saber com qual tipo de pessoa estão lidando. No decorrer do passeio no parque, existe um distanciamento comportamental no Brian quando Arielle revela que é casada. Em seu discuso nota-se indignação, ele está realmente intrigado por aquela bela mulher ser comprometida. Arielle tece críticas aos americanos, diz que estes precisam de sinais visíveis para poder manter a situação em controle e diz que algumas coisas podem ser subentendidas.
Essas críticas devem ser mencionadas porque são duas culturas diferentes e esse é um dos pontos interessantes, onde os franceses conhecidos pela libertinagem do famoso Marquês de Sade entram em contato com a cultura conservadora dos americanos. Fica claro nos diálogos que Arielle tenta moldar os costumes de Brian. De alguma forma, Brian começa a pensar fora da caixinha, largando um pouco da moral e da ética que tanto preservava.

“Um relacionamento 5 às 7, é um relacionamento extraconjugal”, nessa frase Arielle apresenta ao Brian a liberdade do seu casamento aberto e os limites. A regra nunca deve ser descumprida. Isso nos mostra que toda regra tem sua exceção, mas que a exceção também utiliza regras. 

No Brasil, Nelson Rodrigues escreveu a crônica “Curiosa”, inserida no livro “A Vida Como Ela É” e mais tarde representada na série de mesmo nome, na GLOBO… onde Carvalhinho afirmou “Mulher não se rejeita, ainda mais mulher casada. A mulher casada é uma desiludida.”. E ao contrário dos franceses que traem das 17h às 19h, na série Carvalhinho indicava ao Serafim para marcar o encontro extraconjugal às 09h da manhã, “nenhum marido desconfia da mulher às 09h00 da manhã”. É compreensível, no caso do nosso casal francês (Arielle e Valéry) o relacionamento extraconjugal é um acordo mútuo, ambos sabem que existe uma terceira pessoa. E uma das regras da exceção é justamente essa: saber o horário definido para que essa relação possa acontecer. O Valéry não só desconfia, como tem a certeza de que  sua esposa está acompanhada. Dessa forma, Valéry sente que tem o controle da situação. Enquanto souber o que Arielle faz, com quem faz, e a hora que faz, Valéry sente-se seguro. É como o pacto de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Satre. Uma forma que os franceses têm de não aderir aos costumes burgueses. O que eles nunca entendem é que o desejo da posse, é algo inerente ao ser humano, todos nós possuímos independentemente de classes sociais, regras, exceções das regras, ou regras das exceções. Para o poliamor dá certo, é necessário que todos tenham em mente a ideia clara que o amor não obedece limites, e que se A, B e C querem ficar juntos, de forma harmoniosa, todos devem ter os mesmos direitos, sem que A diga a B como deve ser o relacionamento com C. O amor deve ser compartilhado com todos, sem intervenções, como no filme de Woody Allen “Vicky Cristina Barcelona”, Maria Elena, Cristina e Juan Antonio viveram um poliamor; ou como escreveu Jorge Amado em Dona Flor e Seus Dois Maridos, os personagens Dona Flor e Vadinho se amavam quando dava vontade… sendo que, nesse caso para ser concreto, é preferível que estejam todos vivos, para que exista um diálogo e ninguém se sinta enganado. 

“Foi assim que escolhemos viver… temos nossas razões para as escolhas que fizemos”, disse Arielle. Isso foi um acordo mútuo, amar e ser amado e respeitar as paixões sobre a qual não temos o controle. Os dois têm esse controle, mas a terceira pessoa que entrar nesse relacionamento vai ter que se encaixar e se conformar com o pouco que lhe é oferecido. 

Mais uma vez Arielle enfatiza a diferença cultural entre eles:

— Está chocado com tudo isso, não está?
— Eu… estou.
— Devo dizer que na minha cultura, isso não é julgado tão duramente.
—Mas não estamos na sua cultura. Estamos na minha cultura e nela, se não tivéssemos coisas para julgar, não saberíamos o que fazer o dia todo.
— Talvez a sua cultura precise se desenvolver. Talvez exista outra maneira de olhar a vida. Talvez haja pessoas com quem nos casamos, e outras que amamos.

