Crítica | Colheita Amarga

Para falar sobre o filme Colheita Amarga é preciso analisar duas situações. O filme que deveria ter acontecido, o alvo onde os produtores, os atores e os diretores miraram. E o filme que aconteceu… esse bem… vamos começar.

A história se passa no período entre a Primeira e Segunda Guerra Mundial. O cenário é a Ucrânia. O filme conta a transformação do país ao longo da Revolução Bolchevique, iniciando a narrativa no período do Czar, passando pela vida de Lenin e terminando nos terríveis crimes perpetrados por Stalin.

Colheita Amarga apresenta uma Ucrânia parecida com a “Vila dos Hobbits”. Habitantes simpáticos, trabalhadores, cheios de amor. Com pouco conforto, mas habituados a vida em uma sociedade linda e maravilhosa, vivendo da terra e distribuindo sorrisos – é, é um filme, né?

Claramente, o filme tinha a intenção de se tornar um drama de proporções épicas. Com heroísmo, personagens instigantes, reviravoltas, dores. Desespero (muito desespero), discursos inflamados e plotes secundários de grande efeito.

📷 Califórnia Filmes / Divulgação

E sejamos justos, Colheita Amarga tem alguns desses elementos. Uma trilha sonora bem composta, cenários belíssimos e bem construídos, e o mais importante, um plano de fundo que daria para transformar quase qualquer coisa em uma grande produção. Com essa receita, era impossível errar… mas o filme erra.

Começando pelo roteiro, ele é qualquer coisa, exceto coerente. Para tentar ilustrar, a impressão é que o diretor sentou com um grupo de roteiristas e disse “ok, vamos lá, vamos todos dar ideias para esse filme” e aí veio aquela enxurrada de cenas, algumas boas, algumas ruins, algumas ridículas. Depois de ouvir todas elas o diretor deve ter dito “É isso, nós vamos gravar TODAS, podemos começar”.

📷 Califórnia Filmes / Divulgação

Pois, não existe outra maneira de descrever a inacreditável sucessão de acontecimentos do filme em determinados momentos. Ele é tão abundantemente confuso que me faltam exemplos para apontar o erro mais grave.

Em uma cena onde a mocinha (a protagonista) está a uma situação difícil com o vilão, a cena estava se desdobrando de maneira tensa e, diga-se, habitual, eis que sem aviso o filme toma um rumo completamente esquisito e absurdo. É uma curva tão brusca e despropositada que você fica sem saber qual será a nova direção da narrativa. Era um filme histórico dramático, agora entrou em algo interno e psicológico, para onde vamos? E sabe para onde o filme vai? Para lugar nenhum.

Então, na cena seguinte, a mocinha se junta a um grupo de amiguinhos dela para enfim, criarem uma resistência, e a cena mais uma vez toma um desfecho abrupto e difícil de aceitar.

Isso se repete ao longo de toda a narrativa. Personagens são construídos e substituídos na velocidade da luz. Problemas são criados e resolvidos tão rapidamente que é impossível se apegar a qualquer um deles. Na próxima cena já tem um personagem novo, fazendo algo importante para a narrativa, sendo esquecido no instante seguinte.

📷 Califórnia Filmes / Divulgação

Problema absurdo número 2: a escolha dos atores. Sem entrar em detalhes sobre a produção ou sobre o investimento que esse filme recebeu. Mas alguns atores foram escolhidos de maneira tão ruim, tão ruim, que é difícil ficar preso na trama.

Um filme deve prender o público. Ele deve acessar aquele botãozinho no cérebro que desliga temporariamente a sensação do eu. Abrir essa janela para uma história, que de tão incrível, engloba por inteiro aquele momento de experiência.

Filmes épicos têm o dobro de responsabilidade nesse sentido, eles são projetados para inspirarem e arrancarem grandes emoções do público. Colheita Amarga é terrível nesse quesito. Os atores mal escolhidos, o roteiro confuso e a quantidade de falas autoindulgentes. Tudo isso faz com que o filme seja visto como algo a ser superado, em determinados momentos pensa-se – e aqui o redator vai ter que se sobrepor ao canal e falar por si – vamos lá cara, você já está aqui, já deve ter passado pelo menos uns 5 dias de filme, aguenta, aguenta aí que logo acaba.

📷 Califórnia Filmes / Divulgação

Colheita Amarga é um filme que tinha tudo para ser incrível e inspirador. Um ótimo plano de fundo, boas ideias isoladas e a chance de trazer respiro a um tema que acabou sendo saturado. Contudo, graças a uma sucessão de absurdos e um a roteiro preguiçoso. Uma chuva indefensável de cenas ridículas – estou me lembrando da “luta épica de espadas” no meio de um tiroteio. O filme acabou virando algo duro de aceitar.

Desorganizado, mal interpretado e mal dirigido. Com estréia marcada para o dia 24 de maio, veja por sua conta e risco.

Assista ao trailer:

Califórnia Filmes, Colheita Amarga, comunismo, Drama, Épico, histórico, Stalin


Vinicios Lombardi

Estudante de jornalismo, escrevo por compulsão e vejo filmes pelo mesmo motivo, às vezes é o contrário. Me arrisco em curtas metragens, até já me deixaram gritar "corta" e me chamaram de diretor em um set de filmagem, vai entender.

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Federico Fellini

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