Nesse diálogo entre Arielle e Brian, fica claro como os franceses e os americanos enxergam os relacionamentos. Os americanos estão mais preocupados em julgar do que em conciliar. E os franceses, nem sempre casam com as pessoas que amam (isso não acontece só na frança)  que é algo compreensível. Todo mundo já amou um dia, e como cantou Zé Ramalho “Quem tem amor na vida, tem sorte”, mas nem todo mundo casou com a pessoa amada . São vários os motivos que nos separam do grande amor das nossas vidas: interesses diferentes, morte, amor não correspondido, orgulho… como disse Nelson Rodrigues “Tudo nos induz ao equívoco do amor. A educação, o ambiente social, familiar, a comodidade nunca nos levam ao amor total. E o amor, até agora, só se tem realizado por acaso. E é muito perseguido por todos, porque ninguém admite que alguém seja bem-sucedido no amor”.

Outro diálogo cultural interessante:

— Sempre olhe a pessoa nos olhos quando brindar.
— Eu sei. 7 anos de azar.
— Azar? Essa é a versão americana?
— Isso. Qual é a francesa?
— 7 anos de sexo ruim.

Uma coisa existe em comum: superstição.

“Fico feliz que ela o conheceu, Brian. No pouco tempo em que ela conheceu você, percebi um brilho no olhar dela que nunca tinha visto antes. E fico muito feliz por isso. Quero lhe agradecer.”, disse Valéry. 
Esse brilho nos olhos da Arielle, que o marido enxergava, tinha nome e tinha forma, era o Brian. Valéry fez questão de encontrar com ele, para conhecer de perto e familiarizar o Brian com as regras. Foi uma atitude inesperada, o que sente uma pessoa a ficar frente a frente com o amante da pessoa amada? Por maior preparo psicológico que possua, deve ser inquietante por dentro. Valéry via um brilho nos olhos da esposa que não era causado por ele, mas por outro homem. Isso certamente entristecia o seu coração, mas ele jurou colocar o coração dela em primeiro lugar, e cumpriu. 

“Esqueça os conceitos sobre as pessoas, Brian. O mundo o surpreenderá com coisas boas, se permitir.”, disse Arielle para Brian quando ele falou que se sentia culpado em ficar com ela, depois de ter conhecido o seu marido. 
É interessante também observar que no jantar, a câmera passa a observar com os olhos de Brian, o filme tem início com a sua narração. Agora, o cenário do jantar familiar com a presença de filhos, amantes e amigos, passa a ser observado com olhos do Brian  certamente isso tem um significado. A câmera tem o olhar mais próximo sob o ponto de vista do personagem, esse olhar passa a ser o olhar do espectador, nós passamos a ser o Brian nesse momento. Isso é algo intencional, no início eu falei da boa atuação do Anton, de como ele nos transmite os sentimentos, agora, o diretor transmitiu ao espectador a deliciosa viagem ao cenário do filme. Quando a câmera deixa de enxergar pelos olhos de Brian e passa a focar no ambiente e nas expressões das outras pessoas, estamos com a mesma expressão que o Brian quando a Arielle fala que o jantar está servido.
E isso é algo incrível, é um truque de mestre do Victor Levin, desde o início tudo o que o diretor quis foi nos colocar no lugar do Brian. 

A carta de despedida que Arielle escreveu para o Brian é muito emocionante, ela fala que não casou apaixonada, que nunca havia se apaixonado e que agora que realmente está apaixonada, não vai poder viver esse amor. O que Arielle conhecia como amor, não possuía o fogo da paixão. O tempo separou Arielle e Brian por causa dos interesses familiares. Não foi a diferença de idade, de cultura, nem a crença, ou as opiniões que impediram a realização desse amor. Foi a promessa “Cuidarei com mais carinho do seu coração do que do meu”.



Resumo do filme
Brian Bloom ( Anton Yelchin ), um escritor de 24 anos que luta na cidade de Nova York, conhece uma mulher francesa de 33 anos chamada Arielle Pierpoint ( Bérénice Marlohe ). Eles se sentem poderosamente atraídos um pelo outro. Depois do segundo encontro, Arielle revela que é casada com um diplomata, Valéry ( Lambert Wilson ), e eles têm dois filhos pequenos. Arielle e Valéry concordam que cada um pode ter casos extraconjugais, desde que estejam limitados ao horário entre as 17h e as 19h, durante a semana. Brian fica perplexo com essa informação e diz a Arielle que ele não pode continuar o relacionamento com ela, acreditando que é um assunto antiético. Arielle diz que, se ele mudar de ideia, ela continuará a fumar nas sextas-feiras no mesmo lugar em que se encontraram.

Depois de três semanas, Brian decide se encontrar novamente com Arielle. Ela lhe dá uma chave do hotel e à noite no quarto do hotel consumam seu relacionamento. Eles começam a se reunir regularmente no mesmo quarto de hotel à noite. Valéry, que está ciente do caso de Brian com Arielle, se aproxima dele na rua e convida Brian para sua casa para o jantar. No jantar, Brian conhece os filhos de Arielle e Valéry e é apresentado à amante de Valéry, uma editora de 25 anos chamada Jane ( Olivia Thirlby ). Arielle mais tarde conhece os pais de Brian, Sam ( Frank Langella ) e Arlene ( Glenn Close). Ao saber que Arielle é uma mãe casada de dois filhos, Sam diz a Brian que ele desaprova o relacionamento, enquanto Arlene aceita que eles se amam apesar das circunstâncias. Quando Brian é convidado para uma cerimônia nova-iorquina para receber um prêmio por um de seus contos, ele é acompanhado por Arielle, Valéry, Jane e seus pais. Jane diz a Brian que seu chefe, Galassi ( Eric Stoltz ), um editor, leu sua história e quer que Brian escreva um romance.

Brian encontra Arielle no hotel e pede que ela se case com ele, dando-lhe um anel. Brian insiste que ele está verdadeiramente apaixonado por ela, e Arielle aceita sua proposta, dizendo-lhe para encontrá-la no dia seguinte no hotel. Valéry aparece no apartamento de Brian naquela noite; Ele bate Brian e expressa a raiva pela traição de Brian das regras e limites de um casamento aberto. Ele então dá a Brian um cheque de US $ 250.000 para Brian dar a Arielle a vida que ela merece e deixa. No dia seguinte, o porteiro do hotel entrega a Brian uma carta de Arielle na qual ela explica que, embora o ame profundamente, não pode deixar o marido e os filhos e pede que ele não entre em contato novamente.

Jane depois termina seu relacionamento com Valéry porque parece uma traição à sua amizade com Brian, e o primeiro romance de Brian é publicado por Galassi. Depois de alguns anos, Brian está andando pela rua com sua esposa, Kiva (Jocelyn DeBoer), e seu filho de dois anos de idade. Eles se deparam com Arielle, Valéry e seus filhos agora adolescentes fora do Guggenheim. Valéry pergunta sobre Jane e Brian diz que ela é casada e tem um filho. Arielle mostra Brian sutilmente que ela ainda usa o anel que ele deu a ela antes de se separarem novamente.



Paula Priscila de Melo Barbosa

24 anos; De JP/CG-PB com o ❤ no RJ; Estudante de Direito; Pesquisadora e apaixonada por Chico Buarque, Tom Jobim e Nelson Rodrigues. "A arte é o desencadear da nossa dor. Tanto para quem faz, quanto para quem contempla" — sim, essa citação é minha!

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